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Manchetes de Hoje

Bando faz arrastão em prédio Hoje em Dia, MG Quadrilha fortemente armada, com mais de dez homens, invadiu um condomínio de luxo no Bairro Funcionários, Zona Sul de BH, fizeram os moradores de reféns e assaltaram 15 dos 17 apartamentos.
MG tem 2,2 mil veículos roubados a cada mês Estado de Minas, MG Capital registra metade dos casos. Pampulha é o ponto de maior ocorrência.
Cresce homicídio de meninos em SP Folha de S.Paulo, SP Os homicídios corresponderam a 283 das 1.614 mortes verificadas nessa faixa etária.
Anistia milionária pode acabar O Estado de S.Paulo, SP Gpverno quer evitar a concessão de indenizações de até R$ 2 milhões e pensões de até R$ 19 mil.
Congresso parado inibe crescimento Jornal do Brasil, RJ Os quatro meses de paralisia no Congresso custam caro ao país. Votações atrasadas de projetos estratégicos ao crescimento, como a Parceria Público-Privada, emperram a criação de renda e emprego a milhões de brasileiros.
Governo quer criar espaços para dependentes de droga O Globo, RJ O governo pretende criar, com o decreto, um marco legal para a política de redução de danos e tentar pôr um ponto final na interpretação de que essas ações são ilegais.

Fome Zero é pago a famílias de classe média no Estado Zero Hora, RS A falta de fiscalização faz com que benefícios do Fome Zero, agrupados no Bolsa-Família, sejam pagos a pessoas que têm casa própria e carro na garagem, em detrimento de famílias miseráveis.

Santarém-Cuiabá vai ter licitação aberta em janeiro O Liberal, PA

Federação: prefeituras terão que cortar 40% dos cargos comissionados Correio da Paraíba, PB O presidente da Federação dos Trabalhadores nos Municípios da Paraíba, Francisco de Assis Pereira, disse que 70% das prefeituras estão com os salários dos servidores atrasados e que a atualização da folha de pagamento só será possível com o corte de 40% dos cargos comissionados.
Meninos comandam o crime nas favelas Jornal do Commercio, PE Brigas de gangues espalham o terror nas favelas do Recife. E no meio desses grupos, ditando regras do medo, estão crianças de até 8 anos.

Governo estuda correção na tabela do Imposto de Renda Correio Braziliense, DF Interessado em recuperar o prestígio e a popularidade junto à classe média, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinou à equipe econômica a redução dos percentuais de dedução do IR ainda este ano. Novas regras devem passar a vigorar já em janeiro de 2005.

Inseguridad: se triplicó la cifra de chicos detenidos Clarín, ARG Los menores apresados pasaron de 5.000 en 1992 a 15.000 el año pasado. Por cada chico detenido por un delito, hay otros 8 que terminan en institutos porque son pobres o abusados.
Tras arduas negociaciones lanzan la Unión Sudamericana La Nacion, ARG Diez presidentes firmarán en 25 días un acta fundacional en Perú.
Israel ofrece a los palestinos los primeros signos de distensión tras la muerte de Arafat El Pais, ESP Israel no ha realizado la pasada noche sus habituales operaciones en Cisjordania; además se va a autorizar a las fuerzas de seguridad palestinas a que vuelvan a actuar uniformados y con sus armas reglamentarias en Ramala. Mientras, el primer ministro, Ahmed Qurei, ha logrado para sí la jefatura del Consejo de Seguridad, una vieja reivindicación del fallecido Yasir Arafat.
U.S. Armored Forces Blast Their Way Into Rebel Nest in Falluja The New York Times, EUA But as the battle intensified in Falluja, insurgents roamed the streets of Mosul and the nearby town of Ramadi.




Varrendo os meninos de rua



Num belo dia, chego em casa do trabalho e ligo a televisão. William Bonner, com aquela voz de apatia-jornalística, noticia: meninos de rua estão sendo recolhidos, reconhecidos e fichados pela política. É uma verdadeira limpeza social. Traumatizante para os garotos, sem dúvida. Minha indignação foi enorme, mas não fui a única. E aí está o artigo do Arnaldo Jabor, publicado no Estadão de terça, surpreendentemente defendendo os Cieps de Brizola (aliás, Jabor é sempre surpreendente em sua incoerência), mas, como sempre, bem escrito. Espero que provoque não apenas nossa discussão, mas a reflexão de todos os leitores do TCR.

"Meninos do Rio nos provocam arrepio

Os meninos de rua nos davam pena. Hoje nos dão medo. Olhamos os pobrezinhos parados no sinal fazendo um tristíssimo malabarismo com três bolinhas e nosso sentimento é de culpa, pena, indignação. Então, damos uma esmola que nos absolva ou pensamos que um dia poderão nos assaltar. Os meninos de rua do Rio são a ponta de um erro que percorre todo o Estado e o município, todas as instâncias da incompetência, da falta de vontade política, do populismo sórdido que é nossa tradição. Por isso, as autoridades sem rumo querem tirá-los de nosso ângulo de visão, querem impedir que o sangue apareça na chaga, querem fazer deles um álbum de figurinhas para o futuro, fotografando-os, fichando-os preventivamente, como naquele filme do Spielberg, Minority Report, com a polícia adivinhando quem iria no futuro cometer crimes. É um fichamento preventivo, talvez já influência dos tempos de Bush, num Estado infestado de ladrões de colarinho-branco onde só com o dinheiro tirado do propinoduto, ou do INSS roubado ou o dinheiro que iria para os 40 ladrões daria para fazer dezenas de escolas ou algo parecido com os Cieps, sem os defeitos dos antigos, mas que foram uma coisa imaginosa e generosa feitas por Brizola e Darcy. "As crianças voltam para as ruas", dizem os burocratas. Claro, recolhidos em Febems ou abrigos sujos ou obrigados a voltar ao terrível astral de suas favelas, entre pais desesperados; claro que é muito melhor andar na praia, com suas bermudas caídas até os rins, uniforme de todos os meninos pobres da cidade.
As pessoas se inquietam com as crianças andando em bandos. E elas, mesmo quando não partem para assaltar turistas, sentem nosso temor e cultivam um jeito vagamente orgulhoso de sua condição de "perigosos", eles que, antes, eram invisíveis a todos nós. Hoje, orgulham-se de nosso medo e assim constroem uma estranha cidadania.

Diante desse espetáculo triste e vergonhoso, que acontece conosco, os que comem e dormem e têm carros? Partimos para os adjetivos, abstrações, para os brados de alerta, para os "bastas", para um vago desejo de reforma que ninguém sabe qual é.

Todo nosso pensamento progressista ou reformista é antigo, porque é em bloco, é generalizante: "Precisamos acabar com a pobreza, com o crime em si, com o tráfico em bloco." Tudo é assim; nada é prático, possível, imediato. Nunca se vê um plano concreto, real: "Vamos nos concentrar nos meninos de rua, pronto! Vamos fazer tal projeto possível. Não vamos bani-los ou fichá-los; vamos protegê-los nem que seja provisoriamente, em lugares decentes..." Nunca se faz isso. Então, o sonho com o "geral" impede o "particular" e nada se faz. Eu me lembro horrorizado que, quando o Collor tentou fazer os Ciacs (acho que era esse o nome), uma das coisas que impediram a realização desses centros semelhantes aos do Brizola é que as empreiteiras não se interessavam por obras baratas. Os projetos tinham de ser caros para serem feitos; como as obras do Maluf: ou se fazem viadutos imensos superfaturados ou casinhas de areia que se desmancham em pouco tempo. Roubos de duas pontas, ou pelo barato ou pelo caro. Não é possível que não haja uma terceira possibilidade, gestos imaginosos, soluções rápidas. Não é possível que não se possam levantar verbas entre o Estado, município e empresas para realmente criar essas soluções. Seria um treinamento inicial para a conscientização desta sociedade "indignada" que pendura faixas de "bastas" em fachadas de apartamentos de 1 milhão de dólares. "Basta" o quê? "Basta" de amolação? Basta de medo? Basta de ver miséria nas ruas? Com quem falam os "bastas"? Com a polícia, com o Garotinho, com Deus, com quem? Por que não falam "basta" para si mesmos, abastados, todos enfiados em seus cafofos de luxo, pensando em tradicionais termos ibéricos de que os poderes são os únicos responsáveis por tudo? E falam "basta" como se eles não fossem também responsáveis por esse horror, eles, os bens de vida que nunca se interessaram em urbanizar favelas ou proteger os desgraçados. Há 40 anos, havia jeito. Hoje, já era. Claro que sei que há coisas sérias e novas feitas nas favelas-bairros, por exemplo; claro que sei que há ONGs legais. Quem sou eu, que pouco faço, além de escrever e falar? Mas, não podemos continuar como Marias Antonietas apavoradas, sempre à espera de que as coisas melhorem por um milagre qualquer. O pesadelo carioca cada vez mais não tem uma solução tradicional. Cada vez mais a antiga "cidade partida" será uma "cidade tomada", sitiada pela miséria e a violência, porque continuamos a achar que a solução seria resolver isto ou aquilo no mundo da própria miséria. Não. A solução tem de passar pela reforma profunda dos métodos, do ataque ao problema, uma reforma em nossa mentalidade e burocracia. Nosso drama não é ausência de solução. É que não entendemos o problema. "

Sabem o que me dá mais medo nesta história toda? O fato de esses meninos de rua, mesmo com todo o pânico que se criou em torno deles, terem se tornado invisíveis. Quem é que se lembra deles na hora de discursar sobre reformas profundas no Estado e na sociedade? Quem é que sai pelas ruas e presta atenção nos meninos, e pára pra pensar na crueldade de uma sociedade que tolera que dois pentelhinhos fiquem fazendo malabarismos com pedaços de paus em chamas ou vendendo balas no sinal? (Geralmente pra repassar o dinheiro que recebem aos pais, que também estão dentro do subemprego). Esta situação está neste pé não só porque as propostas são pouco práticas, como apontou Jabor, mas porque elas simplesmente não existem de verdade. As pessoas se acostumaram - que absurdo! -, se conformaram com esta realidade. Aliás, é isso que sempre fazemos, não é mesmo? Invisibilizamos nossos problemas, para que esta vida seja mais fácil de engolir. Uma pena. Bom seria se todos sentissem a mesma indignação que Jabor e eu sentimos, ao ver a matéria sobre meninos de rua fichados no Rio. Fichados pelo mero motivo de existirem. Tornados visíveis pela pior forma possível.

Segunda-feira, Novembro 29, 2004 [ Fala aí: ]EMAIL

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Arafat morreu na quinta-feira e só hoje estou comentando o assunto. Isso é que eu chamo de notícia fria!



Os líderes políticos ficam ainda mais raros no mundo



Tá ficando difícil viver no mundo de hoje. Já não se fazem mais líderes políticos como antigamente. No Brasil, perdemos a figura simbólica que era Brizola. No mundo, temos que aturar monstrengos conservadores como Bush (e seus comparsas), Kerry como "alternativa política", Ariel SSharon em Israel. A Europa afunda naquela mesmice, não há mais efervescência em lugar algum. E Iasser Arafat, o líder palestino, morreu.

E, por falar nisso, morreu de quê? De velhice? De doença? De desgate emocional? A teoria da conspiração mais interessante do momento é a da representante da ANP na França, que diz que ele foi envenenado, já que foram encontradas toxinas incomuns em seu corpo. Afinal, "desde que Sharon entrou no poder, estão tentando se livrar de Arafat".


Charge de Latuff, na Novae: "Ariel Sharon é parabenizado... (No jornal: Arafat morre!) Bom trabalho!"


Não sei se era preciso isso tudo. O velho já estava encarcerado há três anos, sem julgamento de tribunal ou organismo de representação nacional. Em sua própria terra - ou naquela reservada pela ONU para os palestinos. Sem razão justificável.

Há quatro décadas, Arafat vinha trabalhando pela causa palestina, primeiro com atos terroristas, depois com negociações pacifistas (aliás, ele só se tornou perioso quando preferiu ser um negociador - alguém me explica isso?!). Quarenta anos trocando a vida pessoal pela política, em reuniões intermináveis com presidentes estadunidenses, primeiros-ministros europeus, líderes chineses, africanos, árabes. Passando por acordos melhor-sucedidos com Rabin até desavenças explícitas com o extremismo israelense. E, importante: não se vendendo a acordos fajutos, mesmo que isso significasse uma pressão enorme sobre seus ombros.

O cara era um líder. Bom ou mau, incompetente ou não para o povo palestino - o fato é que ele vivia para isso, representava essa luta e era venerado por um povo sem pátria. Sua teimosia pode ter significado um fracasso, mas também a vitória de uma luta completa, e não de cessões a acordos pela metade. Agora é esperar pra ver algum outro líder político surgir por aquelas bandas e ter a coragem de peitar todos os inimigos e aglutinar tantos interesses, como fez Arafat. Esperar sentados.

E a Paz?

Domingo, Novembro 14, 2004 [ Fala aí: ]EMAIL

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Fundamentalista vence Neoconservador

(Ou: Fedorento bate Malcheiroso)


É desanimador. Michael Moore faz um filme bombástico e aplaudido como Fahrenheit 11/9, o mundo inteiro faz campanha aberta contra Bush, a invasão no Iraque mostra-se um fracasso cada vez maior (e cada vez mais parecido com a tragédia no Vietnã, com baixas de soldados até hoje) - e, apesar disso tudo, George Walker Bush é reeleito. Se todas essas personalidades, ONGs, mídias e governantes não conseguiram deter a fera, o que um blogzinho medíocre como o Tamos com Raiva pode fazer? É hora de entregar os pontos. Talvez eu devesse me preocupar menos com o mundo, mudar de canal depois de ouvir "a revelação" de Fátima Bernardes, estourar umas pipocas e assistir a As Bicicletas de Belleville. É bem mais fácil que trabalhar e estudar o dia inteiro e, chegando em casa, dar de cara com essas boas notícias.

Não que John Kerry fosse muito melhor que Bush. Os dois defenderam as invasões no Afeganistão e Iraque, os dois têm discursos belicistas que prejudicarão Coréia do Norte e outros países, os dois são pró-Israel (bloqueando possibilidades de paz no Oriente Médio), são conservadores, protecionistas e teriam uma postura quase idêntica em relação à América Latina. Já têm posições muito similares em relação a Cuba e Venezuela. No que diz respeito à economia e à diplomacia, seguem a mesmíssima trilha.


Aroeira, O Dia (RJ)


A diferença é que Bush é mais radical que Kerry, inclusive no que diz respeito a questões de cunho ideológico/religioso, como a proibição do aborto e de casamentos entre homossexuais, limitação de pesquisas com células-tronco e para a cura do HIV e redução da educação sexual - que apenas exemplificam a linha de pensamento fundamentalista que vem regendo a Casa Branca nos últimos 4 anos. Como bem disse o sociólogo Immanuel Wallerstein, Bush "é rápido em julgamentos terríveis e depois extremamente obstinado em colocá-los em prática". Essa é uma diferença essencial, quando tratamos de estratégia política na maior nação do planeta.

A verdade é que, independente de Kerry ser igual ou melhor que Bush, é frustrante ver Bush ganhar novamente. Os norte-americanos passaram por quatro anos de completa alienação, tendo suas liberdades individuais podadas pelo Patriot Act (o que fez com que o advogado Stanley Hilton abrisse um processo contra a Bushaiada toda, acusando-os de serem os mandantes do 11 de setembro, com o único objetivo de instaurar uma ditadura nos EUA) e toda sua pompa de país democrático posta em dúvida pelo mundo inteiro. Afinal, nem mesmo seu processo eleitoral é tido como legítimo pela grande maioria do povo. E aqui vale uma análise do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, publicada na Agência Carta Maior:

"Uma coisa é certa: vai haver fraude eleitoral e esta só 'não contará' se houver uma votação inequívoca a favor de um dos candidatos. Caso contrário, em face do nível de alerta popular contra a fraude, estas eleições serão decididas mais uma vez nos tribunais. Se assim for, muitos norte-americanos se perguntarão e, com eles, muitíssimos mais no mundo inteiro: qual a legitimidade deste país para ensinar a democracia ao Iraque ou ao Afeganistão, se não é capaz de fazer funcionar a sua?"

A frustração começa logo pelo discurso de vitória dado por Baby Bush hoje à tarde. Ele, obviamente, prometeu a democracia do Iraque (repetindo: qual a legitimidade dele para se intrometer nos modelos políticos de outros países?), com a seguinte frase: "Com bons aliados, vamos lutar essa guerra contra o terror para que nossos filhos possam viver em liberdade e em paz". Mais guerra pela paz?


Toni Francis, Estado do Norte (RO)


Wallerstein, em entrevista dada à Carta Maior, juntamente com os ilustres sociólogos Eric Hobsbawm, James Petras e Luiz Gonzaga Belluzzo, conclui muito bem: "Se Bush for reeleito, todo o espectro político dos EUA será moldado para os próximos 20, 30 anos, e o mundo todo pagará uma alto preço, incluindo a América Latina".

Mas quem é culpado por essa desgraça? Os eleitores americanos (num país de voto indireto)? A alienação imposta a eles nos últimos anos (e toda a desinformação que houve durante a guerra)? Ou o domínio de fundamentalistas republicanos na política estadunidense, ao longo dos últimos 12 anos? A resposta mais provável é: tudo isso e mais um pouco. E mais a acomodação política de sociedades e governantes do mundo, que fecham os olhos para a divisão da pizza. Se isso não é motivo para ter raiva, que, pelo menos, nos dê mais um excelente documentário de Michael Moore no ano que vem. Com pipocas estouradas.


(Não deixem de visitar os links para ler excelente entrevista dada pelos sociólogos e análise feita por Sousa Santos, pouco antes do resultado das eleições)

Quarta-feira, Novembro 03, 2004 [ Fala aí: ]EMAIL

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