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Um 2006 de muitas tartarugas vivas!



Bem, o Natal já passou e já escrevi meu post dramático sobre a data. Aliás, o professor de História Ricardo Faria me comunicou que Dona Iolanda já foi libertada, depois de grande apelo da população à Justiça (fato que ainda não confirmei). Agora o ano de 2005 está quase no fim e as pessoas estão se preparando para mudar de ano com a cabeça erguida, apesar de todos os problemas pessoais e sociais, e com aquele sentimento de que as coisas podem mudar para melhor no próximo ano. É como disse o Drummond:

"Quem teve a idéia
de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ANO,
foi um indivíduo genial,
industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar
no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano
se cansar e entregar os pontos.

Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez, com outro número
e outra vontade de acreditar
que daqui por diante vai ser diferente."


Não basta a gente ficar a vida inteira indignados com as coisas ao nosso redor, em luta. Precisamos de uma esperança para mover nossos propósitos de vida. Precisamos da fé que nos garanta que nossa luta não é vã e que as coisas serão realmente melhores. E esse espírito de renovação que as viradas de ano nos trazem não deixam de ser, também, um espírito de sobrevivência.

***


Agora que as férias escolares chegaram, que os patrões estão em férias também e que o verão começa a deixar sua marca insuportável de calor, acho que muitas pessoas estão indo à praia. Por isso, resolvi reproduzir a idéia de um e-mail muito interessante que recebi:

- Milhões de sacolas de nylon e plásticos de todo o tipo são largados na costa. O vento e as marés se encarregam de arrastá-los para o mar. Uma sacola de nylon pode navegar várias dezenas de anos sem se degradar. As tartarugas marinhas confundem-nas com as medusas e as comem, afogando-se na tentativa de engoli-las.

- Milhares de golfinhos também morrem afogados. Eles não têm capacidade para reconhecer os lixos dos humanos, até porque, "tudo o que flutua no mar se come". A tampa plástica de uma garrafa, de maior consistência do que a sacola plástica, pode permanecer inalterada, navegando nas águas do mar por mais de um século.

- O Dr. James Ludwig, que estava estudando a vida do albatroz na ilha de Midway, no Pacífico, a muitas milhas dos centros povoados, fez uma descoberta espantosa. Quando começou a recolher o conteúdo do estômago de oito filhotes de albatrozes mortos, encontrou: 42 tampinhas plásticas de garrafa, 18 acendedores e restos flutuantes que, em sua maioria, eram pequenos pedaços de plástico. Esses filhotes haviam sido alimentados por seus pais que não conseguiram fazer a distinção dos desperdícios no momento de escolher o alimento.

- A próxima vez em que você for à sua praia preferida, talvez encontre na areia lixo que outra pessoa ali deixou. Não foi lixo deixado por você, porém, é SUA PRAIA, é o SEU MAR, é o SEU MUNDO e você deve fazer algo por ele.

O ser humano já causa muitos estragos à natureza, com os problemas sociais, urbanos, com a poluição de águas, ar, interferência na temperatura do planeta, desmatamento de florestas, destruição de solos riquíssimos, desperdício, etc. Graças à superpopulação, e à exploração sem limites dos recursos naturais em troca de riquezas, temos deixado um rastro de morte ao longo de nossa existência. E é uma morte suicida, porque é o assassínio de todo um ecossistema, de um planeta em estado de alerta. As crianças de hoje têm um senso ecológico muito mais apurado que das gerações passadas. Vamos incentivar isso em nós mesmos, porque os pequenos gestos, como podemos ver por esse texto, conseguem causar estragos imensuráveis.

No mais, um 2006 de esperança para todos nós, mantendo a raiva produtiva, mas sem perder a fé renovadora das eleições, das copas de futebol, dos projetos valiosos e de pequenas campanhas ecológicas como esta.

Sexta-feira, Dezembro 30, 2005 [ Fala aí: ]EMAIL

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Chore, Papai Noel




Ok, deixei a matéria sobre a corrupção na Bahia por 23 dias e acho que quem queria ler já deve ter lido (embora a discussão só tenha rendido dois comentários). Não estou fazendo campanha pró-Lula ou pró-PT, mas quero ressaltar, sempre que possível, como nossa direita consegue ser *ainda pior* que a esquerda (que está apenas começando a seguir os passos da cafajestagem). Mas ano que vem é de eleições, e terei muito mais oportunidades para discutir esse assunto.

No mais, hoje é Natal. E, ao contrário do que todos poderiam esperar, continuo com raiva. É claro que a hora da festança com os parentes é divertida, que a troca de presentes é linda, mas aquele trajeto pelas ruas chuvosas de Beagá cruzando com diversas criancinhas fazendo malabarismo no semáforo para ganhar alguns tostões na "caixinha de natal" foi bastante feio. Como diria meu pai, nem Charles Dickens, que escreveu várias vezes sobre a miséria entre os ingleses (inclusive no famoso "Conto de Natal", que, pra mim, representa o que há de mais puro no "espírito" desta época), seria capaz de imaginar uma situação tão dramática como a que vivemos nos dias de hoje - provavelmente não só no Brasil, vale dizer. O natal de Belo Horizonte é sempre chuvoso. Isso pode trazer um sentimento de tradição que quase corresponderia à neve dos países nórdicos, não fosse o fato de a chuva também significar enchentes, enxurradas e diversas catástrofes que só existem por causa do caos social urbano, da falta de estruturas de moradia para todo mundo, da falta de investimento em questões ecológicas.

Toda essa discrepância, que não me canso de apontar, existe em diversos núcleos. Por exemplo, quando as pessoas separam roupas para doar aos pobres, geralmente escolhem uma miudeza, que praticamente não representa nada dentro do conjunto de roupas que elas possuem, e geralmente são as roupas rasgadas, velhíssimas, que praticamente não têm conserto. É uma doação egoísta, que parte do próprio princípio da distinção social para sustentar uma idéia confortável de altruísmo.

A discrepância também existe em âmbitos maiores, que vão um tanto além do nosso umbigo. Como, por exemplo, na Justiça brasileira. Cujo próprio nome já é um paradoxo, uma aberração. Não é possível falar de justiça num país onde as cadeias só se enchem com pobres e negros, e onde os ricos se safam com penas mais brandas. Onde Malufs saem de casa para descansar com mais conforto (porque o juiz ficou com dó), e diversos políticos safados, que roubaram a verba pra alimentar centenas de crianças em creches e escolas, que roubaram a verba para curar as doenças dos pobres que se matam nas filas dos postos de saúde, que, enfim, cometeram um crime hediondo conhecido como "genocídio", passam poucas semanas sob o foco da mídia, escapam da cassação com uma renúncia hipócrita e retornam ao poder nas eleições seguintes.

E, como estamos no natal, falemos de assuntos natalinos. No blog Arteversos, do Talis Andrade (bons poemas, não deixem de conferir!), o último post trouxe mais um exemplo de como funciona nossa Justíssima:


"Senhor Presidente Luís Inácio Lula da Silva, indulto de Natal, indulto já, para Iolanda Figueiral morrer em casa.

Iolanda Figueiral, 'a brasileira de 79 anos aprisionada há cinco meses numa cadeia paulista. Acusada de tráfico de drogas (quando capturada com o filho em Campinas, tinha na bolsa menos de 17 gramas de crack), não pôde aguardar o julgamento em casa. Equiparado aos crimes hediondos, o delito a ela atribuído não permite esperar a sentença em liberdade provisória'.

Senhor Presidente, peço os mesmo direitos do filho de Pelé para Dona Iolanda.

'Ela não viverá para cumprir a pena. Com o corpo reduzido a escombros que somam 40 quilos, devastada pelo câncer no intestino e no ovário, atormentada por dores, vigiando a bolsa de colostomia, restam-lhe, se tanto, oito meses de agonia. Ela queria morrer em casa, ao lado dos quatros filhos, 15 netos, 15 bisnetos e outros parentes'.

Presidente, o senhor conhece (eu também sofri por um parente querido) o tormento de quem morre dilacerado pelo câncer.

Piedade para Dona Iolanda.
E todo o acompanhamento médico."



Entendendo melhor: 02/12/2003 (MJ) - O Diário Oficial da União publicou nesta terça-feira (02/12) o Decreto 4.904, que concede o Indulto de Natal, perdão total aos condenados em condições de merecê-lo. Uma das novidades do decreto deste ano é o indulto humanitário, concedido a paraplégicos, tetraplégicos, portadores de cegueira total e de doenças graves e permanentes. Nestes casos, é necessário um laudo médico oficial.Serão também beneficiados com o indulto condicional os condenados à pena não superior a seis anos e que, até 25 de dezembro tenham cumprido um terço da pena, se não reincidente, ou metade, se reincidente; condenados que tenham mais de 60 anos e tenham cumprido um terço da pena; aqueles que tenham cumprido 15 anos da pena, se não reincidente, ou 20 anos, se reincidente. Não terão direito ao indulto os sentenciados por crime de tortura, terrorismo, tráfico de drogas ou entorpecentes, bem como os condenados por crimes hediondos. As diretrizes para o indulto natalino são elaboradas pelo Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP) do Ministério da Justiça, formado por 18 conselheiros e presidido por Antônio Cláudio Mariz.

Entenderam? A Dona Iolanda, que disse ao juiz que tomava a droga para aliviar sua dor (afinal, não há remédios disponíveis no SUS para oferecer o mesmo efeito...), foi condenada por tráfico de drogas. Sendo assim, é culpada por um "crime hediondo". Pergunta: o tratamento dado a esta ex-bóia-fria de 79 anos, 40 kg e nenhum passado de crimes está sendo o mesmo dado ao Paulo Maluf, um dos maiores vigaristas que nossa política já conheceu, alguns meses atrás? Nossa Justiça não é cega, nem surda, nem burra. Ela é, simplesmente, corrupta.


(Feliz Natal pra vocês também.)

Domingo, Dezembro 25, 2005 [ Fala aí: ]EMAIL

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Vamos falar de corrupção?




A revista Carta Capital de 30 de novembro trouxe uma enorme matéria sobre esquema de corrupção na Bahia. Ele se assemelha muito ao caso do Marcos Valério em Minas, com a diferença de alguns milhões de reais a mais (quase o dobro do esquema do mineiro). Também envolve uma empresa de publicidade. Também envolve caixa dois (talvez, desde 1988). E se utiliza do turismo baiano para movimentar os milhões carlistas. Sim, porque os envolvidos neste caso de corrupção são, obviamente, ACM e sua penca de partidários do PFL.

Qual é a principal diferença entre esse caso de corrupção e aquele que estamos acompanhando há alguns meses? Principalmente, a cobertura da mídia. Os jornais baianos, praticamente controlados pelo PFL, não divulgaram nada. A Carta Capital sumiu misteriosamente das bancas do estado. Os outros jornais e revistas de relevância do país também não deram nenhum destaque ao caso. Por que esse diferencial entre PFL e PT? Será que porque o PT é governo? Será que é porque todos já sabem que o PFL é corrupto e isso não "dá notícia"? O importante é que seja de conhecimento da população, que seja repassado entre as pessoas - por e-mails, blogs, etc, já que os outros veículos estão completamente fechados. Porque 101 milhões de reais fazem muita diferença na nossa vida.


Leiam trechos da matéria aqui no blog, ou cliquem aqui para lerem a reportagem integralmente.


UM DUTO BAIANO
Uma conta fantasma de R$ 101 milhões, pagamentos irregulares e suspeita de caixa 2 rondam o terreiro de ACM
Por Leandro Fortes, de Salvador


"Pense em algo excêntrico, inusitado, em algum absurdo qualquer: ele já aconteceu na Bahia". A frase (...) tem ganhado um sentido pleno nesses tempos de CPIs - menos pelos absurdos cometidos pelos acusados, mais pela qualidade dos acusadores. Prova disso é a presença diária da bancada baiana do PFL na corte televisiva da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito dos Correios. É uma turma que engrossa a voz no Congresso Nacional e faz ouvidos moucos às denúncias de maracutaia na Terrinha. Nem uma única palavra, por exemplo, sobre um esquema semelhante ao duto de Marcos Valério Fernandes montado na Bahia e descoberto, este ano, por um conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE).

O conselheiro em questão chama-se Pedro Lino. Foi secretário de governo do ex-governador e senador Antonio Carlos Magalhães e do atual governador, Paulo Souto, ambos do PFL. Indicado para o TCE por ACM, dele se afastou aos poucos, por alegada grosseria e falta de modos do ex-chefe, até se firmar como uma das poucas vozes independentes dentro do tribunal. São dele as auditorias que causaram as maiores polêmicas sobre licitações e concorrências ligadas ao governo baiano, sobretudo nas áreas de educação e cultura. Em junho deste ano, um relatório de Lino, em particular, deixou incomodada a entourage carlista. À frente de um grupo de técnicos, o conselheiro produziu mais de 200 páginas sobre estranhas relações contratuais entre o governo baiano, a agência de publicidade Rede Interamericana/Propeg, do publicitário Fernando Barros, e organizações não-governamentais formadas por servidores públicos.

No centro da investigação está a Bahiatursa, estatal de turismo local subordinada à Secretaria de Cultura e Turismo do estado. O relatório do TCE aponta uma movimentação, entre 2003 e abril de 2005, de R$ 101 milhões por meio de uma conta bancária não registrada no sistema de controle do Erário baiano. Quase o dobro dos R$ 55 milhões movimentados por Marcos Valério no chamado "escândalo do mensalão". O dinheiro, segundo o relatório, foi utilizado para fazer pagamentos irregulares, uma vez tratar-se de recursos para aumento de capital da estatal. É o que, tecnicamente, chama-se de "créditos de acionistas para aumento de capital", destinados, exclusivamente, para dar musculatura financeira às empresas. Via de regra, no caso da Bahiatursa, trata-se de dinheiro público, dos cofres estaduais. As despesas não tinham nenhuma relação, portanto, com a finalidade expressa dos recursos, esclarece o documento do TCE.

Desses R$ 101 milhões, R$ 48,1 milhões foram depositados nas contas da Rede Interamericana/Propeg, do publicitário Fernando Barros - homem intimamente ligado ao clã dos Magalhães e ao PFL baiano, além de ser um campeão local de licitações. Para ter uma idéia dessa ligação, nos primeiros quatro meses de 2005, 62% de todos os recursos da Bahiatursa foram para a Propeg. Além disso, a estatal, uma empresa dependente do governo estadual, gastou 94,55% do orçamento apenas no primeiro quadrimestre deste ano.

De acordo com o relatório do conselheiro Pedro Lino, a conta 0800-1, do Bradesco, por onde circulou a dinheirama toda, não está registrada nem no Sistema de Informações Contábeis e Financeiras (Sicof) nem no Sistema de Gestão de Gastos Públicos (Sigap), que controlam e fiscalizam os gastos públicos na Bahia. O caminho do dinheiro configura um esquema clássico de caixa 2. A Bahiatursa recebe recursos do Tesouro estadual e os repassa para pagamento de despesas e transferências para empresas privadas por meio de convênios pouco ou nada confiáveis.

O TCE fez uma radiografia dessas movimentações e descobriu coisas interessantes. Um delas diz respeito a uma certa Oficina das Artes, ONG formalmente responsável por "atividades artísticas de fomento às ações culturais e conscientização turística, organização, promoção e realização de eventos artísticos e culturais". Na prática, faz oficinas com instrumentos musicais de plástico para jovens de baixa renda do centro histórico de Salvador. Detalhe: os cinco sócios e os dois membros do conselho fiscal da entidade são funcionários da Secretaria de Cultura e Turismo (SCT) da Bahia, à qual, vale relembrar, a Bahiatursa é subordinada. Sobre o tema, o conselheiro Pedro Lino escreveu: "O fato de constar no seu quadro social e no Conselho Fiscal da mesma (Oficina das Artes), parcela significativa de servidores públicos vinculados à SCT ou às entidades integrantes de sua estrutura, situação que, conforme verificou-se, permanece até o presente exercício (2005), evidenciando o comprometimento da impessoalidade no desenvolvimento da política pública nessa área".

Uma das sócias, segundo o relatório, Maria de Fátima Dantas Gaudenzi, é irmã do atual secretário estadual de Cultura, Paulo Gaudenzi, também ex-presidente da Bahiatursa. Outras duas, as irmãs Tânia e Vânia Redig Lisboa, são servidoras da Bahiatursa. Os demais são Eulâmpia Reiber, Carlos Américo Machado, Ivonete Maria Campos e Nidalvo Quinto dos Santos. Este último, membro do Conselho Fiscal, é da equipe técnica da SCT (...).

Os documentos do TCE indicam que a Oficina das Artes recebeu, entre 2003 e 2005, R$ 10,5 milhões por intermédio da Rede Interamericana/Propeg. De acordo com o relatório do conselheiro Pedro Lino, a figura do intermediador cultural tem dado um prejuízo inexplicável para a Bahiatursa e, por extensão, aos cofres públicos baianos. A estatal tem de pagar 4% de comissão sobre o valor de cada fatura apresentada pela Oficina das Artes. Apenas entre janeiro e abril deste ano, diz o TCE, os custos dos eventos patrocinados pela Bahiatursa foram onerados em R$ 111,4 mil por conta dessa circunstância. Situações semelhantes foram constatadas em pagamentos de divulgação do concurso Miss Bahia 2005, no patrocínio de atletas e na subcontratação de terceiros pela Rede Interamericana/Propeg. Esse expediente torna a fiscalização dos recursos bastante complicada. Isso porque o TCE pode auditar os contratos do governo baiano com a agência de publicidade de Fernando Barros, mas não os repasses da empresa do publicitário, por ser privada, para as ONGs beneficiadas com os recursos.

O relatório do TCE, aliás, mostra que as relações do governo da Bahia com Barros são bastante generosas, desde 1999. Na época, a Propeg assinou um contrato de R$ 40 milhões para prestação de "serviços de comunicação", durante a gestão do ex-governador e senador César Borges, do PFL. Em 22 de dezembro de 2000, um termo aditivo prorrogou o contrato original em 12 meses e acrescentou R$ 2 milhões aos valores iniciais. Em 10 de agosto de 2001, quando a Propeg gerou a "empresa-irmã" Rede Interamericana, outros dois aditivos jogaram o prazo de vigência do contrato para frente por mais três anos. Com isso, a agência de publicidade teve outros R$ 25 milhões disponibilizados pelo governo baiano.

Entre as irregularidades apontadas pelo relatório do TCE estão os pagamentos de subfornecedores com notas fiscais que mal discriminam os serviços ou sem apresentação de valores capazes de justificar as escolhas feitas, além de intermediações desnecessárias de serviços para realização de shows.(...)

Há, ainda, casos de subcontratação de gráficas para impressão de folders e livros. Algumas dessas publicações foram impressas em Porto Alegre - a 3 mil quilômetros de Salvador. O relatório cita como exemplo um gasto de R$ 2,25 milhões da estatal de turismo em apoio à campanha da Rede Globo "Amigos da Escola". A família do senador Antonio Carlos Magalhães é proprietária da TV Bahia, retransmissora da TV Globo no estado. Mantém, ainda, o jornal Correio da Bahia, descaradamente usado para defender e propagar os interesses carlistas no estado. (...)

Outro caso emblemático é a assinatura, em 2002, de um convênio entre a Bahiatursa e a Sociedade Cultural Auguste Rodin, no valor de R$ 1,6 milhão. Por conta de três termos de aditivos, essa parceria foi prorrogada até 25 de fevereiro de 2004. (...) "A Sociedade Rodin vem pagando, costumeiramente, impostos e taxas fora dos prazos de vencimento, acrescidos de juros e multas, utilizando para pagamentos desses encargos os recursos financeiros do convênio", registra o relatório do TCE.

(...) Além disso, a Bahiatursa mandou reformar, por R$ 39,1 mil, um casarão do século XIX, no bairro nobre da Graça (onde mora ACM), para a instalação do Museu Rodin da Bahia. O imóvel é alugado. O contribuinte baiano paga R$ 2,6 mil mensais para o dono do lugar, Sérgio Freire Sobral, que fez um negócio da China. As reformas pagas com dinheiro público, assim como o novo mobiliário (disposto em feng shui, bem entendido) da casa, terão apenas ele como beneficiário final. Somente entre 2003 e abril de 2005, a Sociedade Cultural Auguste Rodin embolsou R$ 3,7 milhões da Bahiatursa, diz o relatório do conselheiro Pedro Lino.

A fiscalização dos gastos do governo da Bahia depende de fatores pouco favoráveis ao contribuinte local. Dos sete conselheiros do TCE, cinco foram indicados por ACM e correligionários, inclusive Pedro Lino. Dois foram indicados por outros governadores. (...) Pedro Lino, aparentemente, libertou-se da órbita carlista. (...) Na imprensa baiana, apenas o jornal A Tarde arriscou-se a publicar reportagens sobre o assunto, mas sofreu forte pressão do governo baiano, dono da publicidade oficial.

Em nível nacional, o caso da Oficina das Artes chegou a ser anunciado, por duas semanas consecutivas, no índice da revista Época, mas a reportagem jamais foi publicada. Na primeira vez, na edição de 10 de outubro, a revista trouxe no sumário a seguinte chamada: "Bahia: ONG que tem sete funcionários públicos em seus quadros recebeu dinheiro do governo - Página 43". Mas nada do texto. Na edição da semana seguinte, de 17 de outubro, o mesmo anúncio, mas para a página 37. Novamente, nem uma linha sobre o assunto.

(...) Na Bahia, é história corrente que a reportagem foi sustada por intervenção direta de Antonio Carlos e ACM Neto. O deputado, também do PFL, nega e empenha a palavra na negativa. (...) O fato é que o atual presidente da Bahiatursa, Cláudio Taboada, foi indicado por ele para o cargo. Ambos têm uma ligação política fraternal. (...)

Para piorar, os parlamentares da Assembléia Legislativa da Bahia não têm qualquer acesso às contas do governo estadual. Não existe por lá, como há em nível federal, uma ferramenta como o Sistema Integrado de Acompanhamento Financeiro (Siaf), que permite aos deputados federais e senadores acessarem a movimentação de despesas e pagamentos da administração federal. A oposição local, comandada pelo PT, entrou e ganhou na Justiça uma ação que obriga a direção da Assembléia a implantar um sistema de fiscalização, mas nada foi feito, sob alegação de incompatibilidade tecnológica com a rede de informática do lugar. Agora, tenta-se negociar a implantação do sistema, pelo menos, na presidência da Casa. Os deputados teriam de marcar uma hora para fazer a fiscalização. (...)

Junta-se a essa circunstância o fato de haver, na Bahia, uma estranha duplicação na estrutura de fiscalização de contas. Além do TCE, existe um Tribunal de Contas dos Municípios (TCM), supostamente montado para auditar a relação das contas municipais com a administração estadual. Além da Bahia, apenas Ceará, Pará e Goiás possuem estrutura semelhante. As cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, por serem centros urbanos muito populosos, possuem tribunais de contas próprios. Em tempo, os sete conselheiros do TCM baiano foram indicados por Antonio Carlos Magalhães.

O secretário de Fazenda da Bahia, Albérico Mascarenhas, é titular do Conselho de Administração da Bahiatursa. Ele admite que a conta 0800-1, do Bradesco, não foi registrada nos sistemas de fiscalização do Erário por conta de uma tradição, segundo ele, de "duas décadas". Segundo Mascarenhas, essa conta recebe os repasses de aumento de capital da Bahiatursa desde 1988, contabilizados como despesa "para evitar dupla tributação". (...)

O secretário de Cultura e Turismo, Paulo Gaudenzi, é fã incondicional da Oficina das Artes, além de grande entusiasta da construção do Museu Rodin da Bahia. Mas alega desconhecer o movimento de receitas e despesas da Bahiatursa ¿ da qual também desconhece o número de funcionários. O volume de dinheiro deslocado para as contas da Rede Interamericana/Propeg, explica, foi uma maneira de facilitar o trabalho de fomento ao turismo e da área cultural. "A Propeg foi contratada para trabalhar como uma agência de publicidade da Bahiatursa", explica Gaudenzi. O fato de o TCE ter registrado uma irmã e seis funcionárias da secretaria da qual é titular no comando da Oficina das Artes (R$ 10,5 milhões recebidos em dois anos e quatro meses) também não lhe demove a tranqüilidade. "Eles nunca receberam um tostão, eram todos voluntários", avisa.

O relatório do TCE, assinado pelo conselheiro Pedro Lino e mais quatro técnicos, será agregado às informações gerais da administração estadual para, terminada a gestão do governador Paulo Souto, ser submetido ao plenário do tribunal. Aí, então, os sete conselheiros vão aprová-lo ou não. Nunca, no entanto, as contas do PFL foram reprovadas na Bahia. O TCE, contudo, não estará sozinho nessa empreitada. As denúncias contra a Bahiatursa também estão sendo investigadas pelo Ministério Público baiano. O procurador-geral Aquiles Siquara quer saber se os repasses de recursos podem estar ligados a caixa 2 e lavagem de dinheiro. Também investiga a possibilidade de as licitações do governo da Bahia, principalmente na área de publicidade, serem dirigidas.


Leia trechos do relatório do TCE, clicando aqui.

Sexta-feira, Dezembro 02, 2005 [ Fala aí: ]EMAIL

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