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Despedida do Tamos com Raiva

Mas a raiva (política) há de continuar




Em 20 de março de 2003, há exatos cinco anos, seis meses e dez dias, criamos o blog Tamos com Raiva.

Começamos a discutir política em pleno início da invasão do Iraque, mas também no início da era dos blogs, quando havia apenas diários virtuais na internet brasileira. Isso nos torna um dos blogs de política mais antigos do Brasil.

Passamos por essa guerra na Ásia, mas também por várias outras guerras em outras partes do mundo, especialmente no Brasil. Pela guerra contra a depredação do ecossistema. Pela guerra contra o racismo, o machismo, a homofobia e todos os ismos que nos colonizam em pleno século XXI.

Guerreamos contra políticos corruptos, juízes corruptos, promotores corruptos, empresários, banqueiros, jornalistas, cientistas corruptos. E/ou antiéticos.

A guerra começou com duas colegiais sonhadoras e determinadas, continuou com a ajuda de vários colunistas competentes, terminou com pai e filha brandindo espadas em moinhos (não necessariamente imaginários). No meio do caminho, quase sucumbiu. Mas acabou ressuscitando, em plena páscoa de 2005.

O blog, hoje, recebeu seu 100.000º leitor*. Que veio dos recôndidos da internet buscar alguma informação aqui. Nos privilegiar com a impressão de que tivemos algo a oferecer que pareceu ao leitor uma oferta única, em meio à proliferação de possibilidades do mercado do Google.

Esse leitor provavelmente nos encontrou porque fizemos amigos virtuais nessa blogosfera petulante. Que nos linkaram em seus espaços. Ou nos recomendaram em fóruns e e-mail. Fico com medo de citar nomes, por já termos esbarrado com tanta gente nesse tempo todo. Muitos que fecharam seus blogs de fininho ao longo desses mais de cinco anos. Outros interromperam os trabalhos por um tempo, voltando ao vício em seguida.

Mas é importante citar o professor Ricardo Faria, do Boletim Mineiro de História, o Jaime, da Grooeland, o poeta Talis Andrade, do Aqui não dá, leitores antiguíssimos como o Gabriel Neves, do Questionar, e o Fernando, do falecido Nada de Novo no Front, o George, do Persona non Grata, o Thiago, do Canis Familiares, o portal Spiner, que no divulga desde os primórdios, sites que sempre nos abriram espaço, como o Observatório da Imprensa, a revista Fórum, o site da Mídia Independente o Jornal de Debates e o próprio Novo Jornal. Também alguns dos blogs que nos linkaram: do professor Fernando Massote, do Nogueira Junior, de Glória Reis, Rômulo Gondim, Sérgio Telles, Rachel Costa, Luís Hipólito, além dos blogs Controvérsia, Abundacanalha, A Matéria do Sonho, Desabafo País, Em Cima da Notícia, Por um Novo Brasil, Verdadeiro Jornalismo, Associação de Combate ao Crime, Corrupção e Impunidade e Língua de Trapo. Também é importante citar os leitores fiéis de antes e de agora, como o Ivan Moraes, o Ramiro Queiroz, o Carlos, o Rubem, a Patrícia, nosso designer gráfico Urian, o Alexandre e outros que às vezes somem por meses e podem sempre retornar. A maior riqueza da blogosfera é justamente sua capacidade de proliferação, ad infinitum. Por isso, paro por aqui as citações.

O importante é que ficamos honrados com sua presença, leitor passageiro, leitor fiel.

E aqui nos despedimos, com a sensação de dever cumprido, de limite alcançado, depois de muito trabalho feito com a única vontade de fazer algo bem feito e que consideramos útil e importante. Uma missão, que hoje chega ao fim. 1.244 páginas (devidamente salvadas) depois.

É claro que ainda verão nossos nomes por aí, com as mesmas idéias e bandeiras defendidas no Tamos com Raiva. Com, inclusive, a mesma raiva necessária para se fazer política justa. A NovaE, que nos abriga há mais de um ano e foi nossa maior parceira, continuará sendo um de nossos veículos. Nosso e-mail continuará aberto para receber suas mensagens, informações valiosas, denúncias e desabafos. Mas este blog, que começou no colégio, atravessou a faculdade e prosseguiu por mais de um ano depois, se aposenta.

Com a esperança de que um pouco dessa raiva política que nos move tenha sido disseminada pelo mundo. Ou, ao menos, pela blogosfera.

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* A marca histórica foi atingida às 20h52 deste 30 de setembro, ano novo judaico. A marca dos 90 mil aconteceu no dia 30 de maio, exatos quatro meses atrás.

Terça-feira, Setembro 30, 2008 [ Fala aí: ]EMAIL

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Falta muito pouco




Leiam o último post que escrevemos sobre as eleições e apliquem as várias ferramentas disponíveis na internet para efetivamente conhecerem seus candidatos.

Votem com responsabilidade, mais do que com consciência.

Pensem que vocês, mais do que muitos, têm acesso a informações, sabem bem utilizar o que a web tem a nos oferecer de melhor. Sabem ler e têm discernimento. Sua responsabilidade é, portanto, muito maior que a da maioria da população.

Alguns dados:

- Se você acessa a internet, você faz parte de um grupo de 19% da população brasileira com esse privilégio;
- Se tem nível superior, faz parte de um grupo de 15% da população brasileira com esse diploma;
- Ah sim, se você for negro, pardo ou indígena e com nível superior você se torna quatro vezes mais raro que os universitários brasileiros de cor branca.

Resumo da ópera: o Brasil ainda é inculto, não tem acesso a informações, é racista e machista. Afora isso, há uma discrepância entre Nordeste e Sudeste, ricos e pobres, há uma cratera entre homens-ricos-brancos-sulistas e mulheres-negras-pobres-nordestinas.

E o fato é um só: no regime em que vivemos, o voto é nossa única arma. Contra essas crateras, inclusive. Não podemos desperdiçá-lo.

Bom domingo a todos, porque falta pouco. Muito pouco...

Terça-feira, Setembro 30, 2008 [ Fala aí: ]EMAIL

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Elucubrações sobre um arrombamento




Na sexta-feira passada, o último funcionário do "Novo Jornal" apagou as luzes e trancou a porta da redação do portal de notícias por volta das 20h, segundo seu dono, Marco Aurélio Carone.

Ontem, às 9h, a auxiliar de veiculação Kátia Ferreira chegou ao escritório, em bairro nobre de Belo Horizonte, e encontrou o seguinte:



Computadores roubados (ao todo, quatro CPUs e seis monitores)



Gavetas arrombadas



Objetos no chão, bagunçados e revirados



Uma caixa de documentos desaparecida



Ao menos uma pasta de papéis levada (segundo Carone)


As fotos foram tiradas por mim.

Perguntas que não se calam (e atenuantes antiparanóia entre parêntesis):

- Quem arrombou a redação do "Novo Jornal"? (Pode ter sido um ladrão qualquer)

- Por que o ladrão levou seis CPUs e quatro monitores, mas deixou a impressora, o telefone/fax e nem chegou perto da sala do segundo andar, onde ficam equipamentos mais caros? (Pode ter ouvido barulhos que evitaram sua incursão ao segundo andar)

- Por que o ladrão carregou consigo documentos, papéis, CDs com informações de reportagens? (Não consigo pensar em atenuantes comuns)

- Mesmo se não tivesse levado, por que teria arrombado um arquivo de pastas de papel (onde, portanto, só poderia haver papéis)? (Pode ter tentado encontrar cédulas de dinheiro)

- E por que revirou gavetas; o que buscava? (Pode ter tentado buscar dinheiro)

- Qual o teor dos papéis desaparecidos e a quem as informações contidas neles interessavam? (Não consigo pensar em atenuantes)

Todas são perguntas sem resposta, ao menos enquanto o inquérito policial ainda não termina. Mas a que mais me interessa, sem dúvida, é a primeira. Porque, se for um caso de furto comum, o "Novo Jornal" foi vítima de ladrões com gostos e interesses muito incomuns.

Mas, se for caso de furto de informações, o "Novo Jornal" pode ter sido vítima de uma intimidação ao exercício do jornalismo, corriqueira nos anos da ditadura militar, mas nem tanto em um regime democrático como o nosso. Na calada da noite, sem mandato de busca e apreensão, nem mesmo o processo contra o "Novo Jornal" que hoje corre em segredo de justiça poderia justificar esse ato de vandalismo.

E, então, ficamos com a dúvida mais surpreendente desde o começo do caso "Novo Jornal": quem seriam esses ladrões?

Terça-feira, Setembro 30, 2008 [ Fala aí: ]EMAIL

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Novos tempos!




Vamos combinar o seguinte: este é meu artigo de despedida neste blog. A partir de agora, vou me dedicar à contemplação do ócio. Não quero ser acusado, nessa altura da vida, de ter sido um mau exemplo para meus filhos e netos, trabalhando oito, dez ou doze horas por dia até morrer.

Quero, a partir de agora, ler a Montanha Mágica e tantos outros livros que sempre quis ler e não o fiz por falta de tempo. Quero poder receber um e-mail intitulado “o mais recente projeto de Niemeyer” e, em vez de apreciar a bela concepção arquitetônica do futuro Centro Administrativo do Governo de Minas, começar a me preocupar com questões como:

1. O projeto básico de arquitetura feito pelo escritório de Oscar Niemeyer foi doado ao Governo de Minas pela Fundação Vale do Rio Doce e Caemi Mineração, cujos controladores dependem, muitas vezes, de autorização estadual para explorar recursos minerais nas Minas Gerais. (No dia 15/6/2007, por exemplo, o Ministério Público anunciou que vai investigar se há irregularidade ou crime ambiental nas sondagens que a Vale vem realizando na Serra da Calçada, que acompanha a margem direita da BR-040, no sentido Belo Horizonte/Rio de Janeiro, no limite com o Parque Estadual do Rola-Moça. São cerca de 1.100 hectares que cortam a capital, Nova Lima e Brumadinho. A área verde protege nascentes que ajudam a abastecer milhares de consumidores da região metropolitana e abriga espécies ameaçadas da fauna e flora nacionais.)

2. Em 15 de fevereiro de 2006, o Governo de Minas anunciou a desapropriação da área de 804 mil metros quadrados do Hipódromo Serra Verde, pertencente ao Jockei Clube de Minas Gerais, para a construção do Centro Administrativo, inicialmente previsto para a área do antigo Aeroporto Carlos Prates, da Aeronáutica. Na data, o então secretário do Planejamento e hoje vice-governador, Antônio Anastasia, deu entrevista para explicar as vantagens do novo local. Não se falou no preço da desapropriação. No mesmo dia, o governo informou que o Departamento Estadual de Obras Públicas contratara o escritório Niemeyer para complementar os projetos arquitetônicos. Não se falou em licitação nem em preço, mas certamente o contribuinte mineiro não pagou pouco. Quanto custa um projeto arquitetônico de uma obra orçada inicialmente em 500 milhões de reais e que pode chegar a 1 bilhão?

Não quero mais ficar com raiva por causa de coisinhas tão banais. Nem me interessa se realmente a indenização aos sócios do Jockei Clube foi de R$ 100 milhões e se Antonio Anastasia foi um dos sócios beneficiados, como denunciou no ano passado o site Novo Jornal. Nem quero saber se essa obra estará concluída no final do governo Aécio Neves, como prometido, e se os funcionários públicos estaduais vão se mudar para lá, percorrendo um longo trecho para ir e voltar do serviço, como fazem, em geral, os trabalhadores comuns. Ou se o belo projeto de Niemeyer terá o destino do Parque de Exposições da Gameleira, que desmoronou quase no fim da obra, no governo Israel Pinheiro, matando dezenas de operários, ou do edifício JK, no Centro de Belo Horizonte, iniciado quando Juscelino Kubitschek era governador e que ficou inacabado por dezenas de anos...

Se eu fosse me preocupar com isso, perguntaria: como o governo de Minas vai convencer seus funcionários de que o novo Centro Administrativo é o paraíso na terra? Não deve ser difícil. No final do século XVIII, com a chegada da revolução industrial e suas máquinas a vapor, os operários na Europa se revoltaram com o fim de seus empregos. Quebraram e incendiaram indústrias para exigir o Direito ao Trabalho. Andavam 10 quilômetros, para ir diariamente à fábrica, e faziam o caminho de volta ao fim de um jornada de 14 horas de trabalho. Padres e pastores prometiam-lhes o céu se fossem bons e resignados trabalhadores, e o patrão mantinha-os acorrentados ao salário de sobrevivência – o grilhão dos escravos modernos.

Seria ótimo, se de seis em seis meses não perdessem o emprego, por excesso de produção, embora a burguesia tentasse, ao máximo, consumir tudo o que se produzia.
Com trabalhadores assim, os industriais nem precisavam gastar muito dinheiro comprando máquinas. A produtividade estava garantida, por um preço muito em conta. Nada a ver, é claro, com choques de gestão...

Mas, onde entra o ócio nessa história, e por que o trabalho em excesso é um mau exemplo? Por que, nessa altura da vida, passei a defender o Direito ao Ócio? Simples: onde metade da população está trabalhando em excesso, com a ajuda de máquinas modernas, não há trabalho para a outra metade, que fica condenada ao desemprego. Estimativas de alguns economistas e filósofos não domesticados pelo capital indicam que se a jornada de trabalho fosse reduzida por lei, sem possibilidade de horas-extras, de oito para quatro horas diárias, em todo o mundo, não haveria redução do nível de produção e nem desemprego e miséria provocada pela falta de trabalho. O próprio ócio criativo se encarregaria de criar mais empregos e todos seriam mais felizes.

É isso. Pretendo, a partir de agora, dar a minha contribuição ao ócio, para que, num futuro possível, depois de muitas quebradeiras de bancos e empresas nos Estados Unidos e no resto do mundo, após muitas guerras e mortandades provocadas pelo capitalismo ensandecido, tenhamos, enfim, um mundo melhor para se viver – e que não fosse mais, como dizia Shakespeare (ainda preciso ler muitos livros dele), cheio de ruído e fúria e sem significado algum.

O difícil para os próximos meses, eu sei, não é aprender as delícias do ócio. É esquecer os motivos para estar com raiva...

Um grande abraço aos dois ou três leitores de meus pobres artigos. Vocês merecem um descanso!


Sábado, Setembro 27, 2008 [ Fala aí: ]EMAIL

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Mais um processo kafkaniano




Em tempos de censura ao Novo Jornal, vale relembrar caso parecido de cerceamento que ocorreu com uma professora de Leopoldina (MG), Maria da Glória Costa Reis.

Ela trabalha como voluntária e, entre outras coisas, atende os encarcerados de sua cidade. Desde 2001, publica o jornal Recomeço, onde os detentos escrevem artigos e se fazem ouvir.

Em agosto de 2005, ela cometeu um grave crime: escreveu um editorial.

Leiam com atenção o editorial, na íntegra, e percebam como ele foi "calunioso":

EDITORIAL EDIÇÃO 117 - Que regime é este em Leopoldina?

Com a LEI No 10.792/1º.12.2003, foi criada a RDD (Regime Disciplinar Diferenciado) para aplicação de penalidade disciplinar ao preso pelo cometimento de falta grave, ou seja, "aos líderes e integrantes de facções criminosas e aos presos cujo comportamento exija tratamento específico" (art. 1º). Então, assim ficou a redação na LEP, a Lei de Execuções Penais: "Art. 58. O isolamento, a suspensão e a restrição de direitos não poderão exceder a trinta dias, ressalvada a hipótese do regime disciplinar diferenciado." (Redação da LEI No 10.792/1º.12.2003).

Acontece que, mesmo a RDD garante ao preso "banho de sol por, 'no mínimo', uma hora por dia e visita semanal de duas horas"… (arts. 4º e 5º, II, IV e V da resolução). REGIME COMPLETA UM ANO Como interpretar o fato de que os presos de Leopoldina, que não se enquadram ao perfil de condenados descrito na Lei, estejam num regime mais diferenciado que o RDD, pois o banho de sol é uma vez por semana e a visita é de 15 minutos através das grades? Esta realidade é a confirmação de que ainda vigora o entendimento de que o preso está sujeito a uma relação especial de poder, embora derive da Constituição a obrigatoriedade da proteção dos seus direitos fundamentais tanto pela autoridade judicial, quanto pela autoridade administrativa.

DIREITOS E DEVERES RECÍPROCOS Também vigora o entendimento de que há entre preso e administração penitenciária uma relação de sujeição e não uma relação de direitos e deveres recíprocos entre autoridades e prisioneiros. Não é aceitável a conivência de magistrados, fiscais da lei, advogados, enfim, operadores do direito com tamanha barbárie. O regime atual é um desrespeito à Constituição, à lei, aos cidadãos deste país, enfim, à nossa inteligência.


O Ministério Público do Estado de Minas Gerais (o mesmo do doutor Jarbas Soares Júnior...) ofereceu uma denúncia contra Maria da Glória. Disse que, no trecho final do editorial, que grifei em itálico, ela "difamou", de forma consciente, o juiz José Alfredo Vieira, titular da Vara Criminal de Leopoldina.

(Reação possível = !!! )

Quer dizer que, por ter denunciado problemas na cadeia e citado a conivência de todos os envolvidos com a lei (inclusive o dito-cujo titular da vara criminal), de forma genérica e não nominal, ela cometeu um crime? Se for assim, o Tamos com Raiva está perdido!

Não bastasse o Ministério Público ter denunciado, a juíza Tânia Maria Chain acatou a denúncia e condenou Maria da Glória a quatro meses de detenção (seriam três, mas como a "difamação" foi contra funcionário público, a pena foi acrescida em um terço) e pagamento de 2,67 salários mínimos (= R$ 1.108,00)

A íntegra da sentença de oito páginas deve ser lida aqui.

É espantosa. A sentença insinua até que, com seu editorial (que, cá pra nós, não tem nada de mais), Maria da Glória poderia ter causado rebeliões na cadeia e, possivelmente, até mortes. A lógica da juíza ao definir a sentença foi pelo fato de que Maria da Glória não conseguiu comprovar a "conivência" do juiz com os problemas relatados no editorial – para isso, se prestou até do Houaiss e de sua definição da palavra "conivência".

Esqueceu-se de avaliar o fato de que ela não cita, especificamente, o tal juiz da vara criminal, mas "operadores do direito", entre os quais "magistrados, advogados, fiscais da lei". Ou seja, a própria juíza Tânia Chain foi, por analogia, citada e, se ela não se sentiu ofendida ou difamada, por que interpretou assim com seu colega da vara criminal?

Vivemos em tempos sombrios, de causar inveja a Franz Kafka, em que todos têm medo de emitir opiniões, se expressar, se envolver politicamente em questões sociais. Porque a qualquer momento o Ministério Público pode apresentar denúncia e nos colocar atrás das grades ou fechar nosso jornal ou bloquear nosso site. Enfim, calar nossa boca, arrancar nossa flor do jardim.

Deram azar por terem feito isso justamente contra Maria da Glória, que felizmente não se intimidou. Ela conseguiu apoio de diversas associações e ONGs de defesa dos direitos humanos e da liberdade de expressão – como a Article 19, que levou seu problema até a Organização dos Estados Americanos, ganhando repercussão internacional.

O Marco Aurélio Carone, dono do Novo Jornal, também não se intimidou e se hospedou em novo endereço. Mas talvez devesse levar seu próprio caso às mesmas ONGs, enquanto a liminar que fechou o Novo Jornal – que já dura um mês e dez dias – continua assombrando a internet e Minas Gerais.

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Atualização, às 22h30: Maria da Glória me informou que recorreu da sentença dentro do prazo, em fevereiro, e aguarda uma posição até hoje. Provavelmente o tribunal está num impasse, tendo em vista que a repercussão da pena mantida será ainda maior, com certeza. Enquanto isso, a "ficha" de Glória permanece "suja"...

Além disso, ela disse que escreveu à corregedoria do Tribunal de Justiça de Minas denunciando irregularidades na condução do processo. A resposta da corregedoria, dando total apoio aos juízes, pode ser lida integralmente por aqui.

Terça-feira, Setembro 23, 2008 [ Fala aí: ]EMAIL

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Os mestres do universo




Alívio na República! Deu na Folha de S. Paulo: a Polícia Federal não conseguiu, passados dois meses e meio, desde que a Operação Satiagraha confiscou os discos rígidos dos computadores encontrados no apartamento do banqueiro Daniel Dantas, quebrar a senha que protege os segredos de quem investiu ilegalmente no Opportunity. Peritos acham que vão precisar de pelo menos um ano para desvendar a criptografia que protege os dados. O delegado Protógenes Queiroz, que comandou a operação e foi afastado, diz que os HDs de Dantas "guardam os segredos da República".

Daqui a um ano, se os peritos tiverem sucesso, será a vez do Supremo Tribunal Federal entrar em ação para proteger os que tiverem suas contas retiradas do túmulo... ops! Da caixa forte de Daniel Dantas. (Desculpem o ato falho. A culpa é dos assassinos de PC Farias.)

Por via das dúvidas, vou passar para outro assunto.

Leio no Globo um artigo de Nicholas Kristof, colunista do New York Times. Ele fala de outro banqueiro, Richard Fuld (foto), que preside desde 1993 o Banco Lehman Brothers, fundado nos Estados Unidos há 158 anos, e que só não quebrou agora porque o governo Bush resolveu dar uma de Fernando Henrique Cardoso e criou para os bancos americanos uma rede de proteção à imagem e semelhança do Proer, de novembro de 1995. No sábado, Bush anunciou que o programa de socorro aos bancos dos Estados Unidos custará até US$ 700 bilhões aos contribuintes. O secretário do Tesouro, Henry Paulson, revelou que quer estender o socorro aos bancos estrangeiros que têm negócios nos Estados Unidos.

Nesse período de 15 anos que Fuld gastou para levar o banco à lona, ele embolsou de bonificações quase meio bilhão de dólares. Só no ano passado, foram US$ 45 milhões. Deve estar morrendo de inveja de Daniel Dantas que, dizem, ganhou 1 bilhão de dólares só com as privatizações do Sistema Telebrás. Mas não tem motivos para inveja: não é qualquer um que ganha 17 mil dólares por hora de trabalho.

Kristof aponta um dos problemas do capitalismo moderno: os bônus que as grandes empresas pagam aos executivos para que tenham lucros cada vez maiores, em curto prazo. Gente como Fuld se torna gananciosa e não se preocupa com o futuro do planeta. Algo assim como Aécio Neves, em escala menor, mas inspirado nos mesmos princípios, implantou no governo de Minas com seu choque de gestão.

Essa ganância dos executivos é incentivada pelo governo. Segundo Kristof, o Instituto para o Estudo de Políticas, em Washington, divulgou um estudo mostrando que cinco elementos do código tributário dos Estados Unidos incentivam o pagamento excessivo a executivos, que custam US$ 20 bilhões por ano. "O valor é suficiente para exterminar os vermes de todas as crianças do mundo e reduzir a mortalidade materna mundial em dois terços". Aliás, será por que o governo de Minas vai tão bem, como nos informam a publicidade oficial e toda a imprensa mineira, e a saúde vai tão mal?

Há 30 anos, presidentes das grandes empresas com ações em bolsa, nos Estados Unidos, ganhavam geralmente de 30 a 40 vezes mais que um funcionário da empresa de nível médio. No último ano, o salário de presidentes foi 344 vezes maior que o de trabalhadores médios. Em Minas, por enquanto, a grande diferença está nos salários dos servidores na ativa e dos aposentados. Estes há sete anos não têm reajuste, praticamente, enquanto os da ativa tiveram aumentos salariais na forma de bonificação.

Em artigo ontem no Globo, Luís Fernando Veríssimo chama esses colegas de Daniel Dantas de Mestres do Universo. "São produtos rarefeitos da 'exuberância irracional' que dominou o mercado de capitais nestes últimos anos". Esses mestres inventaram um novo capitalismo, livre dos liberais ortodoxos que protestam quando o estado salva empresas que vão à lona. "Basta, para ter direito ao socialismo que não diz seu nome, que a empresa seja tão grande que sua queda derrubaria mais do que convicções ideológicas. Ou seja, que a empresa tenha o poder de chantagem", escreveu Veríssimo.

Se em vez de empresa ele escrevesse Daniel Dantas...

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Foto: Daily Intel

Segunda-feira, Setembro 22, 2008 [ Fala aí: ]EMAIL

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Você sabe se seu candidato está limpo?




Outro dia divulgamos no Tamos com Raiva um levantamento feito pela Transparência Brasil de todos os candidatos a vereadores com a ficha suja no judiciário.

Hoje trazemos novas munições disponíveis na internet. Nossa idéia é ir atualizando ao máximo, com base em levantamentos feitos por instituições confiáveis, para que nenhum sujeito que tenha um mínimo envolvimento com crimes de improbidade administrativa, ações penais e crimes eleitorais graves seja eleito.

Munição não falta. Cabe a vocês, cidadãos e eleitores, saberem usá-la bem antes de irem às urnas.

Como já defendemos aqui antes, a iniciativa da AMB (Associação dos Magistrados Brasileiros) é muito válida. Não podemos partir do pressuposto da presunção de inocência num país onde 12% dos candidatos a vereadores têm ficha na polícia (ver post de 23/08/2008). Ou onde 60% dos parlamentares federais respondem a processos graves. Temos que adotar tolerância zero contra caras que já têm facilidades demais e os melhores advogados para recorrerem das denúncias de seus crimes e conquistarem votos de novo.

Vale a pena, portanto, entrar no site da AMB e ver quais os candidatos a prefeitos e a vice que respondem a processos abertos pelo Ministério Público referentes à improbidade administrativa ou a processos penais. Em 25/7, dei os nomes dos 16 primeiros divulgados, que eram apenas das capitais. Agora há uma lista de 123 candidatos de outras cidades importantes do país, todas com mais de 100 mil eleitores.

Clique aqui e confira em seu estado.

Decidi não reproduzir toda a lista por uma questão simples, que considero mal resolvida, entre os critérios da associação: nem todos os listados já foram condenados em pelo menos uma instância. Apesar de considerar a iniciativa da AMB importante, não quero misturar aqui o joio e o trigo, pois pode haver alguma denúncia infundada nessa extensa lista.

No entanto, algumas pessoas e situações devem ser destacadas:

- Na época da primeira lista, o PT era o partido com mais candidatos sujos (3). Mas ressaltei que a lista era muito pequena para que isso tivesse alguma relevância. Hoje, numa lista mais de oito vezes maior, o grande líder com candidatos sendo processados é o PMDB (24). Depois dele, vem o PSDB, com 23. Em seguida, com 18 processados cada, vêm PSB, PT e PP. PDT tem 14, DEM tem 12 e PR (do José Alencar), 11. Isso é importante, pois caberia ao partido fazer a seleção prévia dos candidatos, antes de eles serem aprovados em suas convenções.

- O recordista é Galileu Teixeira Machado (PMDB), de Divinópolis (MG), que responde a 12 processos de crime contra a administração pública e por improbidade.

- Ademir Lucas (PSDB), candidato a prefeito de Contagem (cargo que já ocupou), responde a sete processos de improbidade administrativa. Mas um dos seus concorrentes, Paulo Augusto Mattos (PTB), responde a oito.

- Carlos Alberto Calixto (PR) responde a sete processos em Santa Luzia (MG).

- Mais um de Minas! Anderson Adauto (PMDB), que outro dia mesmo era ministro dos Transportes de Lula, responde a cinco, em Uberaba (MG), inclusive por crime de lavagem de dinheiro e quadrilha.

- José Ancelmo Rodrigues (PDT), candidato à prefeitura de Pelotas (RS), responde a seis processos.

- Quando a AMB divulgou sua primeira lista, de 15 nomes, Paulo Maluf (PP) liderava em número de processos. Hoje ele mantém seus sete processos e Marta Suplicy (PT), que também concorre à prefeitura de São Paulo, o ultrapassou, com oito.

- Antônio Dirceu Dalben, candidato à prefeitura de Sumaré (SP), também responde a sete processos.

- O candidato Alexandre Brito (PTC), de Porto Velho (RO), responde a três processos por homicídio culposo (sem intenção) e um por lesão corporal. Já Iradilson Souza (PSB), de Boa Vista (RR), responde a processo sob a acusação de homicídio doloso (com intenção).

O site Congresso em Foco trouxe mais dados estonteantes. Dos 88 parlamentares (senadores e deputados federais) que vão disputar eleições municipais, 53 têm processos na Justiça (eles analisaram informações do STF, da Justiça Federal e de tribunais estaduais). Isso dá pouco mais de 60%.

Quem lidera essa lista, de longe, é Paulo Maluf, com 49 processos nas costas. Sim, qua-ren-ta-e-no-ve. E está em quarto lugar nas pesquisas de intenção de voto em São Paulo.

Em seguida, com destaque, vem Lira Maia (DEM/PA) e Dalva Figueiredo (PT/AP).

A lista toda pode ser vista aqui.

Outra lista importante de processados por Estado, a partir de dados que o Congresso em Foco tirou do STF, pode ser consultada aqui.

Há ainda outras ferramentas importantes que não podem ser deixadas de lado. Por exemplo, sites de jornais que fizeram perguntas aos candidatos, e suas respostas. É um bom jeito de comparar determinadas propostas. Sugiro o banco de dados montado pela Folha de S.Paulo, que está relativamente completo.

Informe-se sobre seu candidato. Se ele for "sujo", descarte-o. Ajude a divulgar essas informações.

Sábado, Setembro 20, 2008 [ Fala aí: ]EMAIL

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