online



Baseado em histórias reais




Como são as coisas hoje em dia. A menina acabou de fazer seus 17 anos e está grávida de dois meses. É bonitinha, bem humorada, e todos os hormônios dos rapazes da mesma idade se sentiam mais aflorados perto dela. Numa dessas paixões de adolescente, engravidou. Ela, e centenas de meninas brasileiras idênticas, nascidas nas mesmas condições, mas talvez até com um pouco menos de sorte.

Parece que estou dando uma de naturalista, mas acho que a quantidade de calorias ingeridas por dia em refeições regulares influencia, sim, no comportamento da jovem. Do mesmo jeito que a quantidade de drogas disponíveis e acessíveis na vizinhança também ajuda. E a quantidade de amigos envolvidos com a marginalidade também significa alto potencial de explosão.

E o que acontece? A menina, com um pouco mais de sorte que as outras, conseguiu participar do Programa do Adolescente Trabalhador, e está há oito meses trabalhando numa grande instituição. O salário é o mínimo, acrescido de vale-refeição, vale-transporte e auxílio-saúde. Para quem só mora com a mãe numa favela, e cujo pai não costuma dar as caras, o salário é bom. Mas é bom para comprar várias coisas além de comida e pasta de dente: bebida, maconha, cigarro, ácido, piercing, etc. Afinal, nem só de estômago vive o homem. Infelizmente, o salário não deu pra comprar camisinha e pílula e ela engravidou. Na primeira vez, do namorado (traficante de drogas), um aborto. Na segunda (de outro namorado, que sumiu), um problema.

Nesse meio-tempo, brigas na escola - afinal, trabalhar e estudar é difícil e cansa. Não é expulsa, mas perde o ano. Tentativa de suicídio, brigas com a mãe. E, perdendo o ano, perde-se o emprego. Perdendo o emprego, perde-se o salário e - importante! - a assistência médica para o bebê que vai nascer em sete meses. A instituição acha que ela é uma delinqüente e o colégio está querendo expulsá-la. (Mas é capaz de ela expulsar o colégio antes). Qual é o futuro? Desempregada, com filho, sem família, sem marido, quase uma criança.

É a rua e todos os becos da rua.

Nesses momentos, pensamos se existe culpa no mundo. Ou se uma jovem de 16 anos não tem o direito de se rebelar, como todas as jovenzinhas de classe média se rebelam. O problema é que a rebeldia dos pobres custa caro: custa vidas, custa fome, custa desemprego. Ela não tem amparo, nunca teve. Nunca ingeriu a dosagem certa de calorias nas refeições diárias. Os "maus-elementos" com quem anda são os únicos amigos que ela tem (ah!, e quem não é mau-elemento hoje em dia?). Numa grande chuva dessas que assolam Belo Horizonte, ela perdeu a casa e teve que morar cinco anos num abrigo (a chuva é um mau-elemento!). Quando se apaixonou, foi por alguém que prometeu uma vida boa, mesmo que às custas do tráfico - e foi pra cadeia depois. Estuda numa escola que nem telefone tem. Podemos falar de culpa?

No emprego, todos estão chocados, porque ela sempre trabalhou bem. E ela ainda não entendeu o que se passa: uma mancha irreversível está preenchendo lentamente seu futuro. Como o de tantas iguais a ela, espalhadas pelo Brasil.

Terça-feira, Novembro 29, 2005 [ Fala aí: ]EMAIL

------------------------------------------------



Ouçamos o choro dos negros




O texto seguinte é do Editorial da Folha de hoje. Na verdade, se repararmos bem, não traz nenhuma novidade. Tem os dados que já conhecemos: o Brasil possui forte hierarquia racial e sexual. Negros recebem bem menos que o brancos que exercem os mesmos cargos. Mulheres recebem menos que homens. Apesar disso, há uma idéia arraigada entre os brasileiros de que vivemos numa "democracia racial". E essa ignorância da realidade faz com que o preconceito jamais seja combatido (mesmo politicamente), inclusive porque os próprios negros não se dão conta disso. Só discordo quando os editores dizem que as políticas afirmativas não devem estar em discussão. Devem, sim. E resolvem, sim. E quanto mais forem discutidas, maior a chance de destruirmos esse mito da democracia. Eu já discuti esse assunto diversas vezes aqui no Tamos com Raiva. Mas acho que vale a pena bater nesta tecla.
Talvez seja quase impossível lutar contra a desigualdade social num mundo capitalista. Mas ainda há esperança para a desigualdade racial.



RAÇA E PRECONCEITO

Um conjunto de estudos divulgado nesta semana chama a atenção para a complexidade do problema da desigualdade social no país. Condicionantes como raça e sexo, de acordo com esses levantamentos, desempenham um papel determinante para o agravamento da distância entre ricos e pobres.

De acordo com o Relatório de Desenvolvimento Humano Brasil 2005, da ONU, a população negra brasileira está mais pobre, apesar da diminuição nos índices de pobreza verificada durante os anos 1990. O estudo aponta que, entre 1992 e 2001, o número de pessoas com rendimento mensal inferior a R$ 75,50 diminuiu em 5 milhões. No mesmo período, no entanto, o número de negros cuja renda não atinge essa taxa aumentou em 500 mil.

Números recém-divulgados pelo Ipea e pelo Dieese apontam na mesma direção - e mostram que a discriminação por sexo torna o problema ainda mais grave. A média salarial da mulher negra no Brasil é pouco mais do que um quarto da de um homem branco. No Estado da Bahia, por exemplo, mulheres negras chegam a ganhar apenas 40% do que é pago a um homem branco que exerce a mesma função.

São dados que atestam a extensão do problema da discriminação. Não se trata de defender políticas que tomam como base critérios discutíveis, como as cotas para estudantes negros. A defasagem econômica da população negra remonta ao passado escravista, e priorizar o combate às causas da pobreza é a maneira mais profícua de enfrentar o problema.

Mas também é preciso levar em conta um fator de ordem cultural. A vulgarização de teorias sobre a formação nacional que fazem o elogio da mestiçagem contribuiu para uma compreensão equivocada do que seria a "democracia racial" entre nós. Estudos como esses confirmam que o racismo à brasileira pode ter características específicas, mas ele existe. E negá-lo pode ser a melhor maneira de alimentá-lo. (grifos meus)

------------------

Hoje foi publicada, no mesmo jornal, entrevista com o ativista negro norte-americano James Meredith. E algumas coisas que ele disse me interessaram:


"Enquanto os EUA têm estado há muito tempo no processo de mudanças governamentais, as políticas da supremacia branca ainda são a realidade. Os negros têm uma grande porcentagem de pobres em comparação com qualquer grupo, e o furacão Katrina deixou isso claro."

"Os portugueses - e o mesmo serve para o Brasil - foram os mais eficientes e conhecedores de todos os grupos europeus no sistema estabelecido da supremacia branca. E foram eficientes em fazer parecer que não se tratava disso. Eles venderam a idéia de uma democracia racial. Todo mundo sabia que era uma mentira, mas aí está a inteligência da hierarquia portuguesa.
Na América, mais da metade dos brancos era contra a forma de supremacia branca em 1860. Eles venceram a Guerra Civil, e o Congresso deu direitos cidadãos aos ex-escravos. Até hoje, o Brasil nunca deu direitos cidadãos aos seus ex-escravos. E isso foi feito de forma quase imperceptível."

"Ninguém no Ocidente fala sobre supremacia branca. Fala-se sobre raça, racismo. São termos emotivos. Enquanto as pessoas criarem suas crenças e suas políticas em cima de termos emotivos, nunca lidarão com a realidade. Os portugueses foram os que entenderam isso melhor."

"A mudança no status dos descendentes de escravos está apenas começando no Brasil. E a primeira coisa que os brasileiros têm de entender é que a estrutura do poder branco no Brasil tem grande interesse em expandir a cidadania, mas não sabe como fazer. (...) As verdadeiras mudanças vieram dos poderosos e seus descendentes. Mississippi se tornou importante porque os brancos de Harvard, Yale, Columbia foram para lá e se colocaram na linha de frente para forçar o governo a mudar suas políticas. Foi isso que provocou as mudanças, e não os negros gritando.

Não estou dizendo que o que os negros e outros não-brancos fazem não é importante, porque é o que dá a desculpa às pessoas com poder real para mudar as coisas. O que está acontecendo na França é quase idêntico. Na semana passada, o presidente francês admitiu que o verdadeiro problema é a discriminação contra negros e muçulmanos, mas acrescentou algo bem prático. Ele disse que, antes de fazermos algo contra a discriminação, temos de reprimir todos os distúrbios e então pensar sobre fazer algo sobre isso. No Brasil, muitas corporações não têm um único negro. Nos EUA, isso não pode ocorrer, não por causa das corporações, mas por causa do governo federal, que exige um plano de ação afirmativa. Enquanto não houver isso no Brasil, nada será eficiente." (grifos meus)

----------------------

Por fim, vou reproduzir a resposta que os candidatos à reitoria da UFMG Dirceu Greco e Antônia Aranha deram numa entrevista que fiz com eles para o jornal Tubo de Ensaio. Foi a única chapa que defendeu diretamente a questão das cotas para negros. Perderam para a Chapa 2, na consulta aos estudantes, professores e funcionários, que ocorreu no último dia 9.


"Quando a gente defende cotas - para negros e estudantes pobres -, parte de um pressuposto muito claro: ainda que a universidade aumente as vagas, a discrepância entre alunos negros pobres e brancos provenintes de outros estratos sociais vai continuar. Isso é uma confirmação de que certos estratos sociais precisam de políticas mais específicas para corrigir as desigualdades. Um dos negros do Supremo Tribunal Federal, nomeado pelo Lula e grande jurista [o ministro Joaquim Barbosa], disse que uma das maiores injustiças que se pode fazer é tratar os desiguais como iguais. Porque se parte do pressuposto de que todos têm a mesma chance, quando não têm. Nós sabemos que a população negra vem sofrendo sistematicamente um processo de racismo que impede que consiga alcançar postos mais significativos na sociedade. As cotas visam fundamentalmente a contribuir para corrigir a discrepância que vai continuar - mesmo que a gente tome medidas mais universais, como aumento de vagas. É claro que isso não pode ser definitivo. Tem que ser algo que a universidade vai tomar por um determinado tempo pra auxiliar a minimizar esse tipo de problema. Ao lado disso, temos que contribuir também no avanço da escola básica pública. O que nós não podemos é melhorar a escola pública para, depois, esse segmento entrar na universidade. Um dos alunos que trabalha aqui no programa de ações afirmativas fala assim: "não me peçam para ter mais paciência depois de 500 anos de exploração e de discriminação". Não dá pra pedir para os alunos negros voltarem daqui a 20 anos e tentar vaga em universidade pública. Claro que, ao lado disso, nós temos que tomar - e estamos tomando - várias medidas no sentido de avançar com a escola básica. Nós temos convênios com o Estado, com a Prefeitura Municipal, com as prefeituras de Contagem e Betim. E hoje nós somos um dos centros nacionais de referência para formação de professores alfabetizadores. Se há uma coisa que a UFMG tem é o compromisso com a escola básica. Nós sabemos que só isso não basta. Eu queria complementar com outra preocupação: não adianta simplesmente colocar alunos negros e pobres aqui na universidade sem implementar políticas de permanência. É preciso, ao mesmo tempo que se democratize o acesso, ampliar mecanismos de permanência, que vão desde assistência estudantil direta e ampliação de oportunidades acadêmicas, como bolsas de iniciação científica, até cursos mais focais, como de informática, metodologia de pesquisa, construção de textos - que são algumas debilidades que a gente enxerga, independente das cotas.

"A universidade tem o papel de intervir nas obscenas disparidades do país. (...) É um processo temporário, experimental, e deve ser mantida essa discussão o tempo inteiro. Nós vamos aumentar vaga, melhorar o noturno, adotar políticas de permanência, como um processo amplo de inclusive aumentar a participação no ensino médio e básico. É muito interessante porque a discussão toda que vem pra nós, vem só do lado da dificuldade. Muitas vezes perpassa a importância, "mas como é que vocês vão manter a qualidade? Como é que vai definir o que é negro?" A discussão acaba sendo relegada para segundo plano porque se diz: "é impossível porque não tem jeito".

"(...) Eu queria complementar que isso não é uma atitude isolada da UFMG. Ela contaria com diversas experiências de grandes universidades federais do país, tipo a UNB, a Universidade Federal do Paraná (que tem uma população negra pequena), a Universidade Federal da Bahia, e várias outras. Nem seríamos a universidade que tomaria uma atitude inicial. Já contamos com a experiência de diversas outras e inclusive de várias estaduais - na Bahia, no Rio de Janeiro (UERJ) e por aí afora. Poderíamos criar um grande diálogo com essas outras universidades para ver como aprimorar esse processo."

------------------
Deixo esta reflexão para vocês. Sobre a hierarquia racial brasileira, a falsa idéia de democracia e as alternativas que são pensadas pelos ativistas. Ao debate!

Segunda-feira, Novembro 21, 2005 [ Fala aí: ]EMAIL

------------------------------------------------



O cuspe do desabafo



Recebi o texto seguinte por e-mail e achei bem interessante, principalmente pela forma como foi escrita. Não veio assinado, mas quem enviou disse que foi escrito por uma jornalista chamada Veruska. Pesquisei na internet, e encontrei ele publicado no Centro de Mídia Independente e num blog chamado "Por um Novo Brasil", de uma pessoa chamada Jussara que parece apaixonada com o PT e o Lula. Enfim, é cheio de frases preconceituosas, é (pretensamente) imparcial e, de certa forma, é bastante simplista, mas não deixa de conter algumas verdades, principalmente na maneira crua de se expressar. Cortei alguns trechos que considerei irrelevantes e destaquei outros que acho mais importantes. Pode ser lido na íntegra pelos links acima.


Peçonha virtual

"Artur Virgílio é uma abominação. Um idiota, criado no seio de uma ridícula família burguesa, que se acha aristocrata só porque tem a falta de imaginação de repetir o mesmo nome há quatro gerações. É um cafajeste metido a refinado, que grita com mulher em público e acha aceitável ameaçar dar uma surra no Presidente da República.

ACM Neto também é um boçalzinho, que nunca precisou trabalhar duro na vida, se elegeu deputado às custas do avô coronel. E que avô, hein? Fraudador de painel de votação do Congresso que, quando se viu prestes a perder o mandato, não honrou as calças que vestia e renunciou. Não vale um traque de José Dirceu. Pois é o netinho deste sujeito asqueroso quem se acha no direito de ameaçar publicamente o Presidente da República do Brasil, eleito com a maior votação da história. Queria ver ser macho pra ameaçar um dos generais ditadores que seu vovô tanto apoiava. Bravateiro, inconseqüente, arrogante, sem um pingo de compostura e decoro para exercer o cargo que exerce.

A louca da Heloísa Helena, que acha que ser de esquerda é fazer esse triste papel de lavadora das privadas da direita, o qual vem exercendo há tempos, também achou bonito ameaçar de pancada o mandatário maior da nação. É claro que não foi levada a sério, pois além de mal poder com um gato morto pelo rabo, sempre teve fama de histérica e mal-amada, que faz da agressividade verbal exibicionista uma espécie de sexualidade alternativa. É uma piada ambulante, até naquele Congresso de bufões.

O Brasil tem hoje a pior bancada na Câmara Federal de todos os tempos. Com raras e honrosas exceções, que só confirmam a regra. E também, salvo as raras e honrosas exceções confirmadoras, o Brasil tem hoje a pior imprensa que já teve desde que vendidos e golpistas como Carlos Lacerda e David Nasser bateram as botas.

A começar pelas "estrelas" dos noticiários e programas de entrevistas. Arnaldo Jabor é um cineasta fracassado, que cometeu três filmecos pornográficos, metidos a cult. Desistiu, felizmente, e quando pensávamos estar livres de sua falta de talento, eis que o monstro ressurge e resolve torrar nossa paciência de outro jeito: fingindo que está com encosto do Paulo Francis. Paulo Francis era um direitista doente. Mas, pelo menos era ele mesmo. Uma bosta de ele mesmo, vale lembrar. Agora, imagine um pastiche desta bosta? Acertou, é Arnaldo Jabor.

Jô Soares é o filho único de um casal de grã-finos, criado no Copacabana Palace, e que nunca conseguiu superar a idade mental de doze anos. Tanto que não consegue fechar a boca e comer do jeito que um homem de sessenta anos deveria. Com barbas brancas na cara, continua se comportando como o garoto gordo que faz o papel de bobo da classe. Acha que é engraçado, quando está sendo apenas ridículo. Acha que é mais inteligente que todo mundo, quando só é arrogante. Assistiu um programinha mambembe de um entrevistador estadunidense, imitou em tudo, até no cenário, e com isso se sente no direito de humilhar seus entrevistados, seus músicos, sua equipe técnica e até sua platéia. Ou claque, melhor dizendo.Agora, decidiu que seu papel de deformador de opinião é fazer campanha declarada contra um governo que foi democraticamente eleito.

(...) E o que temos na mídia impressa? A revista VEJA. A revista VEJA merece um capítulo à parte, pois já deixou de ser uma publicação jornalística, pra embarcar no gênero ficcional com narrativa de literatura fantástica. Traz em suas páginas seres que só poderiam existir mesmo na ficção fantástica, como o Diogo Mainardi. Eu até acredito em fadas, saci, duendes e fantasmas. Mas, não acredito que alguém como o Diogo Mainardi possa existir de verdade. O pior é que, ao embarcar na literatura de ficção fantástica, a VEJA devia ter, pelo menos, treinado seus repórteres, distribuindo um exemplar de "Os Cavalinhos de Platiplanto", clássico do gênero, escrito por J.J.Veiga. A boa referência literária faria com que as criaturas, pelo menos, conseguissem imaginar uma historieta melhor do que esta de Fidel mandando ao Brasil dinheiro para financiar a campanha de Lula. E ainda escondido em caixas de uísque. Por que não caixas de charutos, que seria mais verossímil? Ou será que Fidel invadiu o Paraguai desde 2002 e a gente ainda não sabe?

As outras publicações chafurdam num mar de jabaculês, sensacionalismo e ignorância. Nem escrever corretamente em português conseguem mais.

Mas é essa imprensa sem preparo e totalmente comprometida com as forças conservadoras que forma a opinião da classe média brasileira. A classe média brasileira que é tonta, idiota e tem péssima formação educacional. Quem chega a fazer faculdade, nunca mais lê um livro, depois que se forma. Quando lê, é auto-ajuda, escrita pelo Lair Ribeiro. Mesmo assim, essa turma acha que é bem informada às custas de VEJAS, ÉPOCAS, FOLHAS, GLOBOS e se sente elite, adotando as idéias e
comportamentos da gentalha da mídia, que forma sua opinião.

Já a elite de verdade é hipócrita, canalha, egoísta e cruel. Tem ódio de Lula, por ser mestiço, nordestino e pobre. Acha um insulto ser governada por ele e se pudesse já o teria tirado do poder na ponta da baioneta, como fez com João Goulart, que nem pobre, nem nordestino era, apenas um moderado socialista.

É uma elite pobre de cultura e formação, composta por quatrocentões decadentes, descendentes de degredados, que se julgam nobres e por emergentes ridículos, que se sentem quatrocentões. Uma elite ignara, que compra livros como se fossem azulejos, para decorar paredes.

E é uma elite burra, que nunca leu Gilberto Freyre nem Adam Smith e não aprendeu que, até para poder continuar a habitar a casa grande, precisa deixar a senzala comer um pouco melhor.

Não, Poeta Cazuza, eu não vou "pedir piedade para esta gente careta e covarde!" . "Pelo menos esta noite, não." Estou mais é querendo que todos eles vão pro diabo que os carregue.

Estou de saco cheio de tanta baixaria, mediocridade, autoritarismo, maucaratismo e violência real e simbólica. Estou de saco cheio de ver esses cretinos mentindo, enganando e manipulando pra não deixar que o sonho do povo se realize. Estou de saco cheio de ver a desfaçatez com que tentam convencer o povo de que ele sempre toma a decisão errada e que, por isso, é melhor não decidir mais e entregar o país pra que eles, os iluminados, governem. Estou de saco cheio de ver esse mesmo filme se repetindo nos últimos quarenta anos, desde que me entendo por gente: a elite canalha governando, mesmo que à força. A classe média pusilânime aplaudindo, e se sentindo representada, como se tivesse algum poder. E o povo, sofrido e conformado, "levando pedras como penitente" e sonhando com um Messias, que o virá salvar.

Estou de saco cheio de ver o país dar um passo adiante e dez para trás, por que o progresso democrático contraria os interesses de meia dúzia de poderosos, cuja ganância é maior que o tempo que eles terão de vida para aproveitar o produto de sua perversidade.

Estou de saco cheio de ver o único Governo em muitos anos que nos livrou do FMI, voltou a financiar moradias, criou um programa de segurança alimentar para atender os famintos, assumiu a liderança da América Latina e impôs respeito no mundo todo, ser execrado diariamente nos jornais, como se tivesse inventado a corrupção, a violência e todos os problemas que o país arrasta há quinhentos anos. Estou de saco cheio de saber que isso é preconceito, sim. É ódio de classe, sim. É desejo de manter privilégios inaceitáveis, sim. Pois quando o sociólogo da Sorbone quebrou o país três vezes, liquidou o patrimônio do país a preço de banana, sucateou o parque industrial do país com uma política monetária absurda, multiplicou a dívida externa e comprou votos pela bagatela de duzentos mil para se reeleger, nunca mereceu da mídia o linchamento diário que vêm recebendo o Governo Lula e o PT. Nunca foi desrespeitado em plenário pela oposição da forma como o presidente Lula tem sido desrespeitado. Nunca foi ameaçado de pancada por um canalha, uma histérica e um herdeirozinho de quinta categoria.

Estou de saco cheio de ver tanta injustiça, tanta mentira, tanta cara-de-pau, tanta irresponsabilidade com o futuro do país, no esforço de criar uma crise que eles sabem que é hipócrita, falsa e eleitoreira, pois trata como novidade práticas seculares.

E tudo isso em um momento que poderíamos estar aproveitando para crescer, promover o bem-estar do povo, afirmar nossa grandeza como nação pacífica e progressista diante do mundo. Eles não se importam em jogar na lata do lixo da história o futuro das nossas crianças, desde que possam trazer de volta ao poder o partido da compra de votos, da privataria, da dengue, da quebradeira e do apagão.

Eles não pensam que, se interrompermos os projetos sociais que hoje assistem a mais de trinta milhões de brasileiros, estaremos fomentando ainda mais os bolsões de miséria, donde sairão os bandidos que matarão, seqüestrarão e roubarão a paz de seus filhos e netos.

Essa gente dorme, meu Deus? Essa gente coloca a cabeça no travesseiro à noite e sonha com os anjos, sem ouvir a voz do Ministro Gil cantando insistentemente em seus ouvidos "gente estúpida, gente hipócrita"?

Se você está acostumado a ler meus textos, deve estar espantado e até indignado com a virulência e agressividade deste aqui. Deve estar também de saco cheio de me ver aqui a xingar e blasfemar por tantas linhas. Pois saiba que é exatamente assim que estou me sentindo, depois de passar seis meses sendo submetida a um bombardeio diário de baixarias e canalhices golpistas daqueles que querem única e exclusivamente o poder.

Esse texto é um desabafo, uma vingança, um grito transbordante de quem está de saco cheio de agir corretamente, de respeitar os outros, de seguir as leis, a Ética, os bons modos, o politicamente correto e, olhando em volta, ver o triunfo dos canalhas sobre o homem de bem, do medo sobre a esperança, da covardia sobre a vontade de mudar pra melhor.

É um gesto de legítima defesa, destes que a campanha do "NÃO" tanto nos convenceu ser um direito. O texto está ofensivo, grosseiro, chocante? Que bom! Era isso mesmo que eu queria. Que toda a bile que derramei aqui possa chegar até essa gente nefasta e provocar neles raiva, amargor, ódio, ressentimento. Palavras não matam, mas, ferem. Ficam ecoando na cabeça e infernizando a alma por muito tempo. Tomara que todos eles leiam. E tenham um mau dia. Uma péssima semana. E um mês pior ainda."

------------
Alguns comentários:

1- Ela realmente trata Lula como um cara que está sendo crucificado e vitimizado mais do que merece. De certa forma, é crucificado sim. Até pelos motivos que ela apontou. Mas não sei até que ponto essa cruz oscila entre merecimento e culpa.

2- Acho um pouco irritante e realmente simplista essa consideração de que a mídia "cruel" manipula e forma opiniões a torto e a direito. Acho que falta um pouco de reflexão sobre o poder da comunicação de massa para compreender que ela não é tão impiedosa quanto parece e suas relações com a cultura são muito mais complexas.

3- Quase não publiquei mais o texto depois que li que ela "até acredito em fadas, saci, duendes e fantasmas". Sem comentários.

4- Apesar dos pesares, como eu já disse acima este texto tem seus pontos fortes. E bate fundo numa tecla que eu apoio: não é justo condenar o PT e o Lula por atos de corrupção que já são praticados há séculos no Brasil. Porque - ao menos da maneira como isso tem sido feito, na mídia inclusive -, a oposição sai ganhando, com o esquecimento do povo e com os votos de 2006. E, em termos de corrupção, a oposição é muito mais podre que o governo atual. Não nos esqueçamos disso!


Domingo, Novembro 13, 2005 [ Fala aí: ]EMAIL

------------------------------------------------



O fim do mundo de sempre



Não é a primeira vez que ouço ou leio pessoas dizendo que o fim do mundo está próximo. Afinal, nasci só quinze anos antes do fatídico ano 2000 e cheguei a ver até suicídios coletivos de pessoas que achavam que o Apocalipse já tinha começado. Divertido: o fim do mundo vai acontecer exatamente na virada de um século do calendário cristão. Pelo visto, deus acompanha nossa lógica temporal tão humana.

Nos últimos meses, no entanto, a febre pela teoria do fim do mundo tem se mostrado mais intensa. Ao ponto da Superinteressante fazer capa, de várias outras publicações cogitarem a hipótese e de e-mails incríveis circularem na internet (como o que recebi ontem, dizendo que o segredo que a irmã Lúcia guardava - revelado por Nossa Senhora de Fátima, em 1917 -, era o fim do mundo por agora. O e-mail chegava a ensinar as rezas e os capítulos da Bíblia que deveriam ser lidos por aqueles que pretendessem sobreviver à ira divina. E fala absurdos como "Deus castigará duramente aqueles que não se voltaram para ele", como se deus fosse uma entidade vingativa e cruel como os filhos que criou e como se estivéssemos de volta à tenebrosa Idade Média, das velas e bruxarias...).

Resolvi dar uma olhada no jornal para ver se os acontecimentos de hoje são muito diferentes dos de anos atrás. Descobri que temos, mesmo, furacões com novos nomes, terremotos também avassaladores, uma guerra sem fim no Iraque, uma miséria sem fim na África, diplomacias incoerentes, crises políticas no Brasil e motins na Europa. Mas nada disso é novidade, se olharmos para nosso século XX de duas guerras mundiais, guerras no Vietnã, Coréia, Iraque, Palestina, Nicarágua, com matanças de judeus, de russos e de negros, com ditaduras políticas sanguinárias pela América Latina, mortes em massa por AIDS na África, caos na sociedade civilizada e na natureza sem paz. O mundo está se acabando, sim, mas há muito tempo. Se acabando aos poucos com a lei universal da escassez sendo ampliada trocentas vezes pela desigualdade social que rege o capitalismo. Vivemos em guerra constante com os outros e com o mundo, em defesa do nosso próprio umbigo.

Mesmo assim, resolvi fazer um apanhado da semana, a partir de matérias do Observatório da Imprensa e da Folha de S.Paulo de hoje. Para vocês se prepararem com velas e rezas, no caso de os demônios se lançarem contra os homens...

EUA e Brasil - Bush veio para cá, depois da 4ª Cúpula das Américas, para argumentar em favor da ALCA. Como não poderia deixar de ser, o PSTU e a CUT organizaram uma manifestação de cerca de 1.500 pessoas para protestar contra o FMI, os EUA e os neoliberais de um modo geral. Resultado previsível: bombas de efeito moral e balas de borracha contra os ovos dos manifestantes.



Enquanto isso, VEJA faz uma matéria de capa dizendo que a campanha presidencial de Lula recebeu 3 milhões de dólares de Cuba. Ou 1,4 milhão. (Ora, 3 milhões = 1,4 milhão!). Se isso for verdade, o PT terá seu registro cassado na Justiça Eleitoral e nenhum petista poderá concorrer às eleições de novo. O sonho dourado dos Civita finalmente realizado. E, como bem analisou Mário Augusto Jakobskind, no O.I., "jogar no ventilador este tipo de denúncia, na antevéspera da reunião dos países americanos em Mar del Plata e da passagem do presidente estadunidense George W. Bush por Brasília, serve a que interesses? O objetivo é claro: enfraquecer o governo brasileiro, não apenas na questão da imposição da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), como também enquadrar Lula, que visivelmente tem áreas divergentes com o gigante do Norte, apesar de no plano econômico seguir as diretrizes das finanças internacionais." Como a matéria de VEJA apresentou provas falhas e gastou mais tempo com construção de teses do que com apuração, usando como fonte principal um sujeito morto, vale o que Jakobskind colocou: "A publicação dos Civita é useira e vezeira em plantar notícias do gênero. Recentemente 'denunciou' que as Farcs fizeram doações em dinheiro à campanha de Lula, numa matéria também sem eira nem beira, que se diluiu entre as mentiras rotineiras da publicação. A revista dos Civita, defensora incondicional do deus mercado, há anos adota uma prática jornalística sem escrúpulos, na base da mentira e meias verdades."

Aliás, todos os artigos publicados a esse respeito pelo site ficaram excelentes, com longas análises sobre a construção fajuta e intencional de argumentos pela VEJA. Vale a pena conferir os textos de Alberto Dines ("Se Veja não produzir nenhum trunfo no próximo fim de semana, o prosseguimento da denúncia deverá dar-se no âmbito de uma das CPIs, provavelmente a dos Bingos. Significa que, apesar das cautelas, Veja deu um tiro no escuro. Confiou na temperatura política, certo de que ela seria capaz de comandar os desdobramentos. Entregou-se ao imponderável. Nesses casos, o jornalismo sai de cena e entra o esoterismo."), de Alceu Nader ("Toda a história relatada depende que um morto volte ao mundo dos vivos - Ralf Barquete, que faleceu vitimado por um câncer em 8 de junho do ano passado."), de Deonísio da Silva ("Saco de pancadas da mídia, naturalmente municiada pelos que se enfrentam em luta política, o PT vem sendo apresentado com valhacouto de pessoas sem escrúpulos, capazes de tudo na luta pelo poder. Não é verdade. O que dele se diz está presente não apenas em muitos outros partidos mas, principalmente, no gênero humano. Há sinais inequívocos da presença do Mal - inerente ao homem - no mundo, seja concebido da forma que o for. Apocalípticos vêem neste alvorecer do terceiro milênio o começo do fim de tudo. Enfim, cada um vê o medonho com os olhos que tem!") e do próprio Jakobskind.

Já que todos os partidos têm escroques, vale a fórmula de Elio Gaspari para auditá-los: "Todos os candidatos a presidente precisarão convencer o eleitorado de que não estão montados num caixa dois. Proposta: o PT, o PSDB e o PFL juntam-se e cada um escolhe uma grande empresa de consultoria. Feito isso, formam-se três equipes mistas e cada candidato terá suas contas permanentemente auditadas por representantes das três auditorias, duas das quais indicadas pelos partidos adversários. Essa providência pode ser anunciada sem que sejam necessárias leis ou votações no Congresso. Basta papel, caneta e vontade de jogar limpo."

Insurreição - No Brasil, as manifestações com ovos e pedras são contra a criação da ALCA. Na França, os motins incendeiam carros e são contra a injustiça e exclusão social de imigrantes. "Cerca de 600 carros foram incendiados, 13 deles na cidade de Paris, na décima noite de distúrbios na França. Na praça da República, no centro da capital francesa, três veículos foram atingidos por um coquetel Molotov. Dez pessoas foram presas. Até a 1h (horário local), somente na cidade de Evreux (100 km a oeste de Paris), o número de automóveis queimados já ultrapassava 50. Incêndios também atingiram uma biblioteca, duas escolas, uma fábrica de reciclagem e um ginásio em diferentes cidades." (FSP)



Os números do editorial do Le Monde são mais graves: "Desde 1º de janeiro quase 70 mil atos de violência urbana foram contabilizados na França. Nos últimos dez meses, segundo esse indicador, registraram-se 28 mil automóveis queimados e 442 confrontos entre gangues." É a nova cara da guerra civil contemporânea. (É?). Os excluídos se voltando contra os ricos. Os políticos (vide o premiê Villepin) fazendo promessas de campanha que não são cumpridas e atraindo a ira dos marginalizados. (Ou seria a ira dos deuses?).

Enquanto isso, na África: quem é que sabe o que está acontecendo naquele imenso continente? Pior: quem é que se importa com ele? Milhares de jovens recém-formados vão procurar emprego em países desenvolvidos, abandonando a oportunidade de investir seus conhecimentos no país natal. A fuga de cérebros é a prova de que nem os africanos se importam com a África. Pois bem, fiquem sabendo que no Zimbábue a reforma agrária se dá através de "expulsões forçadas" de fazendeiros brancos de suas propriedades. Que milhares de barracos de favelas foram destruídos e feiras livres foram fechadas. Cerca de 700 mil pessoas ficaram desabrigadas, segundo a ONU.

Querem guerra? A invasão norte-americana no Iraque começou em março de 2003. A desculpa era que o país possuía armas de destruição em massa - uma mentira, mais tarde assumida pela Casa Branca. A verdade é que o país é um dos maiores produtores de petróleo do mundo, possuía um ditador que havia cortado relações com os EUA e a maioria das cabeças republicanas que ocupam o primeiro escalão do governo Bush tem ligações com petrolíferas do Texas. O que eles não esperavam é que a reação fosse durar tanto tempo. Mais de dois anos depois do início da "guerra", a notícia de hoje é de que "atiradores mataram onze pessoas de uma família e feriram outras três em um ataque a um microônibus, ontem perto de Bagdá." Notícia parecidíssima com a de todos os outros dias. Vietnã (parte dois) está mostrando que nenhum povo gosta de ter sua soberania ferida.

Para fechar com chave de ouro: "Um garoto palestino, de 13 anos, atingido na última quinta-feira por soldados israelenses, morreu ontem. Ahmad al Khateep levou tiros na cabeça e no peito durante uma incursão do exército para prender supostos militantes palestinos na Faixa de Gaza. O exército israelense afirmou que foi atacado por palestinos em Jenin e revidou o ataque, atingindo o garoto que segurava uma arma de brinquedo. O pai do garoto, Ismail al Khateep, anunciou que os órgãos de Ahmad serão doados para crianças israelenses, como uma mensagem de paz. O exército de Israel afirmou que lamenta o incidente." Se existe inferno, tenho certeza que ele é lá na Palestina...

Bom fim de mundo pra vocês!

Domingo, Novembro 06, 2005 [ Fala aí: ]EMAIL

------------------------------------------------
This page is powered by Blogger. Isn't yours?
Avalie Este Blog!