FOICE E MARTELO BRANCO





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Este blog foi feito por duas garotas indignadas - pra não dizer PUTAS - com essa situação da geopolítica internacional. Não aguentamos mais ficar sem fazer nada, assistindo a felicidade da Fatima Bernardes pela TV ... Queremos agir! Sair às ruas, chocar, explodir a casa branca, ou envenenar o chá do Bush e do Blair . Enfim, queremos fazer alguma coisa para demonstrar nossa raiva ao mundo!... queremos PAZ agora! Ou, pelo menos JUSTIÇA...

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Quarta-feira, Abril 30, 2003


Agora a notícia da Folha que prometi. Mas não pode faltar a minha pergunta favorita:

Liberdade de expressão?? (parte 3!)

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"EUA matam 15 manifestantes iraquianos
As tropas americanas no Iraque mataram pelo menos 15 pessoas e feriram outras 75 durante uma manifestação contra a presença militar dos EUA em Fallujah, 50 km a oeste de Bagdá, na noite de anteontem. Os militares disseram que agiram em reação a tiros disparado pelos manifestantes.
O incidente -precedido pela morte de seis iraquianos horas antes em confronto com soldados americanos em Mossul (norte)- acirrou as tensões antiamericanas no país e expôs a falta de domínio da administração provisória americana sobre a segurança.
Para amenizar o problema, o governo americano anunciou o envio de entre 3.000 e 4.000 soldados e policiais militares nos próximos dez dias para a região de Bagdá, sem dar mais detalhes. Hoje há cerca de 150 mil militares americanos no Iraque, sendo aproximadamente 12 mil na capital.
Em Bagdá, o Exército assumiu o controle da segurança, que era dos marines, porque teria melhor estrutura para policiar a cidade. Mas embora o fornecimento de eletricidade e água tenha sido restabelecido em cerca de 75% da capital desde então, saques e violência permanecem.
Segundo o general Glenn Webster, subchefe das tropas terrestres dos EUA no Iraque, a prioridade no momento é reunir membros da ditadura derrubada no último dia 9, autoridades civis e estudiosos para debater a questão da segurança na capital.
(...) Testemunhas em Fallujah afirmaram que os soldados abriram fogo sem aviso prévio contra uma multidão desarmada -em meio a qual haveria crianças- que protestava, na noite de anteontem, contra a instalação de cerca de 150 soldados da 82ª Divisão Aerotransportada em uma escola local. Após o incidente, os militares se retiraram da escola.
Já os americanos dizem que teriam reagido após serem atacados a tiros. O tenente Christopher Hart afirmou que seus homens teriam matado 'entre sete e dez iraquianos' após sofrerem disparos de dois homens com rifles.
Fallujah é vista como um reduto do Baath, partido do ex-ditador Saddam Hussein, desaparecido desde o último dia 9. (...)"



Os caixões dos perigosíssimos manifestantes assassinados (hoje estou mais irônica que o normal!)


por CRISTINA CASTRO [ Fala aí: ]
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TODOS os textos no site da Novae sobre a discussão em cima de Cuba (execução dos três cubanos e tal) estão excelentes!!! Vou postar aqui só o de Fabiano Queiroga, que foi meu favorito e que está diferente de todos os textos que já li a respeito do assunto. Mas visitem o site para ler os outros artigos! Ah, o tema pode não ter muito a ver com a questão do Iraque, mas diz muito sobre o imperialismo norte-americano e as resistências a ele. Ou seja, tudo a ver com o FMB.

"CADÁVER ENTRE OS DENTES
- Por Fabiano Queiroga, de San Francisco

'Quem fala em revolução sem praticá-la no seu dia-a-dia, fala com um cadáver entre os dentes'. Esta frase estava pichada perenemente numa das paredes da minúscula sala do Diretório Central dos Estudantes do CEUB (Centro de Ensino Universitário de Brasília), entidade que ajudei a fundar e da qual fui o segundo presidente. O autor da pichação atribuia a frase a Berthold Brecht e pode mesmo ser que o poeta alemão a tenha proferido. Não tenho o conhecimento acadêmico necessário para afirmá-lo. Mas, independente da autoria da máxima, nunca algo me pareceu tão verdadeiro, especialmente agora, momento em que assistimos o início de uma ofensiva que se configura definitiva contra a revolução cubana. No meu entender a frase afirma que aqueles que apenas pregam a revolução e não a defendem de fato, emitem palavras mortas, inertes qual cadáver, inúteis, inócuas, dispensáveis. Pois bem, chegou a hora de saber quem, na esquerda dita revolucionária tem entre os dentes um cadáver.

Quem acompanhou o circo armado pelos Estados Unidos para varrer o Iraque do mapa, teve a oportunidade de aprender um pouco sobre o 'modus-operandi' da propaganda político-ideológica norte americana. Com muita competência a Casa Branca criou toda uma situação de contra-informação para justificar a invasão do Iraque, embora não tenha conseguido de fato convencer o mundo. Agora a metralhadora giratória ianque aproveita o embalo para mirar num antigo desafeto, a ilha de Cuba, seu povo, sua revolução. Não pretendo aqui desfiar o rosário dos motivos de tal atitude. Todos os conhecemos muito bem. Todos sempre soubemos, inclusive, que entre a surra levada na Baía dos Porcos, até uma segunda tentativa de invasão da ilha, seria uma questão de tempo. Sabemos que, talvez retraídos diante da derrota militar nas auroras da revolução cubana, Washington optou pelo jogo sujo dos mercenários, das tentativas de interferência na política cubana, na manipulação da opinião pública mundial, da chantagem econômica formadora do bloqueio comercial e das tentativas covardes de assassinato do líder Fidel Castro. Em qualquer parte do mundo, principalmente nas páginas do New York Times, tais atos seriam definidos como terrorismo, fossem eles praticados contra a federação americana. E contra o terrorismo, nas palavras de George Bush, não deve haver clemência. Mas o eterno cinismo dos dois pesos e duas medidas é utilizado agora à guisa de régua e compasso para traçar o caminho que será percorrido, em breve, pelos marines.

O que preocupa, muito mais até do que a cínica estratégia, é perceber a vacilação do pensamento esquerdista mundial ante aos pretextos que começam a surgir para que se esmague de forma irreversível o único foco decente de resistência ao imperialismo americano. A vacilação se configura, pela dificuldade, principalmente da intelectualidade progressista em lidar com a execução de três pessoas, num auto-patrulhamento ideológico que beira o inverossímel. Ora, fala-se em revolução, fala-se em tomada de poder, fala-se em resistência, fala-se até em luta armada, mas ninguém tem coragem de puxar o gatilho? Enquanto a intelectualidade de esquerda define como 'vidas ceifadas' os três mercenários da contra revolução que Cuba executou, a intelectualidade de direita define os milhares de civis indefesos mortos no iraque como 'danos colaterais'. E não tem pudor nenhum nisso. Falar em revolução é muito bonito e rende, não raro, fama, cartaz, destaque, visibilidade. Defender de fato a revolução é mais difícil e talvêz não seja tão glamouroso. A pergunta que se faz necessária é: quem, além do povo cubano, vai de fato defender sua revolução? A resistência ao imperialismo que tanto se apregoa, não pode ser feita apenas com textos bonitos e bem escritos. É preciso coragem para assumir e defender posições. A guerra já começou e não foi Fidel quem deu o primeiro tiro. Você, de que lado está?"



No site da Novae, na sessão Manifeste-se, esse artigo criou polêmica. Antes que alguém diga isso (acho que alguém deve dizer), não acho que, em momento algum, Fabiano Queiroga minimizou as três vidas perdidas. Ele apenas deu um enfoque diferente ao fato, mostrando como é cínico fazer o alarde que vem sendo feito, logo após testemunharmos a morte, mutilação e humilhação de milhares de iraquianos. Não três, mas milhares deles. Em nome de quê? Da "libertação e democratização" do Iraque? OH! Vocês devem estar acompanhando os jornais, que mostram o número de manifestações do povo iraquiano contra a presença norte-americana lá. De grande parte do povo iraquiano. Mas, o que é isso?! Eles não gostaram de sua libertação?? Como pode?? Pois é, acho que nenhum deles pediu que suas famílias fossem massacradas pelos invasores em nome de uma suposta libertação. Vou postar uma notícia da Folha aqui daqui a pouco (esqueci de fazer isso mais cedo). É que, na última manifestação do povo iraquiano, os soldados ianques mataram 15 manifestantes. Pura e simplesmente. Mas, afinal, o que são 15 iraquianos num universo de quase 2 mil iraquianos mortos? É assim que funciona o pensamento do governo dos EUA e que eles querem reverter a partir do momento que foi Fidel, o cruel e sanguinário ditador de Cuba, que assassinou 3 (!!!) pessoas, vítimas daquela ditadura. "Libertemos Cuba! Democratizemos a ilha rebelde! Viva os EUA!" (que os leitores sensíveis perdoem minha ironia em excesso). É sobre isso que Fabiano Queiroga escreve - ele não banaliza as mortes, mas faz críticas aos que se deixam levar pela propaganda ideológica pregada pela Casa Branca. Resolvi falar isso depois que li comentários absurdos no Manifeste-se da revista; como o seguinte: "Quando a esquerda pura e dura pensa assim, que em nome do socialismo e da revolução toda a barbárie se justifica, é caso para ter medo, muito medo...". Vocês poderão ver meu comentário (e resposta) por lá também.

por CRISTINA CASTRO [ Fala aí: ]
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:::::::::::::::::::::::::::NOVA ENQUETE ESTÁ NO AR!!!!!!

Pois é! para vc que já tinha desistido de olhar para o nosso famoso cantinho esquerdo em busca de novas perguntas pra suas respostas.... anime-se!!!!

Apesar de não ser um tema surpresa (cristina já havia comentado que seria este) é muito importante a sua colaboração!!!!!!

A partir desta pesquisa remodelaremos nosso blog ( não necessáriamente seguindo a opção mais votada, mas mudando de acordo com a votação)!!!!

Leia atentamente todas as alternativas (dessa vez foi a cristina que fez, por isso estão enooooooormes) e siga seu coração! (ou seja irônico)...


QUAL VAI SER O DESTINO DO NOSSO BLOG??????????? VC DECIDE!!!



:::::: A bomba
dobra todas as línguas à sua turva sintaxe



por MARIA TEREZA NOVO DIAS [ Fala aí: ]
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Terça-feira, Abril 29, 2003



Samir Amin, pensador egípcio neomarxista, escreveu este artigo publicado na edição de Caros Amigos que já elogiei. Amin brilhantemente explica a lógica de dominação dos EUA e como ela poderá ser rompida - e convida a todos os povos para que iniciem esse processo. O artigo inteiro está muito bom e recomendo sua leitura no site da revista. Aqui vou postar apenas alguns trechos, para não encher demais o blog.

"A ambição desmedida e criminosa dos EUA

(...) Quais são esses interesses 'nacionais' que a classe dirigente dos Estados Unidos se reserva o direito de invocar como melhor lhe pareça? Na verdade, essa classe possui um único objetivo - 'fazer dinheiro' -, tendo o Estado americano se colocado aberta e prioritariamente a serviço do segmento dominante do capital constituído pelas transnacionais dos Estados Unidos.

Esse projeto é imperialista no sentido mais brutal, pois não se trata de gerenciar o conjunto das sociedades do planeta para integrá-las num sistema capitalista coerente, mas somente de saquear os seus recursos. A redução do pensamento social aos postulados de base da economia vulgar, reforçada pela disposição dos meios militares que se conhecem, é responsável por essa derivação bárbara que o capitalismo carrega em seu interior e que o desembaraça de todo sistema de valores humanos, substituído pela submissão às pretensas leis do mercado. Pela história de sua formação, o capitalismo americano se prestava a esse reducionismo de modo ainda melhor do que o das sociedades européias. Pois o Estado americano e sua visão política foram formados para servir a economia e nada mais, abolindo por isso mesmo a relação contraditória e dialética entre a economia e a política. O genocídio dos índios, a escravidão dos negros, a sucessão de ondas de migrações substituindo a maturação da consciência de classe pelo confronto de grupos que partilhariam pretensas identidades comunitárias (manipuladas pela classe dirigente) produziram uma gestão política da sociedade por um partido único do capital, em que os dois segmentos partilham as mesmas visões estratégicas globais, partilham retóricas adequadas para se dirigir a cada um dos "eleitorados" da pequena metade da sociedade que crê no sistema o bastante para se dar o trabalho de ir votar. Privada da tradição pela qual os partidos operários social-democratas e comunistas marcaram a formação da cultura política européia moderna, a sociedade americana não dispôs de instrumentos ideológicos que lhe permitissem resistir à ditadura do capital.

Se esse projeto deve se desenvolver durante ainda um certo tempo, ele não gerará mais do que um caos crescente, exigindo uma gerência cada vez mais brutal a cada golpe, sem visão estratégica a longo prazo. No limite, Washington não buscará mais reforçar alianças verdadeiras, o que imporia fazer concessões. Governos fantoches, como o de Karzai no Afeganistão, cumprem melhor a tarefa enquanto o delírio da potência militar levar à crença da "invencibilidade" dos Estados Unidos. Hitler pensava assim.

(...) O sistema produtivo dos Estados Unidos está longe de ser "o mais eficiente do mundo". Ao contrário, quase nenhum de seus segmentos teria certeza de vencer os seus concorrentes num mercado verdadeiramente aberto como o imaginado pelos economistas liberais. É prova disso o déficit comercial do país que se agrava de ano para ano, tendo passado de 100 bilhões de dólares em 1989 a 450 bilhões em 2000. Além disso, tal déficit se refere a praticamente todos os segmentos do sistema produtivo. Mesmo o excedente de que se beneficiavam os Estados Unidos no domínio dos bens de alta tecnologia, que era de 35 bilhões em 1990, desde então deu lugar a um déficit. A concorrência entre o Ariane e os foguetes da Nasa, o Airbus e o Boeing mostra a vulnerabilidade da vantagem americana. Diante da Europa e do Japão para os produtos de alta tecnologia, da China, da Coréia e dos outros países industrializados da Ásia e da América Latina para os bens manufaturados triviais, diante da Europa e do Cone Sul da América Latina para a agricultura, os Estados Unidos não triunfariam, provavelmente, sem o recurso dos meios "extra-econômicos" que violam os princípios do liberalismo impostos aos seus concorrentes! (...) Washington não busca "partilhar com eqüidade" os lucros de sua liderança. Os Estados Unidos se empenham, ao contrário, em tornar vassalos seus aliados, e dentro desse espírito não estão preparados para deixar a seus aliados subalternos do trio mais do que concessões menores.

(...) As causas que estão na origem do enfraquecimento do sistema produtivo dos Estados Unidos são complexas. Mas são estruturais. A mediocridade dos sistemas de ensino geral e da formação, produto de um preconceito tenaz que favorece sistematicamente o "privado" em detrimento do serviço público, é uma das razões mais importantes da crise profunda que a sociedade dos Estados Unidos atravessa.

A opção militarista dos Estados Unidos ameaça todos os povos. É proveniente da mesma lógica que foi no passado a lógica de Adolf Hitler. (...) O combate para pôr em xeque o projeto dos Estados Unidos é, com certeza, multiforme. Comporta aspectos diplomáticos (defender o direito internacional), militares (se impõe o rearmamento de todos os países para enfrentar as agressões projetadas por Washington - nunca esquecer que os Estados Unidos utilizaram armas nucleares quando tinham o seu monopólio e renunciaram a elas durante o tempo em que não tinham mais esse monopólio) e políticos (notadamente no que se refere à construção européia e à reconstrução de uma frente dos não-alinhados).

O combate contra o imperialismo dos Estados Unidos e sua opção militarista é o combate de todos os povos, de suas vítimas maiores da Ásia, África e América Latina, dos povos europeus e japoneses condenados à subordinação, mas também igualmente do povo americano. (...) A classe dominante dos Estados Unidos será capaz de voltar atrás do projeto criminoso a que aderiu? Uma pergunta que não é fácil de ser respondida.

(...) Se tivessem reagido em 1935 ou 1937, os europeus teriam conseguido deter o delírio hitlerista. Reagindo somente em setembro de 1939, eles se infligiram dezenas de milhões de vítimas. Atuemos para que, diante do desafio dos neonazistas de Washington, a resposta seja mais precoce."


Charge do Rucke, publicada no site ChargeOnline.

por CRISTINA CASTRO [ Fala aí: ]
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Este fim de semana assisti a um filme muito bom::::: 1984, pois é... feito em 1984 mesmo por Michael Radford (baseado em um livro de George Orwell) , sobre uma sociedade a beira do total controle mental de seus individuos , o pano de fundo de outro filme mais recente, gatacca, lembra bem este filme, não que tenha algo a ver com genética mas a lavagem cerebral ...a mudança de comportamento ( em 1984 ao invés da apologia a felicidade de gattaca, é eliminado e taxado como errado as formas de prazer).......

Bom , gostaria que todos assistissem este filme porque por mais absurda que a situação daquela sociedade pareça a primeira vista, não difere tanto do que vivemos hoje, que, penso eu, seja pior do que a realidade mostrada no filme... ( aqueles que já viram comentem!!!!)



Frase que me marcou em um momento do filme::::::::::

(em uma cena de propaganda do governo daquela sociedade)::::


guerra é paz; liberdade é escravidão; e ignorância é força


PS:
1. é deste livro--filme que vem o termo " big brother" ---- só curiosidade mesmo
2. página com boa avaliação do livro !aqui!

:::::: A bomba
mata só de pensarem que vem aí para matar

por MARIA TEREZA NOVO DIAS [ Fala aí: ]
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"'O pensamento de que, após esta guerra, a vida possa prosseguir normalmente, ou de que a civilização possa ser reconstruída - como se a reconstrução da civilização por si só já não fosse a negação desta - é uma idiotice.' Isso foi escrito por Theodor Adorno em 1944, por ocasião da Segunda Guerra."

(tirado daqui)

por CRISTINA CASTRO [ Fala aí: ]
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O trecho seguinte é de uma deliciosa crônica feita por Sérgio Kalili sobre o povo iraquiano e suas impressões daquele país, às vésperas da Guerra. Também publicada nessa edição especial da Caros Amigos (leiam a crônica completa no site; ela é enorme, mas vale a pena!).

"(...) - É muito difícil tratar os pacientes por causa do embargo?
- Há escassez de todo e qualquer suprimento para o nosso povo. Chegamos a uma situação em que temos de usar as mesmas luvas para operar diferentes pacientes. Você não pode imaginar... Mas temos de fazer isso para salvar a vidas das pessoas.
- O governo paga os salários de vocês?
- Não, não, esqueça dos salários (rindo para não chorar), estamos trabalhando sem salário porque, você precisa saber, estamos trabalhando por nosso povo, pelo nosso lar, nossa terra.
- Por que você tem tanto orgulho de Bagdá?
- Porque continua de pé, apesar de tudo.
- Você tem medo dos americanos?
- Não temos medo dos americanos porque Deus é muito, muito maior. E acreditamos em Deus.
- Você perdeu amigos durante a guerra de 1991?
- Evidente. Muitos civis, muitos de nós perdemos amigos, irmãos...
- Vocês continuam indo ao cinema, bibliotecas, bares, restaurantes?
- Claro, estamos vivos apesar do embargo. Temos nossas datas especiais, nossas vidas especiais, nossos amores...
- As pessoas vivem com medo?
- Não. (não resiste e dá uma gostosa e prolongada gargalhada) Não, porque estamos acostumados. Antes, depois, é sempre assim.
- Os bombardeios sobre Basra matam civis?
- Às vezes matam civis. Eu gostaria de perguntar: o que Alemanha, França, Rússia farão se realmente essa guerra começar? O que farão que realmente desagrade os Estados Unidos? Nada, nada...
- O que você pensa sobre o presidente americano, George W. Bush?
- Eu não penso nele.
Nesse momento, Samir, o palestino que vai me levar a Bagdá, não resiste:
- Ele é um louco. Um moleque doido, raivoso, mimado.
E Afrah arremata:
- Ele quer controlar o mundo. Não se importa com as pessoas. Não importa quantos serão mortos para que ele consiga seus objetivos. Talvez ele nem pense, talvez seja apenas uma marionete.
- Você acessa a CNN?
- Não, porque eles usam propaganda, guerra psicológica contra o nosso povo. Muitas notícias são distorcidas, é difícil saber quando é verdade e quando não é.(...)"


Crianças iraquianas, à saída da escola em Bagdá, uma semana antes do início dos bombardeios.


por CRISTINA CASTRO [ Fala aí: ]
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Trecho de artigo da Caros Amigos deste mês (ela está muito boa, vale a pena até comprar e guardar de lembrança!), escrito por Georges Bourdoukan.

"A Víbora

(...) No capitalismo, os direitos humanos são uma quimera, a ecologia uma ficção e a arqueologia... ora, a arqueologia.
O pecado de Bush foi acreditar que a informação continuava refém da mídia oficialesca. Esqueceu a Internet, no momento principal veículo de comunicação do planeta. Queria fazer crer que a invasão do Iraque era um ato de vingança contra o terrorismo.

Nem os latidos do poodle inglês convenceram.

Bush não é energúmeno. Tem pressa. Ele e seus sicários sabem que a economia americana está à deriva, sem tempo a perder. Hoje é o Iraque, amanhã, com certeza, será a Venezuela, que os Estados Unidos pretendem transformar num posto militar avançado, a exemplo de Israel, para o domínio total da Amazônia.

E, para quem acha um exagero incluir a Amazônia, cito o general Patrick Hughes, então chefe da Defense Intelligence Agency, do governo Clinton: "Se os Estados Unidos entenderem que o Brasil anda fazendo mau uso da Amazônia, estarão prontos a tomar as providências cabíveis".

Essa é a verdadeira face do capitalismo. Quem tem mais poder não dá a mínima para os Protocolos de Kioto sobre Mudanças Climáticas, torna letra morta o Tratado de Mísseis Antibalísticos, nega-se a cumprir as convenções de Genebra sobre o tratamento a prisioneiros de guerra e vota contra a criação do Tribunal Penal Internacional.
É preciso mais?"

por CRISTINA CASTRO [ Fala aí: ]
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Liberdade de expressão??

"AMERICANOS ESTRAGAM FESTA PARA SADDAM

Não foi suficiente bombardear seus palácios, derrubar estátuas e tirá-lo do poder. Tropas norte-americanas também estragaram a comemoração do aniversário do ex-ditador Saddam Hussein, cujo paradeiro segue desconhecido. Ontem, ele completou - ou completaria - 66 anos.
Para lembrar a data, dezenas de moradores de Tikrit saíram às ruas na cidade natal do ex-ditador, 180 km ao norte de Bagdá, carregando um bolo e uma pintura do aniversariante.
Meninas com vestidos vermelhos carregavam retratos do ex-ditador enquanto cantavam: 'Sacrificaremos nossas almas e nosso sangue por Saddam'.
As pequenas festas de rua para Saddam, no entanto, tiveram curta duração -foram interrompidas por veículos de combate Bradley e patrulhas de soldados com rifles M-16.
'Voltem para suas casas. O que vocês estão fazendo é proibido', alertavam mensagens em árabe transmitidas por alto-falantes. 'Ou usaremos a força.'
'Nós apenas queremos celebrar pacificamente', disse o professor de ensino fundamental Sabahan Harez, 50. 'Onde está a liberdade de expressão que os americanos tanto se gabam?'(...)"

(da Folha)

por CRISTINA CASTRO [ Fala aí: ]
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Segunda-feira, Abril 28, 2003



O cara é contra a ALCA, pacifista, contra as políticas internas do governo Bush, contra as violações das liberdade civis. E o detalhe fundamental: é um estadunidense e existe! Pode ser também um candidato à presidência em 2004, concorrendo, quem sabe, com Mister Bush. Alguém quer saber minha opinião a respeito?

Matéria publicada na Novae (hoje estamos com fontes bem diversificadas, hein?).



"O CANDIDATO DA PAZ
Por Ruth Conniff, do The Progressive

Dennis Kucinich está claramente conquistando a ala esquerda da bancada de disputantes presidenciais do Partido Democrata para a próxima eleição norte-americana de 2004. O co-dirigente do caucus (reunião de líderes políticos do mesmo partido) progressista no Congresso, um defensor da não-violência, que propôs ao governo americano a criação do Departamento da Paz, um vegetariano advindo da sua crença na 'sacralidade de todas as espécies' , e um ambientalista defensor das classes trabalhadoras que marchou nas ruas de Seattle e Washington, Kucinich é, sem dúvida, o candidato progressista. O argumento para a sua candidatura, apesar de improvável, é que ela representa um ponto de vista com que os Democratas serão forçados a lidar.

O antigo garoto-prefeito de Cleveland, hoje com 56 anos, é o mais forte oponente verbal da guerra com o Iraque na Câmara dos Deputados. Há um ano atrás, começou a fazer discursos apaixonados sobre o tema, e ultimamente está se mostrando no circuito de talk-shows como uma voz solitária para a paz. Meet the Press, Crossfire, Hardball, e The NewsHour com Jim Leher, entre outros programas, têm-no tido debatendo a política da Administração Bush referente ao Iraque - apesar do establishment de Washington não estar considerando a sua aposta presidencial seriamente. (O New York Times o posiciona em alguma colocação abaixo de Al Sharpton como um 'candidato viável', e seu anúncio de fevereiro em Iowa de que estaria se candidatando foi saudado com um retumbante manto pela maior parte da grande mídia).

Kucinich acha que os eruditos terão uma surpresa. 'Eles tentam fazer parecer que as posições que estou tomando são inusitadas, mas elas não são', ele me disse ao telefone recentemente. 'À medida que o esforço de guerra continue, penso que mais e mais pessoas juntar-se-ão e envolver-se-ão com a campanha'.

Steve Cobbles concorda. Um estrategista político progressista de longa data, que trabalhou para Jesse Jackson, Cobble compara Kucinich a Jackson em 1988. Ele acha que seu desempenho pode ser muito maior que o esperado, graças ao apoio de pessoas que os políticos de Washington não percebem.

'As pessoas que estão repudiando Kucinich são as mesmas que estão chocadas por seu grande movimento anti-guerra que teve um enorme crescimento em tão pouco tempo', diz Cobble, que assessora o candidato. Como o finado senador Paul Wellstone, Kucinich é fértil em idéias e escasso em brilho. Ele não é nem alto nem fotogênico, nem rico nem bem conectado. E, é claro, seu nome tem reconhecimento nacional mínimo.

Mas ninguém votou em Ralph Nader 'o Sr. Carisma' há cinco anos atrás, salienta Cobble, e Nader era um pop star nos campi das faculdades durante a campanha de 2000. 'Os jovens responderam à campanha de Nader em 2000', diz Cobble. 'Foram as idéias e o senso de integridade e não sopros ao vento. Dennis trará as mesmas vibrações'.

Entretanto, é aí que as comparações com Nader terminam. 'Eu não tenho interesse numa candidatura por um terceiro partido', diz Kucinich. 'Eu quero fazê-lo de outro jeito: trazer outros partidos para dentro do Partido Democrata e ter apoio para as primárias'. Levar muitas das mensagens de Nader para dentro do Partido Democrata pode ser um objetivo louvável. Mas quão longe Kucinich pode chegar?

Se muitos dos progressistas estão de ressaca da última eleição presidencial e se sentem desiludidos, Kucinich e sua equipe de campanha estão energizados pelas massivas demonstrações anti-guerra e anti-globalização ao redor do mundo e pelo sentimento de que um novo e ativo movimento popular está surgindo e se fazendo ouvir.

Kucinich, que se opõe a ALCA, é o único candidato a dar uma voz altiva ao movimento pelo comércio justo. E sua oposição às armas no espaço e violações das liberdades civis sob o Patriot Act são bem-vindas dentro de uma base Democrata ansiosa por uma forte oposição a Bush.

'Enquanto todo mundo fala coisas como 'eu deveria ter usado este avião ou talvez deveríamos usar este míssil ao invés daquele outro', ele será um clarim para a paz' diz o advogado trabalhista e progressista de Wisconsin Ed Garvey. Agora um apoiador de Kucinich, Garvey foi tocado pela experiência de ouví-lo falar abertamente contra a guerra do Iraque. 'A paixão e profundidade intelectual de seu discurso foi realmente impressionante'.

Certamente, Kucinich, que cita longas passagens de poesia e tem uma profunda qualidade intelectual não é seu candidato padrão. Será então Kucinich o candidato do movimento pacifista, como Eugene McCarthy em 1968?

'Este movimento precede uma guerra. O movimento de 1968 ocorreu anos após o início da guerra', diz Kucinich. Sua campanha baseia-se não só na guerra mas num complexo elenco de questões domésticas e internacionais.

Kucinich denuncia toda a filosofia política da administração Bush de 'projetar a agressão sobre o mundo'. As questões de sua campanha são império vs. democracia, globalização vs. igualdade, guerra vs. paz, um sistema privado de seguro-saúde que deixa 75 milhões de pessoas intermitentemente descobertas vs. um sistema de assistência médica nacional, o Patriot Act vs. The Bill of Rights. Deixe ele ir, e ele assoprará de volta no seu ouvido com uma ladainha de notícias calamitosas.

'As pessoas têm medo', diz Kucinich. 'Minha candidatura dá um passo adiante e diz: 'Hei, pare! Espere! Estamos perdendo o que é caro ao nosso país? Nós temos uma política externa que está preparando o palco para novas guerras. Nós estamos falando agora de uso dissuasivo de armas nucleares. Nós ainda temos armas químicas e biológicas, o que nos desqualifica para o tratado de armas químicas e biológicas. As calotas polares ainda estão derretendo. Ilhas no Pacífico estão vendo as águas subirem. Mudanças meteorológicas sugerem que a alteração no clima global está aqui para ficar. As propostas do Protocolo de Kyoto são urgentes. Os Estados Unidos devem reconhecer a interconectividade e a interdependência do mundo. Não estamos fazendo isto. Estou olhando para toda a estrutura da nossa sociedade e dizendo: 'como pode o governo ser relevante'?

Uau, diz Kucinich. Paixão e profundidade intelectual? Sim. Político lisonjeiro? Não exatamente.

Kucinich tem um grande problema com a base popular progressista: sua posição sobre o aborto. Até o ano passado, manteve um histórico quase perfeito nas votações da National Right to Life, e pontuou um zero absoluto no cálculo dos votos mantidos pela Abortion Rights Action League. Desde então, diz ele, sua posição evoluiu e ele rompeu fileiras com seus antigos colegas de legislação anti-aborto.
(...) 'Não acredito em aborto mas acredito na escolha', diz ele.

Como isto funciona?

(...) Ele agora encara a questão como 'uma questão de igualdade' se acaso uma mulher é igual na sociedade e tem garantias constitucionais. As mulheres não serão iguais aos homens se esta proteção constitucional for negada. 'Criminalizar o aborto é anticonstitucional'.

Kucinich diz que quer superar a natureza nós-eles do debate sobre o aborto apoiando um ambiente nutriente para mulheres e crianças, incluindo o pleno emprego, um salário decente, assistência médica universal e serviços de creches acessíveis e de alta qualidade. Ele quer que o aborto seja legal, porém raro.

'Não é errado apoiar a vida e não é errado apoiar o direito de escolha da mulher,' diz ele. 'Nós temos que permitir que ambos os pontos de vista tenham expressão. (...)'.

Kucinich pensa que pode mudar radicalmente a política na América. Ele cita seu sucesso como o prefeito mais jovem da nação, defendendo a privatização dos serviços públicos de Cleveland , assim como vindo ajudar a sua indústria do aço e seus hospitais quando eles estavam a ponto de serem fechados. 'Nós mudamos os resultados', diz ele. 'O Governo apresentou estímulos para a criatividade'.

Cobble cita Barry Goldwater e George McGovern, candidatos azarões que não se elegeram presidentes mas transformaram a política. 'Vale a pena levar este florescente movimento pacifista para dentro do partido, não importando se um candidato que tenha votado a favor da resolução de guerra ganhe', diz Cobble. 'Nós temos um grupo de pessoas na Casa Branca que ostensivamente coloca o império, ataque preventivo e a ocupação de outros países sobre a mesa', acrescenta. 'Precisamos de uma ampla discussão sobre isto, e não muitas pessoas estão se voluntariando para o posto'.

Mesmo o ex-governador de Vermont Howard Dean, que está concorrendo a candidatura com uma postura anti-guerra, não está abordando o tema da maneira que Kucinich está.

'Precisamos de alguém como Dennis que tem a coragem de assumir esta causa', diz Cobble.

Kucinich diz: 'Se eu puder ganhar algumas das primeiras primárias eu poderei mover estas questões domésticas diretamente para o topo das questões de campanha do partido...'

'Franklin Delano Roosevelt disse em 1933 que não devemos temer nada a não ser o próprio temor. Podemos criar um novo mundo. É possível'."

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Importante: Antes que alguém diga, isso não é uma campanha política. Não estou sendo paga pelos democratas para colocar isso no blog. Só acho importante que a gente conheça outras alternativas para o governo estadunidense, que hoje está atolado em conservadorismo e unilateralismo, que afeta a todos nós. Para um blog indignado e sobre um conflito criado pelo governo Bush, nada mais apropriado que esse texto.

por CRISTINA CASTRO [ Fala aí: ]
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O texto seguinte, do Leonardo Boff, publicado no JB (25/04), é cheio de lugares-comuns e frases clichês, mas a idéia é bonitinha. É aquele tipo de idéia que todo mundo adora pregar, sem ter muita certeza se é real, mas com fé de que seja. Enfim, vou postar aqui porque esta também é a idéia do Foice e Martelo Branco. As pretensões do nosso blog, de alcançar grande número de pessoas e atingi-las com nossas idéias, seguem a linha de raciocínio do Efeito Borboleta. E a gente torce para que esse efeito não se prenda à teoria...



"Paz e efeito borboleta

Tudo no mundo é dialético, não porque Hegel e Marx o disseram e, antes deles, o pré-socrático Heráclito. Mas porque essa é a lei das coisas, regida pelo caos e pelo cosmos e pelo sim-bólico (o que une) e pelo dia-bólico (o que desune).
O efeito dialético da guerra da vergonha movida por Bush contra o Iraque é o triunfo do movimento pela paz através do mundo inteiro. Os operadores da paz não são apenas os grupos pacifistas, mas a própria sociedade civil mundial, que se convenceu (enfim) de que a guerra não é solução para nenhum problema. Ela mesma é um problema para a humanidade, pois, se não for controlada, vai acabar com a humanidade. E desta vez não podemos vacilar.

Nos dias que antecederam a guerra e mesmo após, continuaram pelo mundo as manifestações em favor da paz. Um interlocutor cético do interior da selva amazônica me informou por e-mail que, também lá, se fizeram com índios, seringueiros e ribeirinhos, manifestações pela paz, levando cartazes e gritando consignas. E pedia minha opinião, pois estimava que tudo isso não adianta nada, porque o século XXI será o século dos Estados Unidos e que a guerra ''inteligente'' é o meio insuperável para impor a ''pax americana''. E perguntava: que significa esse gesto, realizado no mais ignoto dos lugares, para a paz mundial?

Eu respondi mais ou menos nos termos que seguem. Há uma convicção do senso comum da humanidade de que a luz, por mais fraca que seja, vale mais do que todas as trevas juntas, porque basta um palito de fósforos aceso para exorcizar toda a escuridão de uma sala e mostrar a porta de saída. A luz, por sua natureza, faz o seu curso misterioso pelo espaço e será sempre captada por espíritos de luz. Escrevi ainda que o bem possui uma força singular, como a força do amor. Por isso, no seu termo, nada resiste ao bem. Ele acaba triunfando. Semelhante à força das gotas de chuva sobre os imensos incêndios na Amazônia. Uma gota faz muito pouco, tanto quanto a água trazida pelo beija-flor, que solidário, quer dar também a sua contribuição. Mas a chuva não é feita de gotas? São muitas gotas, milhões de gotas, quais milhões de minúsculos beija-flores que apagam, em poucas horas, o incêndio mais persistente. É a força invencível do pequeno.

Importa crer na força secreta da boa vontade, por menor que seja. O bem não permanece restrito à pessoa que o pratica. O bem é como a luz, uma realidade de irradiação. Como uma onda, segue seu curso pelo mundo, evocando o bem que está em todos e fortalecendo a corrente do bem. O bem é a referência para qualquer ética humanitária.

Essas reflexões óbvias vêm confirmadas pela moderna teoria do caos. Ela alude ao efeito borboleta: um farfalhar de asas de borboleta do meu jardim pode produzir uma tempestade sobre o Pentágono. Quer dizer, tudo é interdependente. Às vezes, o elo aparentemente mais insignificante é responsável pela irrupção do novo. Um desconhecido aponta na rua, com o dedo para o alto, e grita: ''Olha, lá, olha lá''. Pode ser qualquer coisa, quem sabe um objeto não identificado. E, num momento, grupos e multidões começam a olhar na mesma direção. Deu-se o efeito borboleta. O pequeno produziu o grande.

Nessa concatenação, quem poderá negar que a paz não poderá ser deslanchada a partir dessa ignota aldeia do Amazonas? Sim, do pequeno poderá vir a força secreta da paz."



por CRISTINA CASTRO [ Fala aí: ]
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Mais uma entrevista, esta publicada na Folha de S. Paulo. Jean Baudrillard é um filósofo e sociólogo francês que aqui expõe um ponto de vista um pouco esquecido: o de que o conflito no Iraque é uma conseqüência - e, por isso, menos considerável - dos atentados no 11 de setembro; estes sim importantes. Para ele, o terrorismo é o que está por trás de todos os conflitos contemporâneos e o que realmente confronta os interesses norte-americanos. Dessa forma, o conflito no Iraque foi apenas um "não-acontecimento". Apesar de eu discordar de algumas coisas, achei tudo muito interessante. É bom frisar que ele não está minimizando o problema no Iraque, nem desconsiderando suas vítimas, apenas acredita que a discussão não deve ser por aí (assim como a questão do 11 de setembro não deve estar focalizada em suas vítimas do WTC). A concepção de "Guerra Fria" dele também é algo para se pensar. Não deixem de ler, para entender melhor essas idéias.


Folha - Que relação o senhor vê entre os atentados de 11 de setembro e a guerra contra o Iraque?
Jean Baudrillard -
Há, evidentemente, uma lógica na estratégia, no acontecimento político e militar. Há um tipo de encadeamento, mas também uma antinomia. Para mim, isso é o mais importante. O único e verdadeiro acontecimento foi o 11 de setembro, e a guerra é o não-acontecimento, algo que foi feito para eliminar o primeiro. A relação entre os dois não é lógica, mas é uma contratransferência. A guerra é uma reação, um meio de vencer um desafio. É uma guerra à imagem do conflito do Golfo, são quase guerras clonadas. Elas não têm sentido, são injustificáveis, mas isso já é outra coisa. A questão não é "a favor ou contra", mas saber o que significa essa guerra.

Folha - E qual é o significado?
Baudrillard -
Ela existe por outra coisa, não tem sentido nela mesma e nem mesmo tem um objetivo direto. Saddam Hussein não era mais do que a sombra de um fantasma, ao contrário de Bin Laden, que tem uma outra dimensão. Há, inclusive, essa história sobre a estátua de Saddam derrubada na praça no centro de Bagdá: foi dito que era a estátua de um sósia de Saddam. Gosto muito dessa história, pois é a imagem de todo o resto, tudo é sósia, tudo é artefato. Foi um acontecimento truncado. O 11 de setembro foi algo simbólico no sentido mais forte. Já a guerra é algo no qual tudo foi encenado, programado e mesmo vencido de antemão. Foi um acontecimento sem surpresa. Mesmo assim, houve um pequeno momento no qual se pensou que o Iraque iria resistir, e o não-acontecimento estava quase se tornando um acontecimento.

Folha - Num recente debate com o filósofo Jacques Derrida, o sr. teve sua teoria questionada. Como dizer que uma guerra é virtual quando há milhares de mortos reais?
Baudrillard -
Derrida dizia que os mortos iraquianos, o petróleo, tudo isso não é virtual, é real. Acho um erro. Se começamos a debater baseados no argumento das vítimas etc, não há discussão, não há mais nada a dizer. Mas o que eu quero é compreender - é ainda um direito do homem, não? Não quero ser enganado. E nesse caso há um mistificação.
Também sou contra essa superpotência mundial, mas não nessa forma antiglobalização. Sou radicalmente contra, mas quero saber de que ponto de vista podemos realmente combatê-la. Se deploramos as vítimas do World Trade Center, do Iraque e nos detemos nessa moralização, acabou. O problema, infelizmente, se tornou muito mais simples, mais violento e mais radical. E minha teoria é a de que a análise seja também mais violenta e mais radical. E nesse momento, evidentemente, ela se torna tão inaceitável quanto o acontecimento. Mas, num sentido, ela faz parte do acontecimento, como as imagens. Ela participa um pouco do mal.
Hoje, os movimentos antiglobalização, no fundo, querem ser mais moralistas do que o sistema, mais humanos. Tudo muito respeitável, mas creio que estrategicamente, politicamente não serve. Hoje, não há nada mais a fazer senão colocar o problema a partir do terrorismo. É o único contraponto. E o terrorismo não é forçosamente violento. Certamente, há formas violentas. Mas há um terrorismo "soft", mesmo no nível dos indivíduos e dos grupos. Ainda precisa ser feita uma genealogia da violência. Há a violência nos subúrbios, os carros incendiados e tudo mais. Pode-se dizer que, se eles tivessem o que comer, tudo seria tranqüilo. Não é verdade. Há os que têm o que comer, o conforto absoluto, mas, numa determinada hora, há um tipo de recusa, de negação de uma situação que se tornou insuportável. Se vamos longe demais no conforto, na superabundância, num dado momento ocorre algo de perverso.

Folha - Como o senhor acompanhou a guerra?
Baudrillard -
Somos tomados pelas imagens e forçados a saber o que acontece. É algo espetacular, mas bastante abjeto, obsceno, aterrorizante pelo lado da superpotência americana e pelo outro lado, no qual não há inimigo, não há confrontos. A guerra foi um objeto perdido, não se sabe o que fazer dela. No imaginário, estamos sempre ao lado das vítimas, mas, objetivamente, estamos do lado da superpotência que ataca, e é uma situação insolúvel.
Para os americanos, não há inimigo, mas sim um terrorismo fantasma a ser eliminado, dentro da estratégia da prevenção. É o caso do filme "Minority Report", que trata da prevenção do crime antes que ele ocorra e, portanto, não se saberá nunca se ele existirá. A guerra é algo programado à repetição, ela não começa verdadeiramente, mas também não terminará. É interminável. Já o acontecimento é totalmente imprevisível e, quando ocorre, termina, e ele é, de uma certa maneira, indestrutível. Nesse confronto, há um antagonismo no qual o terrorismo é, ao mesmo tempo, agente e metáfora. E não é somente o terrorismo islâmico, mas tudo o que resiste, toda singularidade, toda recusa a essa espécie de império unilateral. A verdadeira guerra é essa, e não o confronto que se viu no Iraque.
Essa é a quarta guerra mundial. Nunca houve um verdadeiro front de guerra islâmico. Bin Laden e todo o resto não são um front. Não há uma verdadeira solução para essa guerra. Os americanos não têm verdadeiros inimigos, pois não há um face a face, não há combates. Ao mesmo tempo, eles são perdedores, pois o inimigo desapareceu, e isso é o pior que poderia ter acontecido.

Folha - O sr. coloca a verdadeira vitória do terrorismo na imposição ao Ocidente de uma obsessão pela segurança e fala de uma nova Guerra Fria.
Baudrillard -
O terrorismo de seguridade é uma Guerra Fria estendida a todos os países, a todas as populações. Veja o que ocorreu no teatro de Moscou, quando o poder se voltou contra sua própria população para exterminar os terroristas e os reféns ao mesmo tempo. Essa é a verdade da situação em que vivemos. O terrorismo que está aí é, ao mesmo tempo, o produto e o contraproduto da situação atual. Ele não é o anarquismo do passado, nem também o terrorismo palestino. Não é o terrorismo suicida perdedor. Ele coloca a contestação, também pela morte, mas não tem os meios, pela globalização, de combater a superpotência segundo sua própria lógica.

Folha - O choque de civilizações é uma teoria que já teria nascido ultrapassada?
Baudrillard -
Não são as civilizações que estão em questão, nem as culturas ou as religiões. Há um choque, mas é um "choque e pavor", como dizia o outro. Nesse choque, há um só conjunto, que é a globalização. Não se trata de um choque entre duas coisas. Mas é a superpotência em si que se desfaz e se desintegra. O terrorismo é o agente, o operador dessa desintegração interna da superpotência. Isso é o importante, e sem isso não compreendemos nada.
Hoje não há mais duas superpotências adversas. Já há muito tempo os americanos estudam estratégias da guerra assimétrica, na qual os dois inimigos não estão no mesmo plano. A chave da situação é que toda superpotência globalizada não pode mais lutar, na falta de inimigos, de adversidades, de alteridade. Dizer que o terrorismo tem uma causa, seja da violência histórica, do islamismo, é menos grave do que dizer que, no fundo, o terrorismo é a autodestruição da superpotência mundial.

Folha - O sr. diz que o terror está no ar e que o terrorismo não faz mais do que cristalizar partículas em suspensão.
Baudrillard -
A situação do império deflagra, não só no Islã, uma reação. Daí essa espécie de júbilo, de fascinação em relação ao 11 de setembro. Podemos nos sentir espantados, transtornados, mas isso não impede essa coexistência no nosso imaginário do transtorno e do júbilo, mesmo naqueles que depois fizeram todo tipo de considerações morais. Não é racional, mas é algo profundo da ambivalência das coisas.
As imagens do 11 de setembro são midiáticas. Elas fazem parte do acontecimento. É um momento, como o ato em si, instantâneo e terá quase uma repercussão viral. E agora vemos o vírus asiático, as catástrofes, os acidentes, tudo isso, objetivamente, é terrorismo. Mesmo uma catástrofe natural é terrorismo. A natureza é destruída, domesticada, explorada e, de vez em quando, se vinga. Racionalmente, isso não tem sentido. Mas, simbolicamente, sim.
O terrorismo apanha tudo, é epicentral. E, depois, tudo o que se produz e que desestabiliza um poder qualquer se torna terrorismo. O próprio poder faz essa dedução, pois tudo que o ataca é designado como terrorismo. Em vez de se dizer que é uma contestação política ou algo parecido, é mais simples definir como terrorismo.
Fala-se em eixo do mal, quando as coisas são bem mais complicadas. Não há um eixo, mas um paraeixo, o eixo que passa mesmo no centro da superpotência. Não é mais um eixo, mas uma nebulosa terrorista, uma nebulosa do mal. É preciso exterminar tudo se se quer resolver o problema.

Folha - Os valores universais, segundo o sr., tiveram sua chance histórica, mas a perderam.
Baudrillard -
Os valores universais, na esfera da modernidade, foram dizimados, aniquilados. Não há mais valores de transcendência, estamos num funcionamento total, operacional, estratégico. Valores como a democracia ou direitos humanos são instrumentalizados a serviço da própria superpotência, que age em contraponto ou mesmo em contradição com seus próprios valores.
O problema é que todas as soluções apresentadas ao terrorismo e à violência recorrem a esses valores universais. Prega-se a volta à política no sentido tradicional, aos valores morais. Não tenho ilusões em relação a isso. Nessa guerra, por exemplo, vimos Jacques Chirac e a ONU proferirem seus discursos morais, que foram logo varridos de cena.

Folha - Vivemos hoje uma confusão de valores?
Baudrillard -
O que está em questão é a modernidade. A modernidade como progresso contínuo, como história. Com o pós-moderno, já temos um questionamento da modernidade, já é uma passagem além do "tudo é aceitável", do "não há mais valores absolutos", os grandes ideais acabaram. Já é uma decomposição da modernidade. Hoje, o global talvez seja também uma ruptura. Não é o contrário, mas uma outra coisa. É algo instável e que joga com a instabilidade. Não há mais meios de encontrar uma ética qualquer. Tenta-se encontrá-la no nível genético e outros, mas não se consegue. Não se consegue saber onde está o limite do humano.
Não conseguimos mais definir nem mesmo os direitos humanos. Há direitos para todo mundo hoje. Há o direito da vítima e do carrasco, o direito do bebê de não nascer. Chegamos a uma espécie de confusão, não há mais demarcações. Não sabemos onde estamos na questão do verdadeiro e do falso, do bem e do mal. Hoje há, novamente, uma tentativa desesperada de fazer com que existam o bem e o mal. Uma tentativa também dos que estão no poder nos EUA, os falcões americanos. É uma tentativa de recriar valor, reencontrar o real depois de toda essa realidade virtual, "Matrix" e tudo mais. Refazer o real e dizer "isso é real".

Folha - Ouvindo o sr. falar, é difícil vislumbrar uma saída para esse impasse deste início de século.
Baudrillard -
No momento, efetivamente, estamos numa situação insolúvel. É uma boa coisa que essa grande superpotência mundial seja radicalmente questionada por algo que a atinja realmente, que a deslegitimize, que seja provado que ela não é invencível. É a única chance de se poder tentar pensar em outra coisa. Em relação aos atentados do 11 de setembro, aos terroristas, certamente suas razões e motivações são más e não são aceitáveis, mas não se deve levar isso em conta, e sim o acontecimento em si mesmo.
Quando meu amigo Paul Virilio [pensador francês] fala de uma guerra civil planetária, ele não está errado. Há uma desintegração interna. O poder elimina seu próprio objeto. O objeto sobre o qual ele vai exercer um poder, ele também o extermina."
(Fernando Eichenberg)

por CRISTINA CASTRO [ Fala aí: ]
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A entrevista seguinte foi publicada na Época. Jacques Attali não fala muitas novidades, mas algumas análises são interessantes. Ele também comentou bastante sobre o governo Lula, não deixem de ler no site da revista!

"ÉPOCA - O que o senhor acha da posição antiguerra assumida pelo governo Jacques Chirac?
Jacques Attali -
Sou contra a guerra, mas acredito que muitos países, entre eles a França, cometeram um erro ao ir tão longe. Bastava dizer que eram contra. A França resolveu fazer uma campanha diária contra a guerra. Isso foi inútil.

ÉPOCA - O secretário de Estado americano, Colin Powell, disse que a França se arrependeria por ter se oposto à guerra. O senhor acredita em retaliação?
Attali -
Haverá dificuldades, um esfriamento nas relações entre os dois países, algumas disputas. Mas nada trágico. A França e os Estados Unidos são aliados muito importantes. A França apenas cometeu um erro, sendo excessiva.

ÉPOCA - Mitterrand teria cometido o mesmo erro?
Attali -
Não posso falar pelos mortos. Digo o que penso. Em minha opinião, a França deveria assumir uma posição contra a guerra, mas de forma mais discreta.

ÉPOCA - Como fica o mundo depois da guerra?
Attali -
A primeira conseqüência será a volta da atenção da opinião pública para o conflito entre Israel e a Palestina. A situação do Iraque vai demorar muito para ser resolvida e terá uma evolução do tipo libanês, com movimentos religiosos, disputa de terras e um caos político muito grande. Mas, se os americanos e os europeus se mostrarem capazes de colocar em andamento o projeto de criação de um Estado na Palestina, poderemos ter um período muito positivo, com uma estabilização durável na região e a eliminação dos movimentos terroristas.

ÉPOCA - Mesmo com instabilidade no Iraque?
Attali -
A situação vai continuar caótica porque há um vazio político. Mas será um caos relativamente localizado se a situação entre Israel e a Palestina se resolver. Do contrário, o Oriente Médio vai tornar-se uma espécie de caos gigantesco.

ÉPOCA - A paz na região vai depender de quem?
Attali -
Infelizmente, a Europa não tem muito a dizer sobre essa questão. Há um acordo entre os americanos, os europeus, os russos e as Nações Unidas para agir juntos. Mas é claro que os EUA têm um papel mais relevante.

ÉPOCA - Qual será a conseqüência para o futuro da Europa da divisão entre os países europeus sobre a guerra no Iraque?
Attali -
A Europa ficou muito dividida. O problema será reencontrar uma dinâmica de unidade. Os europeus já viveram crises como essa antes e os ingleses sabem que, sem a Europa, nada podem fazer. Portanto, eu penso que os europeus vão procurar pontos de acordo. Não sou pessimista sobre o futuro da Europa.

ÉPOCA - A França e a Alemanha vão continuar a ser o principal eixo da integração européia?
Attali -
A chave da integração vai ser agora a aliança entre a França e a Inglaterra. A Inglaterra mudou e não é mais hostil à Europa como antes. Ao mesmo tempo, tem uma posição estratégica importante. Não haverá um sistema de defesa europeu, como se pretende, sem a Inglaterra. É uma potência militar - como mostrou no Iraque."

(Guilherme Evelin e Tito Montenegro)


Jacques Attali, economista francês


Não acho, pessoalmente, que França e Rússia exageraram em sua campanha contra a guerra. Está claro que fizeram isso muito mais por verem que a opinião pública estava a seu lado, do que propriamente por condenarem a guerra. E aí começaram a atacar a atitude autoritária dos EUA, diplomaticamente. Discordo de Attali ao dizer que exageraram. Parto do princípio de que os EUA foram os primeiros a exagerar, assumindo uma postura autoritária, confrontando a ONU, inventando desculpas absurdas e injustificáveis para a invasão (armas de destruição em massa que até hoje não foram encontradas) - que teve motivos de interesse deles, óbvios para todos nós.

por CRISTINA CASTRO [ Fala aí: ]
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Domingo, Abril 27, 2003


Outra do caderno mais na folha de hoje::::::

(só um grande trecho,... leiam o resto!)

EXCESSO E CARÊNCIA DE DEMOCRACIA
por Slavoj Zizek



"Democracia" não é simplesmente o "poder do, pelo e para o povo"; não basta afirmar que na democracia a vontade e os interesses (os dois de modo nenhum coincidem automaticamente) da grande maioria determinam as decisões de Estado. Democracia -da maneira como o termo é usado hoje- envolve sobretudo o legalismo formal: sua definição mínima é o cumprimento incondicional de certo conjunto de regras formais que garantem que os antagonismos sejam totalmente absorvidos no jogo agonístico. "Democracia" significa que, seja qual for a manipulação eleitoral que ocorra, cada agente político respeitará incondicionalmente os resultados. Nesse sentido, as eleições presidenciais nos Estados Unidos em 2000 foram efetivamente "democráticas": apesar das óbvias manipulações eleitorais e da patente insignificância do fato de que algumas centenas de votos da Flórida decidiram quem seria o presidente, o candidato democrata aceitou sua derrota.

Comentário amargo

Nas semanas de incerteza após as eleições, Bill Clinton fez um comentário apropriadamente amargo: "O povo americano falou; apenas não sabemos o que ele disse". Esse comentário deveria ser levado mais a sério do que ele mesmo pretendia: ainda hoje não sabemos -e, talvez, porque não houvesse nenhuma "mensagem" substancial por trás do resultado. É nesse sentido que deveríamos interpretar a democracia problemática: por que deveria a esquerda sempre e incondicionalmente respeitar as "regras do jogo" da democracia formal? Por que não deveria, pelo menos em certas circunstâncias, questionar a legitimidade do resultado de um processo democrático?

De modo interessante, há pelo menos um caso em que os próprios democratas formais (ou pelo menos uma parte substancial deles) tolerariam a suspensão da democracia: e se as eleições formalmente livres forem vencidas por um partido antidemocrático cuja plataforma prometa a abolição da democracia formal? (Isso de fato aconteceu na Argélia alguns anos atrás, entre outros lugares, e há uma situação semelhante no Paquistão hoje.) Nesse caso, muitos democratas admitiriam que a população ainda não está "madura" o suficiente para ter acesso à democracia e que é preferível algum tipo de despotismo esclarecido, cujo objetivo será educar a maioria para ser adequadamente democrata. Essa suspensão estratégica da democracia está atingindo novos cumes hoje. Os EUA exerceram uma tremenda pressão sobre a Turquia, onde, segundo pesquisas de opinião, 94% da população era contra a presença de tropas americanas para a guerra contra o Iraque -onde está a democracia? Todo velho esquerdista lembra a resposta de Marx no "Manifesto Comunista" aos críticos que censuravam os comunistas por pretenderem minar a família, a propriedade etc.: é a própria ordem capitalista com sua dinâmica econômica que está destruindo a ordem familiar tradicional (incidentalmente, um fato mais verdadeiro hoje que na época de Marx), assim como expropriando a grande maioria da população. Na mesma linha, não são exatamente aqueles que hoje posam como defensores globais da democracia que a estão efetivamente minando? Em uma perversa distorção retórica, quando líderes favoráveis à guerra são confrontados com o fato brutal de que sua política está fora de sintonia com a maioria da população, eles recorrem à sabedoria comum de que "um verdadeiro líder lidera, não segue" -isso vindo de líderes normalmente obcecados por pesquisas de opinião... Quando os políticos começam a justificar diretamente suas decisões em termos éticos, podemos ter certeza de que a ética é mobilizada para encobrir alguma perspectiva sombria e ameaçadora. É a própria inflação de retórica ética abstrata nas recentes declarações públicas de George W. Bush (do tipo "O mundo tem coragem para agir contra o mal ou não?") que manifesta a total pobreza ética da posição americana -a função da referência ética aqui é simplesmente mistificadora, serve apenas para mascarar os verdadeiros interesses políticos (que não são difíceis de discernir).


::::::A bomba
quer é manter acordados nervosos e sãos, atletas e paralíticos



por MARIA TEREZA NOVO DIAS [ Fala aí: ]
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::::::Para rir e temer:::::::::

AMÉRICA
Marco Villa

O sonho de Simon Bolívar da união da América acabou se realizando em 2010, quase cem anos após a sua formulação. Com a aprovação da Carta do Panamá, quando estiveram reunidos todos os chefes de Estado da América, foi criada a Comunidade de Estados Americanos (CEA) e estabelecidas regras de transição para a unificação econômica do continente. Na primeira década da CEA foram estipuladas as normas que regulamentam a unificação e buscam soluções harmônicas, isso em um continente tão plural como o americano. Mas foi nos anos 2020 que o processo de unificação se completou, não sem traumas e rupturas. Em 2023, três grandes acontecimentos marcaram o ano na América. O primeiro foi a eclosão de uma revolução no México. O país vinha passando por sérios problemas econômicos havia décadas. A adesão ao Nafta [Acordo de Livre Comércio da América do Norte] tinha diminuído a autonomia mexicana a tal ponto que 90% do seu comércio exterior era realizado com os Estados Unidos e o Canadá. As sucessivas crises do capitalismo estadunidense, que se manifestaram desde a vitória contra o Iraque, em 2003, enfraqueceram ainda mais a economia mexicana. Greves, invasões de terra e a tentativa de golpe militar, liderada pelo general Rafael Campos, agravaram ainda mais o quadro político. A emigração em grande escala para os Estados Unidos e o Canadá serviu para diminuir as tensões sociais. Mesmo assim, a revolta camponesa não parou de crescer até a eclosão da revolução, em 2023. O segundo acontecimento foi o agravamento da crise econômica estadunidense. Os gastos militares, que cresceram em grande escala desde a Guerra do Iraque, obrigaram o governo a cortar os gastos sociais, absorvidos em sua maioria pelos negros, hispânicos e árabes, estes chegados ao país após a transformação da Mesopotâmia -denominação dada ao Iraque em 2005- em protetorado dos EUA. Como consequência, ocorreram distúrbios em várias cidades, contidos graças à ação repressora da Guarda Nacional. O mais grave incidente foi em Chicago, em 2022, quando a zona norte da cidade ficou sob controle dos insurretos durante quatro dias, obrigando o governo a declarar o "estado de guerra interno", suspendendo as garantias constitucionais e impondo a censura, com a autorização da Suprema Corte. O terceiro grande acontecimento de 2023 ocorreu no Brasil. Depois de duas décadas de reformas econômicas e de um crescimento do PIB de 10% em média nos anos de 2010, o país se transformou na segunda economia do continente americano. A prosperidade econômica facilitou o processo de integração política com a Argentina, que foi aprovado no plebiscito de 2019, realizado nos dois países. Desde então, a CAB (Comunidade Argentino-Brasileira) passou a representar os interesses de 220 milhões de habitantes. Em 2023, estava na presidência rotativa da CAB -o mandato é de dois anos- [o político e ex-automobilista argentino" Carlos Reutmann. Canadá "europeu" O Canadá formalizou sua saída da Comunidade de Estados Americanos em 2022. O premiê Edward Thompson comunicou ao presidente do conselho da comunidade, John Mills, que, para os canadenses, sempre interessou fazer parte de uma zona de livre comércio, isto desde os tempos do Nafta, mas a livre circulação dos cidadãos criou inúmeros problemas ao país: aumento indiscriminado da população, crescimento dos índices de criminalidade e degradação do nível de vida. O ápice do processo foi a solicitação de um plebiscito na Província de Vancouver, de maioria hispânica, propondo que o castelhano fosse a língua oficial local. Os protestos ocorridos em todo o país, especialmente na costa leste, pressionaram o Parlamento, que aprovou a proposta do primeiro-ministro. Em seguida, o Canadá solicitou oficialmente a admissão na Comunidade Européia.
Se no Cone Sul a democracia se consolidou, o mesmo não ocorreu na Bolívia, Peru, Equador, Colômbia e Venezuela. No último, a luta guerrilheira liderada pelo ex-presidente Hugo Chavez transformou algumas regiões em "territórios liberados". Chavez criou a República Bolivariana de Maracaibo, que não obteve o reconhecimento diplomático de nenhum país. Na Colômbia, as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) comemoraram 65 anos de fundação, ocupando durante três dias a cidade de Cali, para depois voltarem à selva. No Equador, um golpe militar derrubou o presidente Lucas Galván, que tinha iniciado um projeto de reforma agrária: os golpistas prometeram convocar eleições em um futuro próximo.
Peru e Bolívia, que tinham iniciado um processo de fusão em 2017, quando eram governados por presidentes de origem indígena, Juan Gutierrez e Pablo Aymar, respectivamente, acabaram se separando por divergências políticas e econômicas, dois anos depois. Nos dois países, com um intervalo de um ano, golpes militares levaram ao poder novamente os generais.
Os países da América Central continental, por proposta do presidente da Costa Rica, Jose Hernandez Villegas, resolveram criar uma federação: os Estados Unidos da América Central (EUAC). Foi eleito pelo Congresso dos Deputados dos EUAC como presidente interino Daniel Ortega, ex-guerilheiro e socialista que passou pela Presidência da Nicarágua para, depois, se consolidar como próspero empresário e defensor da livre iniciativa.
Nas Antilhas o maior problema continuou sendo Cuba. Após a morte de Fidel Castro em 2007 e o fracasso do sucessor, Raul Castro, derrubado por um golpe militar em 2008, foram convocadas eleições meio século após a vitória dos guerrilheiros do movimento 26 de Julho. O vencedor foi Danny Gutierrez, cubano nascido em Miami. Acusado de vinculações com o narcotráfico, sofreu um processo de impeachment em 2011, aprovado pelo Congresso. Uma nova eleição acabou tendo como vencedor o irmão de Danny, Teddy Gutierrez, o que motivou novo golpe militar, liderado pelo general Lucio Cabañas com o discreto apoio estadunidense. No Haiti, Pierre Duvalier, neto do ditador François Duvalier, o "Papadoc", venceu as eleições de 2018. Usou como arma eleitoral a epidemia de Aids, ocorrida nos anos 2016-2017, que levou à morte 1/3 da população da ilha. Segundo Duvalier, a epidemia era uma represália divina contra a expulsão da sua família, durante 30 anos, do Haiti. Um ano após as eleições, fechou o Congresso e impôs nova ditadura ao país. Em 2023 foi coroado rei.
Em dezembro de 2023, no Panamá, durante a reunião anual dos Chefes de Estado da CEA, foi aprovado como hino da comunidade a composição dos brasileiros Gilberto Gil e Capinam "Soy Loco por Ti América".



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Marco Antonio Villa é professor de história no departamento de ciências sociais da Universidade Federal de São Carlos (SP) e organizador de "Canudos, História em Versos" (Imprensa Oficial de SP/Edufscar/ed. Hedra).



Folha caderno mais hoje

::::::A bomba
não admite que ninguém acorde sem motivo grave

por MARIA TEREZA NOVO DIAS [ Fala aí: ]
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Sábado, Abril 26, 2003



Nossos leitores mais freqüentes já devem ter percebido que o número de textos postados aqui vem diminuindo bastante. É que a TT e eu estamos ficando sem muito tempo livre para trabalhar no blog. Além disso, as notícias sobre o conflito no Iraque estão cada vez mais escassas em todos os jornais que lemos - não realmente porque o conflito acabou ou o assunto não seja mais tão importante como era há três semanas, mas porque ele já perdeu o interesse para a grande mídia. Os jornais agora só publicam notícias repetitivas e nada que venha a interessar a um blog com as pretensões do nosso. Por tudo isso, nossos últimos textos vêm sendo, em sua maioria, artigos (quando estes também não estão apenas repetindo artigos anteriores...).

Mas o números de visitas diárias aqui no Foice e Martelo Branco também vem diminuindo. Isso pode ser tanto uma conseqüência do fato de não estarmos atualizando muito, como uma queda no interesse das pessoas pelo assunto. Por tudo isso, estamos pensando em abordar outros temas, nacionais ou internacionais, que estejam dentro da lógica do "tamos com raiva" - ou seja, que também venham causando nossa indignação. Talvez nossa próxima enquete seja sobre isso, para que possamos saber o que vocês acham dessa idéia.


por CRISTINA CASTRO [ Fala aí: ]
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Alguém aí é capaz de dizer quantas mentiras foram ditas neste conflito do Iraque? E qual foi a verdade? Este excelente artigo de Emir Sader, que não sei onde foi publicado (chegou por email), esclarece essas questões.

"Festival de mentiras

Mentiu-se mais nesta guerra do que se poderia imaginar. Mentiu Collin Powell quando disse que os EUA teriam maioria no Conselho de Segurança, 48 horas antes que seu governo decidisse desistir de conseguir aprovar uma nova resolução no Conselho. Mentiu o governo Bush quando afirmou que tinha provas concretas de que o Iraque dispunha de armas químicas, que suas próprias tropas não encontraram. Mentiu Saddam Hussein quando prometeu uma guerra sem trégua contra a ocupação norte-americana. Mentiu quando disse que suas tropas batalhariam à morte em Bagdá contra o inimigo. Mentiu quando disse que preferia morrer lutando.

Mentiu Rumsfeld quando disse que o povo iraquiano estava prestes a se rebelar e que se trataria de uma guerra de libertação do povo iraquiano. Mentiram os norte-americanos quando disseram que seriam recebidos vitoriosamente pelo povo iraquiano. Mentiram quando disseram que os xiitas os apoiariam, quando estes se comportaram como iraquianos diante de um invasor.

Mentiu a mídia norte-americana, que se comportou como imprensa oficial de um governo em guerra, sacrificando abertamente a informação e a verdade em favor do seu compromisso com o governo Bush e sua guerra. Mentiram os cronistas brasileiros que se comportaram como que sob um clima de guerra fria, nada contemporâneos do presente do mundo, em que nada pode ser compreendido fora da hegemonia imperial unilateral dos EUA.

Mas houve também verdades nessa guerra. Antes de tudo a verdade do imperialismo. Seja os que - como o ex-presidente FHC - se apressaram a dizer que o imperialismo já não existia mais, seja os que desconhecem a dinâmica imperial dos EUA -, muitos se embaralharam nas contraditórias declarações do governo Bush ou nos debates sobre se a guerra era movida a petróleo, a dólar, a eleições internas ou a qualquer outro fenômeno setorial, sem se dar conta da dinâmica imperial que move os EUA.

O governo Bush se assume como "império do bem". Os que ainda vivem no clima de guerra fria podem discutir se do bem ou do mal. O certo que o argumento norte-americano é de que há zonas do mundo - cada vez mais amplas, pela evolução do seu discurso - que não conseguem governar a si mesmas e requerem tutela, a que o imperialismo vem atender.

Houve também a verdade da opinião pública mundial, que independentemente de governos, manifestou força em sua rejeição à guerra. Mostrou que é possível deslegitimar uma ação militar como a norte-americana com a massividade e a combatividade das demonstrações populares por todo o mundo.

A maior verdade desta guerra é que a hegemonia imperial é a referência fundamental do mundo atual, sem a qual tudo ou quase tudo se torna impossível de compreender."
(23/4/2003)

por CRISTINA CASTRO [ Fala aí: ]
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Sexta-feira, Abril 25, 2003


Parece que caiu a ficha do Bush, ou ele resolveu deixar de ser cínico:

"'Levará tempo para achá-las', disse Bush sobre as supostas armas químicas e biológicas do Iraque. 'Mas sabemos que elas existem e precisamos saber se Saddam as removeu ou as destruiu. Uma coisa é certa: Saddam não ameaça mais os EUA com armas de destruição em massa.'"

(Folha de S. Paulo, "Bush admite que armas proibidas do Iraque podem ter sido destruídas")

por CRISTINA CASTRO [ Fala aí: ]
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Cinismos. ""notícias"" do pós guerra


Bush se diz fã do ministro da Informação do Iraque

Agora que a campanha para derrubar Saddam Hussein parece ter acabado, até o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, reconheceu ser fã do estilo do ex-ministro da Informação do Iraque Mohammed Saeed al-Sahaf. "Ele é o cara, ele era formidável", disse Bush em uma entrevista com o jornalista da NBC Tom Brokaw nesta quinta-feira. "Alguém nos acusou de tê-lo contratado e o colocado lá. Ele era um clássico".
Bush disse ter feito questão de ver pela televisão, Sahaf e as imagens simbólicas como a derrubada de uma enorme estátua de bronze de Saddam Hussein. "Assisti a alguns trechos", disse. "Recebia muita informação de segunda mão, mas no caso da estátua ou de Sahaf, alguém me dizia que ele estava se preparando para falar e eu deixava uma reunião e assistia à TV", afirmou o presidente dos EUA.

Sahaf conquistou uma legião de fãs em todo o mundo. Um site com o endereço welovetheiraqiinformationminister.com (nós amamos o ministro da Informação do Iraque) foi obrigado a sair do ar devido ao número excessivo de visitas no início do mês. A página na Web chegou a receber 4 mil visitantes por segundo.

Com uma tradicional boina preta, Sahaf virou uma figura cult na televisão com seus informes diários sobre a guerra, aparecendo atrás de um mar de microfones, e qualificando os norte-americanos de "infiéis" e "cobras" enquanto negava descaradamente o avanço militar dos EUA no Iraque.



terra


:::::: A bomba
tem supermercado circo biblioteca esquadrilha de mísseis, etc.



por MARIA TEREZA NOVO DIAS [ Fala aí: ]
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Quinta-feira, Abril 24, 2003



Matéria da Folha de S.Paulo de hoje:

"EUA amenizam discurso sobre armas iraquianas

Depois de vasculharem, sem sucesso, 80% dos principais locais suspeitos de ocultarem armas de destruição em massa no Iraque, os EUA baixaram a expectativa de encontrá-las. A Casa Branca informou ontem que o sucesso da ação depende não mais da apreensão das armas, mas de informações de sua existência por iraquianos ligados ao programa.
O premiê britânico, Tony Blair, maior aliado dos EUA na ação contra o Iraque, defendeu ontem uma "busca independente" a ser "discutida com a ONU e os principais países aliados".
Em mais de um mês de campanha militar, nenhuma prova ou depósito de armas foi achado -poucas substâncias foram analisadas inconclusivamente.
"É claro que eles não iam tropeçar em armas", disse o chefe de inspeção de armas da ONU, Hans Blix. As supostas armas de destruição em massa foram a principal justificativa usada pelos EUA para invadirem o Iraque."

por CRISTINA CASTRO [ Fala aí: ]
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Resposta:::::::::::::::::::::::::




:::::: A bomba
tem a seu serviço música estereofônica e mil valetes de ouro,
cobalto e ferro além da comparsaria

por MARIA TEREZA NOVO DIAS [ Fala aí: ]
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Quarta-feira, Abril 23, 2003



Bush praticando diplomacia: "Meu pai man-dou in-va-dir esse daaaa... qui!". BUM!

(Segundo Zé Simão, ou charge do Zé Dassilva)



por CRISTINA CASTRO [ Fala aí: ]
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Este editorial da Folha de hoje ficou bom. Vou colocá-lo, em vez de postar apenas a notícia sobre a declaração de Blix.

"FARSAS DE GUERRA
São bastante graves as acusações feitas pelo chefe dos inspetores de armas da ONU, Hans Blix, de que os EUA e o Reino Unido utilizaram documentos falsos para tentar defender a ação contra o Iraque.
Já era chocante o fato de as tropas invasoras não terem ainda localizado nenhuma das tão temidas armas de destruição em massa, que oficialmente motivaram a intervenção militar. Agora Blix revela que parte "importante" dos documentos em que Washington e Londres se basearam para tentar convencer a comunidade internacional de que o conflito era justo não passava de falsificação.
A prudência exige que se pare um pouco antes de acusar os governos norte-americano e/ou britânico de terem forjado eles próprios os documentos. Como bem observou Blix, o fato de Washington e Londres terem utilizado papéis falsos não significa necessariamente que fraude tenha sido perpetrada pela Casa Branca ou por Downing Street.
O benefício da dúvida, contudo, não explica como os serviços secretos americano e britânico deixaram de perceber -e apontar- que os documentos empregados não eram autênticos. O secretário de Estado dos EUA, Colin Powell, utilizou pessoalmente esses papéis em comunicação que fez ao Conselho de Segurança da ONU. E Blix muito oportunamente lembrou que bastou à AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) obter uma cópia de um suposto contrato de compra de 500 kg de urânio entre o Iraque e Níger citado por Powell para concluir que o acordo não passava de uma fraude.
A guerra seria condenável mesmo se George W. Bush tivesse atacado o Iraque por acreditar sinceramente que Saddam Hussein possuísse armas de destruição em massa. Há, porém, agora a plausível hipótese de que os próprios governos americano e/ou britânico tenham forjado ou utilizado fraudulentamente "provas" para deflagrar o conflito. Se essa suspeita se confirmar, Bush e seus asseclas terão destruído aquele mínimo de decência que se esperava dos líderes dos EUA e do Reino Unido."

por CRISTINA CASTRO [ Fala aí: ]
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Quais são os interesses da França na questão do Iraque? Leiam esta matéria da Folha; é importante pensar a respeito, tendo em vista a afirmação do embaixador francês sobre o fim das sanções no Iraque.

"CHIRAC NÃO QUER PERDER DINHEIRO E FICAR ISOLADO
João Batista Natali

A dívida do Iraque com a França é de US$ 8 bilhões. Empresas francesas negociavam com o regime deposto contratos de US$ 7,4 bilhões em petróleo. Nenhum país seria insensato ao ponto de atirar tanto dinheiro pela janela.
Ao recuar de sua antiga intransigência e passar a apoiar a suspensão do embargo econômico contra o Iraque -o que foi defendido por George W. Bush na semana passada-, a França pode ser vista como um parceiro diplomático "realista", que leva em conta um quadro de fatos consumados.
A começar do desfecho da guerra contra o Iraque e a presença militar norte-americana naquele país. Seria inútil bater em teclas (como a transição política administrada pela ONU) que contrariem os interesses imediatos dos Estados Unidos.
Mas há outras formas de entender as declarações de Jean-Marc de la Sablière, embaixador francês na ONU, que ontem não mais condicionou o fim do embargo a um hipotético atestado dos inspetores daquele organismo de que o Iraque não mais teria armas de destruição em massa.
A França apostou que a guerra seria longa e difícil. Ela foi rápida, e a vitória da coalizão anglo-americana, relativamente fácil. Com isso o presidente Jacques Chirac, que condicionava o início das operações militares a um aval do Conselho de Segurança, ficou isolado.
Internamente, os partidos de sua base parlamentar vinham cobrando uma abertura na direção dos norte-americanos. Externamente, Chirac não manteria uma linguagem anti-EUA que Alemanha, Rússia e China já haviam abandonado.
As relações franco-americanas tendiam rapidamente a se deteriorar. O telefonema que Chirac deu a Bush, na semana passada, foi qualificado pelo porta-voz da Casa Branca de "frio como uma conversa entre dois homens de negócios".
Anteontem, segundo o jornal "Libération", Paul Wolfowitz, o segundo na hierarquia do Pentágono, apresentou em reunião um texto no qual propunha marginalizar a França do núcleo das decisões da aliança atlântica.
O Departamento de Estado se oporia a esse isolamento. Mesmo assim, Paris ouviu o sinal de alarme. E passou a multiplicar sinais de reconciliação.
Um deles: o A-M400M, avião europeu de transporte militar que só voará em 2009, mas que tem como núcleo de produção os franceses da Airbus, tenderá a se equipar com turbinas norte-americanas da Pratt & Whitney, em detrimento da indústria francesa (Scecma) ou britânica (Rolls-Royce). Foi anunciado ontem.
E ainda: no Quai d'Orsay, sede da diplomacia francesa, o porta-voz do ministro Dominique de Villepin fez ontem ginásticas retóricas para se dissociar da proposta russa de credenciar os inspetores da ONU como os únicos capazes de certificar que o Iraque está desarmado."

por CRISTINA CASTRO [ Fala aí: ]
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Coloco agora trecho do artigo de Marcio Varella, também publicado na Novae. Questiona o papel do Jornalismo e critica a Coca, dentre outras coisas.

" Jornalismo e a Coca velha de Guerra

(...) Em brilhante artigo na Folha de S.Paulo do dia 10 de abril, a jornalista Eliane Cantanhêde pôs a verdade nua e crua pra fora. E pergunta: cadê as armas químicas (fabricadas por ingleses e americanos e vendidas a Saddam) terríveis que poderiam destruir o mundo? Cadê o exército de terroristas poderosíssimo que ameaçava a humanidade? Cadê as imagens abertas que poderiam mostrar um diminuto grupo de saqueadores iraquianos saudando os americanos? Cadê os 5 milhões de habitantes de Bagdá?

Por ironia do destino, o jornal onde Eliane trabalha publicou, naquele mesmo dia, três fotos fechadas da "tomada" de Bagdá. Tudo não passou de grande palhaçada, de uma armação combinada com os subservientes países dependentes do FMI. Pareceu-me que as matérias mostradas nas emissoras de TV foram editadas em Washington.

Quando o jornalista é impedido de fazer uma matéria, seu meio de comunicação publica o fato, reclama, protesta. Neste caso, ninguém protestou quando o comando militar americano impediu os jornalistas de trabalharem direito. Mesmo assim, 11 jornalistas perderam a vida nesta invasão. E nós, cidadãos comuns, e os livros de história ficarão sem saber como os EUA promoveram o fim de uma civilização, de uma cultura milenar, como humilharam uma religião sem o menor constrangimento. Não sabemos quem é o pior: se aquele que destruiu as torres gêmeas ou se o aquele que ordenou a invasão ao Iraque. Dois podem ser um.

O que é que está havendo com o jornalismo brasileiro? Com qual cor devemos qualificá-lo agora? Já foi verde-oliva, depois collorido", mais tarde "marrom". E hoje, devemos adotar as cores da bandeira americana? Não me lembro de uma linha sequer sobre a guerrilha no Sudão, que já matou dois milhões de pessoas nos últimos cinco anos. Não me lembro de uma linha sequer, naqueles quadros que nos remetem à memória, sobre a atuação de EUA, França e Inglaterra na África, na Ásia e na América Latina, quando dezenas de culturas foram dizimadas em nome de uma suposta democracia, que escondia por trás a ambição pelo lucro fácil.

A história está sentindo falta das imagens das centenas de crianças iraquianas mortas sob as bombas e os tiros disparados à queima-roupa por soldados psicóticos, a história está sentindo falta das imagens dos hospitais e das escolas e mesquitas transformadas em hospitais para atender feridos e amputados. Como será o futuro deste país, agora um protetorado americano? Qual será o futuro cultural de uma criança sobrevivente, que viu seus pais serem mortos e o país bombardeado até hoje não se sabe por quê? Seu coração será transformado em pedra ou em ira? Como elas recuperarão seu equilíbrio emocional? Daqui por diante, a velha dicotomia, o bem e o mal, terá um só caminho, o da vingança?

Matar crianças é mais do que um crime contra a humanidade. É um crime contra a Criação, é o maior dos desrespeitos a uma obra divina, o Homem.

O colunista Paulo Santana, do jornal gaúcho Zero Hora, nos lembra que 40 litros de gasolina, no Iraque, custam hoje US$ 1. Ou seja: é o mesmo valor de um litro de água mineral, que custa aqui no Brasil R$ 0,50. Resultado: o preço da gasolina no Iraque custa a metade do que custa o litro de água no Brasil. Mas até quando? Estarão os jornalistas atentos para o preço da gasolina no Iraque a partir do momento em que um senhor de pijama assumir a chefia do mais novo protetorado americano?

Conversinha no céu
Outra coisa: já é assunto velho essa história de americano fabricar armas químicas de destruição em massa. Com base num relatório escrito pelo ortopedista paulista Renato de Medeiros Silva, especialista em Medicina Natural, acuso George W. Bush de derramar sobre a humanidade uma arma química de destruição maciça chamada coca-cola.

[aqui ele colocou aquele texto que compara água e Coca Cola, já postado no nosso blog]

(...) E ao Pequeno Bush, um recado de todas as crianças do mundo: obrigado por realçar, ainda mais, o papel de vítimas a que nós, povos humildes do planeta, sempre fomos submetidos. Nos encontraremos no céu, para uma conversinha com seu superior."



(do Latuff, também na Novae).

por CRISTINA CASTRO [ Fala aí: ]
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Coloquei um trecho de artigo muito bom do jornalista Luiz Carlos Pires. Se quiserem ler na íntegra, recomendo visita ao site da Novae.

"(...) E foi simbolicamente em Athenas que os países europeus pularam para um tom mais suave contra os Estados Unidos e sugeriram a participação da ONU na reconstrução do Iraque. Apesar de Saddam agora ter entrado na lista dos mais procurados, a morte de civis em Bagdá e o saque aos tesouros da humanidade, a Operação Iraque foi considerada um sucesso pelos países da coalizão. Agora só resta fazer a cabeça de uns 5 bilhões de seres humanos.

A questão é repensarmos ou não esse modelo democrático ocidental que começa a ser imposto pela força ao resto do planeta. Platão pensara utopicamente a sua República, mas Aristóteles, seu discípulo, pode colocar em prática algumas idéias do mestre no governo de Hérmias, um mercenário grego que se apossou pela força de Atarneus, um rincão da Ásia Menor. No estado real de Aristóteles, Hérmias não precisaria ser o filósofo-rei sugerido por Platão. Bastava seguir as idéias de uma classe de cavalheiros cultos, como ele e empreender algumas ações, por vezes maquiavélicas, para controle do Estado. Uma postura religiosa comporia o quadro de um tirano moderado. Essa empreitada serviu de estágio para Aristóteles que depois assessorou um dos maiores megalomaníacos do planeta, Alexandre, o Grande.

No ideário da Doutrina Bush existem os ingredientes deste pensamento democrático, até mesmo a classe de cavalheiros, representada pelos falcões. Pela primeira vez o mundo assiste os movimentos iniciais da grande confrontação entre o Ocidente e o Oriente, entre o capitalismo liberalizante americano que pulveriza companhias e poupanças individuais de uma vida e a sua versão chinesa, de proporções gigantescas, com um começo de mão de obra escrava e sob controle ferrenho do Estado. De um lado estará o aperfeiçoado pragmatismo aristotélico e de outro o capitalismo-metafísico-religioso que também se julga evoluído e pragmático. Qual modelo governará o planeta?"

por CRISTINA CASTRO [ Fala aí: ]
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ONDE ESTÁ SADDAM?????? (resposta daqui a alguns posts!)



PS: achou fácil? pois é... além de saddam ainda existem 3 sósias...


::::::A bomba
é uma inflamação no ventre da primavera


por MARIA TEREZA NOVO DIAS [ Fala aí: ]
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Terça-feira, Abril 22, 2003


Como hoje a TT postou um texto enooooorme (e muito bom!) de Miguel Urbano Rodrigues, não vou escrever mais nada. Mas com uma condição: de que vocês leiam o texto todinho!

por CRISTINA CASTRO [ Fala aí: ]
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Esse é do Latuff, na Novae!!



por CRISTINA CASTRO [ Fala aí: ]
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Deus é brasileiro, pede licença a Churchil e manda avisar que se Bush invadir o inferno vai ficar do lado do diabo.
(Conde de Saracuruna)


Hehehe, ótima essa... tirei do blog::::::: http://www.mirolopes.blogger.com.br/


:::::: A bomba
é um cisco no olho da vida, e não sai

por MARIA TEREZA NOVO DIAS [ Fala aí: ]
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Hummmmmmmm! teorias de conspiração! adoro textos que exploram as possibilidades de acontecimentos futuros!!
:::::leiam este :::::::



A luta contra o neofascismo tende a assumir dimensão planetária
por Miguel Urbano Rodrigues


A longo prazo, o sistema de poder dos EUA será confrontado com a derrota do seu projecto de dominação mundial perpetua.

O fracasso da estratégia planetária neofascista que determinou a agressão contra o Iraque acentuará a crise económica e política ¿ muito real embora pouco visível ¿ que a grande republica atravessa.

A curto prazo, o grupo que controla o poder em Washington extrairá benefícios da capitulação dos governos da União Europeia. A linguagem e o conteúdo do documento aprovado na Cimeira de Atenas não surpreenderam. O telefonema de Chirac a Bush, dias antes, antecipou aquilo que iria passar-se.

O recuo do presidente francês e do chanceler alemão expressou a nova correlação de forças na UE e as pressões de poderosas transnacionais europeias. Na Europa dos 25, a entrada dos países ex-socialistas ¿ embora estes ainda não possam participar nas votações ¿ deixou aberto o caminho à aceitação das teses da submissão.
desenho de Scott Cunningham
A contradição entre a atitude dos povos e a dos governantes que pretendem representá-los assume assim facetas explosivas. Enquanto milhões de cidadãos saem às ruas para condenar o genocídio iraquiano e a sangrenta repressão desencadeada pelas forças de ocupação, Chirac e Schroeder, uma metamorfose rapidíssima, trocam amabilidades com Bush e Blair. Arquivaram o discurso sobre a guerra ilegítima, violadora da Carta da ONU, aceitam a pata americana sobre o Iraque, declaram-se dispostos a aceitar uma fatia na partilha dos despojos e não reivindicam mais o papel central para a ONU no debate sobre o futuro do pais. Olham já para o Iraque como as potências imperiais europeias contemplavam a África no final do século XIX, após a Conferencia de Berlim, quando Disraeli e Bismark a haviam tratado como se fora um gigantesco jardim zoológico.

O comportamento dos estadistas caricaturais que, abusivamente, falam por dois grandes povos, o francês e o alemão, contrariando os seus sentimentos e aspirações, deveria, em condições normais, levantar uma onda de criticas na comunicação social.

Não foi o que aconteceu. Na União Europeia o sistema mediático funciona, como nos EUA, sob controlo quase hegemónico de poderosos grupos que no fundamental apoiaram a guerra.

Dos princípios éticos violados pela agressão não escrevem nem falam os editorialistas de serviço nos grandes mass media. A luta do povo iraquiano opondo-se à ocupação, prenunciando, talvez, uma Intifada de novo tipo, não inspira interesse. A violência repressiva das forças ocupantes é noticiada em meia dúzia de linhas pela grande imprensa. O saque do Museu de Arqueologia de Bagdad e a destruição e roubo do seu património ocupam já menos espaço do que os elogios aos directores de grandes museus, com o British Museum, que lamentam o acontecido e oferecem os seus préstimos para ajudar no que for possível... Cadeias de televisão e influentes diários mostram-se sensibilizados com o caso do menino iraquiano, mutilado pelos bombardeamentos, que foi transferido para uma clinica do Koweit. Solidariedades farisaicas nascidas de crimes cometidos são elogiadas como exemplos do humanismo do ocidente; os prisioneiros estadunidenses que regressaram do cativeiro à civilização têm as biografias e os rostos em centenas de jornais que identificam nesses boys paradigmas da grandeza do soldado norte-americano. O mobiliário das residências de Sadam e a vida intima dos seus parentes (obviamente perversos, cruéis e debochados) tornam-se temas de reportagens especiais. Os videogames sobre a guerra lideram as vendas.

Chovem elogios sobre os políticos que Washington tirou da manga do casaco para os jogar no cenário iraquiano como candidatos democráticos dispostos a contribuir para a felicidade de um «povo libertado». Mas o povo real do Iraque, bombardeado como rebanho de gente contaminada por uma peste maldita, esse não é assunto. Não há estatísticas sobre o numero de mortos. Diz-se que foram alguns milhares. Mas a questão é tida por irrelevante, sem interesse.

O petróleo e o seu destino, e a reconstrução polarizam atenções. Os colunistas do «Wall Street Journal » e do «Financial Times» dedicam ao tema analises exaustivas. Os executivos das Sete Irmãs acompanham o debate, emitem declarações prudentes .

A guerra, no fim de contas, aparece-lhes já exclusivamente sob a faceta de uma opção lúcida que permitirá negócios fabulosos.

As nuvens que na Europa prenunciavam tensões políticas e económicas de larga duração com os EUA dissiparam-se a nível de governos. Submissos, Chirac e Schroeder estão impacientes por aprofundar o dialogo. Quanto ás Nações Unidas, o seu papel na chamada «reconstrução» não será no fundamental pomo de discórdia. Na Casa Branca já se levanta a hipótese de a ONU ser incumbida de uma tarefa que os EUA exigem, mas não querem, por motivos óbvios, desempenhar: levar aos tribunais os iraquianos que apontem como criminosos de guerra...

A vaga de hipocrisia que dá a volta ao planeta talvez não tenha precedentes. As grandes agencias e os cadeias de televisão que dominam o mercado levam aos confins da terra as opiniões dos senhores do mundo transmutadas em verdades universais.

Ora na realidade transmitem uma colossal mentira. O crime aparece já como acto civilizatório.

O mundo regrediu mais de um século. A linguagem dos media do «Ocidente civilizado em conflito com a barbárie de um remoto pais islâmico» faz lembrar a da época do fastígio vitoriano, quando a Inglaterra enviava da Índia um exército imperial (com elefantes a puxar os canhões) para depor o imperador etíope que ofendera um representante de Sua Majestade. Teodoro, o monarca, era um déspota sanguinário, mas essa evidencia não podia conferir legitimidade à invasão britânica.

O cinismo é o mesmo, embora o poder imperial tenha mudado de mãos e a informação seja hoje instantânea e universal.

Diariamente milhares de artigos e programas de sub intelectuais ao serviço da estratégia de Washington massacram as consciências com analises em que emerge, afinal, a apologia do neofascismo .

É de náusea a minha reacção perante a linha editorial adoptada pela maioria dos grandes jornais dos EUA e da Europa. Com poucas excepções, a matilha de epígonos oscila entre a adesão ao coro de elogios ao vencedor e uma atitude de resignação cristã perante o crime.

Há dias caiu-me nas mãos um exemplar de um jornal português, o «Diário de Noticias». Uma folha decadente de um pequeno pais cujo governo assumiu nas vésperas da guerra um papel de vassalagem ao patrocinar nos Açores o encontro de Bush, com Blair e Aznar.

Feliz com o desfecho, mais do que esperado da cruzada iraquiana, um tal Luís Delgado, alude ao arrependimento de Chirac e Schroeder, «que perderam o pé e a influencia num momento em que o sangue frio e os princípios deveriam imperar». O conceito de ética desse imitador de jornalista aparece expresso na conclusão de que «foi preciso ter muita coragem política e capacidade de analise prospectiva para estar no lado certo, no momento em que era necessário».

O desabafo do homem é daqueles que dispensa comentários. É gente como essa que, pelo vasto mundo, constitui a infantaria do exército da propaganda da estratégia do sistema de poder neofascista dos EUA.

O GRANDE MEDO

Ainda explodiam bombas sobre a terra martirizada do Iraque quando Washington começou a ameaçar a Síria. O ataque foi previamente discutido. Primeiro foi Colin Powell, depois Rumsfeld; finalmente o Presidente entrou no jogo.

Inicialmente acusaram o governo de Damasco de não colaborar com os EUA. Sendo elíptica a fórmula, foi dito que fornecera equipamento para o combate nocturno, que estava a admitir quadros iraquianos que atravessavam a fronteira, etc. Posteriormente Bush afirmou que a Síria possuía armas químicas, armas de extermínio maciço. Repetia-se sem imaginação a lenga lenga (desacreditada) que servira para justificar a agressão ao Iraque. A Casa Branca subiu o tom dos ataques e admitiu a hipótese de aplicar sanções à Síria se o seu governo «não colaborasse». Israel logo apoiou a ideia.

A cada desmentido de Damasco, Washington respondia com um acréscimo de agressividade.

O tema ocupou as manchetes. Muitos analistas admitiram que a Síria seria o próximo alvo dos EUA.

Tudo parece indicar que isso, pelo menos nos tempos mais próximos, não ocorrerá. Estaríamos perante uma manobra de guerra psicológica. É significativo que quase simultaneamente ameaças diferentes, mas inquietantes, foram endereçadas ao Irão e a Cuba.

Washington trata de extrair benefícios da sua «vitoria » militar. O «destino» do Iraque é apresentado como exemplo do que pode acontecer a países cujos governos não se submetam incondicionalmente a todas as exigências dos EUA.

A mensagem intimidatória não foi endereçada apenas à Síria. Pretendeu também impressionar aliados que não cooperaram directamente na agressão ao Iraque, como a Turquia, que não a aprovaram oficialmente, como o Egipto e a Arábia Saudita, ou assumiram uma atitude ambígua como o Sultanato do Qatar, que foi sede do Q