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Há um presidente mudando a História logo ali



Ontem comecei a falar da vitória de Evo Morales, mais novo presidente da Bolívia, cuja cerimônia de posse começou neste sábado. Por que foi tão importante? Porque ele é o primeiro índio a atingir um cargo tão alto dentro da América Latina, porque é representante das esquerdas e vem se posicionando como tal (desde a eleição, em 18 de dezembro, ele já visitou Lula, Fidel, Chávez e diversos outros líderes de centro-esquerda do mundo) e porque se propõe a defender minorias que, em seu país e em seu continente, jamais foram lembradas. É um sujeito simples, que ainda não se rendeu ao terno e gravata (o que vem causando rebuliço entre os defensores das etiquetas formais), vem mantendo um discurso coerente e um diálogo constante com as mídias do mundo todo. Enfim, ele reúne características que nosso presidente "histórico" agrega, além de uma postura diferenciada. Cabe a nós acompanhá-lo e torcer pelos bons frutos (levando em conta, ainda, que a Bolívia é um país frágil e que precisa de uma ajuda externa muito grande para crescer).

Ontem procurei notícias em vários jornais e descobri que eles simplesmente ignoraram a posse do presidente-índio. Não achei nada no Estadão, Correio Brasiliense, Zero Hora, e muitos outros. Nossa mídia, como a boliviana, não gosta muito desse tipo de mudanças. Chama Morales de "líder-cocaleiro", sem explicar que a coca tem uma importância fundamental na cultura daquele povo. Mais no final do post, vou explicar o porquê dessa postura. Agora, acompanhem as diversas visões e conheçam um pouco mais do novo presidente boliviano:

NovaE: A matéria da jornalista Elaine Tavares conta um pouco da biografia de Morales, de sua trajetória política e dos desafios que terá pela frente. Vale a pena conhecer:

"Evo Morales nasceu em 29 de outubro de 1959, na pequena comunidade de Isallavi, distrito de Oruro, a mítica cidade mineira. Mas, sua família era de camponeses. Durante toda a infância foi pastor de lhamas e amargou a vida dura de quem habita as áreas rurais. Os pais Dionísio e Maria tiveram sete filhos, dos quais apenas três sobreviveram. Destes tempos no ayllu (comunidade) Evo lembra das vezes em que a fome apertava e ele partia, com o pai, para buscar, bem longe, a farinha de milho que seria repartida entre todos no ayllu. Nestes longos trajetos entre Oruro e Cochabamba, o pequeno aymara recolhia as cascas de laranja que os viajantes jogavam pelas janelas dos barcos, e que ficavam pela beira da estrada. Era o que lhe matava a fome. (...) Com 13 anos criou um clube de futebol, o Fraternidad, e junto com o pai, tosquiava as lhamas para garantir dinheiro para a compra de bolas e uniformes. Com 16, já era o técnico da seleção do distrito. A mudança para Chapare, na região de Cochabamba, foi um passo importante para o jovem que já havia servido ao exército. Queria estudar, tinha ganas de fazer sempre mais. Mas, foi uma notícia cruel que dirigiu sua vida para o rumo do sindicato. Era o governo de García Meza e, em Chapare, se soube da história de um sindicalista que tinha sido queimado vivo. Aquilo serviu para que a indignação se transformasse em ação e com outros jovens criou grupos de apoio ao sindicato. Não demorou muito e lá estava ele, diretor, fazendo a luta. Em pouco tempo já era uma liderança nacional, sempre enfrentando o debate sobre o direito de os autóctones cultivarem a coca, planta ancestral que praticamente sustenta as gentes do altiplano andino. 'Quem inventou a cocaína não foram os aymaras, nem os quéchuas. O branco fez isso e agora quer destruir nossas plantações. Isso nunca!' A política sempre foi seu espaço e esta não é a primeira vez que concorre à presidência. (...) Com quase 70% de população autóctone, a Bolívia quer ver ascender um novo jeito de governar, sob a marca de 'Awyayala', a grande pátria originária. Evo Morales é essa promessa." (Leia tudo)

Agência Carta Maior: Emir Sader escreve o seguinte: "Clima de contágio popular nacional toma a Bolívia que deseja ver Evo como o novo Nobel da Paz, como o presidente de todos os povos indígenas do continente, como o detentor do bastão do mando terreno dos povos originários dos Andes bolivianos, entre outros títulos que indicam que assumirá um presidente com liderança legítima. Os críticos também se manifestam." Vale a pena ler o que os críticos têm a dizer.

Folha de S. Paulo: a matéria de ontem de Fabiano Maisonnave teve um quê de deboche, quando ele narrava o espírito de "Evomania" que tomava conta das ruas de La Paz. Biografias de 40 centavos eram vendidas em barraquinhas, a venda de camisas de lã iguais às de Morales aumentou e pacotes de turismo para conhecer a cidade natal do presidente custavam 300 reais. Mais importante que tudo isso, é o que se segue: "A 'onda Evo', que assegurou sua vitória no primeiro turno com 53,7% dos votos - feito inédito na história recente da Bolívia -, não parou de crescer até agora. Pesquisa de opinião divulgada por uma rede de TV local mostra que seu governo começará com 75% de apoio popular." Na outra matéria, há uma notícia muito melhor: "A renovação política boliviana atingiu em cheio o Congresso, onde apenas 17 dos 157 deputados e senadores conseguiram se reeleger - somente 11% do total. Melhor para o partido de Evo Morales, o MAS (Movimento ao Socialismo), que conseguiu, nesta semana, eleger os presidentes do Senado e da Câmara. Os socialistas têm a maior bancada, com 84 membros." Afinal, sabemos que nenhum presidente do mundo, por melhor intencionado que esteja, consegue trazer mudanças para um país sem o apoio de uma grande bancada.

Jornal do Brasil: a matéria de ontem da enviada especial do JB, Clara Cavour, teve um tom muito mais positivo. Ela contou como foi o Primeiro Encontro de Autoridades Indígenas da América, com tribos da Colômbia, Venezuela, Chile, Equador e outros países vizinhos. A fala do vice eleito foi aplaudida pelo público: "A possibilidade de um Estado multicultural está aqui. A atenção do mundo está na Bolívia, no processo de construção de uma nova democracia, pós-capitalista, pós-neoliberalismo. O movimento indígena emerge agora, sai de baixo da terra para dizer: hoje temos o direito de governar, não só um país, mas um continente (...) O movimento tem um projeto de sociedade, de nova civilização, e uma estratégia política. O que antes aparecia como tradição, como folclore, o que antes era considerado atraso, agora é futuro. Índios no poder, esse é o horizonte da América Latina".

Outra matéria também trouxe uma notícia excelente: "Os jornalistas são bem-vindos. A todo o momento se escuta nas rádios agradecimentos à imprensa mundial pela divulgação do momento histórico. Para a radialista boliviana Danna Romero, 35 anos, da Rádio Encuentro, o fator mais importante da cobertura é a forma como a mídia está tendo que lidar com o novo governo: - A posse de Evo Morales traz à tona elementos místicos aos quais não estamos acostumados. Temos de nos desapegar do discurso oficial, mais ocidentalizado, dos governos anteriores. É um desafio. As fontes mudaram, a forma de olhar os líderes no poder é outra".

As notícias de hoje não trazem muitas novidades:

Hoje em Dia: "O mandato presidencial na Bolívia é de cinco anos, sem reeleição (...). A cerimônia de juramento e posse está marcada para ter início às 13h30 locais. No final da tarde, às 16h50, Morales deve deixar a área do Palácio de Governo e percorrer a pé as poucas quadras até a praça San Francisco, o local histórico de concentrações populares. Diante da multidão, Morales fará a cerimônia de compromisso com a população."

Estado de São Paulo: "Delegações de 72 países participam hoje da cerimônia de posse do novo presidente da República da Bolívia, Evo Morales. Presidentes de 13 países confirmaram presença na cerimônia, que deve ser realizada por volta de meio-dia, no Congresso Nacional boliviano. (...) No Palácio do Governo, será realizada a segunda cerimônia, para que Morales receba o bastão que simboliza a passagem do poder e equivale à faixa presidencial brasileira. Só terão acesso a essa cerimônia autoridades, membros de delegações oficiais e diplomatas credenciados. Do lado de fora, na Praça de Armas, um telão vai transmitir, ao vivo, a cerimônia. Mais de 30 mil pessoas são esperadas."

Folha de S. Paulo: "A expectativa em torno da posse tem sido considerada sem precedentes na Bolívia. Hoje, as autoridades esperam 200 mil pessoas na histórica praça San Francisco. Outro recorde, segundo a Chancelaria, é o número de chefes de Estado -o máximo havia sido apenas cinco, contra os 11 que confirmaram presença. Além de Lula, confirmaram a presença Néstor Kirchner (Argentina), Hugo Chávez (Venezuela) e Ricardo Lagos (Chile).(...) Lagos é quem tem mais causado expectativa entre os bolivianos - é a primeira vez que um presidente chileno comparece à posse de um colega boliviano desde a ruptura das relações diplomáticas, em 1979."

A matéria de Maisonnave e Pedro Dias Leite também descreveu a cerimônia de ontem:

"Morales chegou ao local da cerimônia às 13h locais. Apareceu no alto de um morro à esquerda de onde a multidão se aglomerava. Ali, ganhou a bênção da Pachamama (mãe Terra). Estava vestido com um poncho vermelho de alpaca e trazia à cabeça um 'unco', espécie de gorro dourado de quatro pontas, em alusão às regiões do Estado pré-incaico. Nos pés, uma sandália de tiras também vermelhas. Ao final, recebeu uma espécie de cetro, símbolo do poder recém-adquirido.

Em seguida, desceu até as ruínas. No trajeto, aparentando muita calma, acenou para fotógrafos e turistas que pediam que olhasse para suas máquinas e cumprimentou quem estivesse mais próximo. E, do último degrau das escadarias do templo, fez um emocionado discurso de cerca de 20 minutos.

'Hoje começa o novo ano para os povos originários do mundo. Uma nova vida que buscamos de igualdade, justiça. Uma nova era, um novo milênio para todos os povos do mundo a partir daqui, de Tiwanaku, da Bolívia. E só com a força do povo, com a unidade do povo, vamos acabar com o Estado colonial e com o modelo neoliberal', disse Morales, seguido de aplausos e gritos. Sobre os primeiros passos do novo governo, Morales disse que priorizará a convocação da Assembléia Constituinte. 'Os povos originais reclamam refundar a Bolívia mediante a nova Assembléia Constituinte. Até o final de março deve ser aprovada a lei convocatória da nova assembléia', prometeu."


O JB de hoje trás dois textos muitos interessantes: um artigo de Marcelo Ambrósio, "O Pastor desce a montanha", com a história detalhada de Evo, e a matéria descritiva de Clara Cavour sobre a cerimônia de ontem, em "'Uma nova era para os indígenas'", com algumas falas emocionadas do povo boliviano: "Não viemos aqui para dizer somente 'Viva Evo', mas para dizer que estamos com ele não importa o que houver. Estamos preparados para a guerra. Não temos o que perder." e "Vamos defender o governo com sangue, porque assim chegamos aqui. Isso é uma revolução e usaremos até fuzil, se for preciso." A vitória do índio foi comparada à Revolução Cubana.

Por fim, para quem quiser conhecer a fundo esse processo por que passa nosso país vizinho, recomendo a leitura do blog Aqui não dá, do jornalista Talis Andrade. Desde antes das eleições, o blog é regularmente atualizado com diversas análises e notícias publicadas em jornais de La Paz e do restante do mundo. Tem até uma análise sobre a cobertura feita pelos nosso jornais. E a sensibilidade de ressaltar que, no dia da posse, os índios fizeram até recital de poemas.

Agora é nosso momento de torcer pelos novos rumos de um país logo ali. Até para que nossas esquerdas, desmoralizadas, possam retomar seu vigor (quem sabe?). Estamos vivendo a História, e não podemos ignorá-la.

Domingo, Janeiro 22, 2006 [ Fala aí: ]EMAIL

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Uma notícia boa, uma visão má e outra que depende



Agora que já estamos em 2006 e passou toda aquela fase de ilusões - tudo será diferente, melhor, teremos mais dinheiro e sorte, etc -, podemos nos chocar novamente com a Realidade. E ela traz notícias boas, visões pessimistas e análises que podem ser boas ou ruins, dependendo do ponto de vista. Vou demonstrar as três coisas, na ordem:

Notícia boa: "Pesquisas vêem redução da miséria e da desigualdade", anuncia a Folha de S.Paulo de hoje. Explica:

"O estudo Miséria em Queda, da Fundação Getúlio Vargas, mostra que o número de pessoas abaixo da linha da pobreza [renda inferior a R$ 115 mensais na família] passou de 27,26% da população em 2003 para 25,08% em 2004. Em 1992, o número era de 35,87%, o nível mais alto. Já a Pnad 2004 aponta que houve um aumento no número de empregos e uma pequena redução da desigualdade. (...) O número de empregos aumentou 3,3% em relação a 2003, o segundo melhor da série histórica iniciada em 1992. Também houve crescimento de 3,2% da renda média dos trabalhadores que ganham menos, com queda de 1,6% entre os 5% que têm a mais alta renda. Nesse caso, os ricos ficam mais pobres."

Um dos fatores que contribuiu para essa melhora foi o maior investimento em programas sociais, como o Fome Zero, ou o Bolsa-Família. Só neste ano, o governo investiu 16 bilhões nessa área. Mesmo assim, a notícia não é totalmente boa. Primeiro, porque ter um quarto da população brasileira ganhando menos de R$ 115 reais/mês não é nada bom. Segundo porque, depois dessas pesquisas, o governo está pensando em investir menos no Ministério do Desenvolvimento Social - ou seja, se a relação for mesmo direta, essa queda poderá minguar ainda mais.

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Análise má: Ariel Sharon está mal. Morrendo. E isto me lembra todas as críticas que já fiz a ele no blog, inclusive com as charges sangrentas de Latuff (início do post). Eu poderia ficar até com dor de consciência, se realmente não achasse que ele merece seu apelido carinhoso de SSharon. Vejam a análise má foi feita por um árabe, editor-chefe do Daily Star, de Beirute, publicado em todo o Oriente-Médio, traduzida para a Folha de hoje:

Ariel Sharon, um ilusionista
- Rami G. Khouri

A saúde de Ariel Sharon parece finalmente ter posto fim à carreira política ativa de um homem largamente saudado no Ocidente como "pacificador" ousado e inovador. A visão que se tem dele no mundo árabe é consideravelmente diferente e bem menos aduladora. (...)

Ele não é tanto um homem de paz quanto um criador de caos, como seus sucessores no poder em Israel não tardarão a constatar. Sharon foi hospitalizado na semana passada durante um episódio de política externa que constitui um testemunho ironicamente chocante da combinação mortífera de seu amadorismo político e da confiança que ele depositava no emprego da força. Ele estava freneticamente, quase histericamente recriando no norte da faixa de Gaza o mesmo tipo de "zona de segurança" que se mostrou um fracasso colossal quando ele a experimentou no sul do Líbano, mais de duas décadas atrás.

Em 1982, o Exército israelense, sob seu comando, ocupou boa parte do sul do Líbano, onde permaneceu até 2000, recorrendo a todas as combinações possíveis de força bruta, intimidação política, forças libanesas que agiam em seu nome e amplas e irrestritas medidas punitivas, morte e destruição para reprimir uma população libanesa que rejeitava a ocupação pelo Exército israelense. Israel finalmente retirou suas forças unilateralmente, na primavera de 2000. Sharon nunca aprendeu a lição do sul do Líbano: que apenas um vizinho árabe verdadeiramente livre e soberano pode ser um vizinho pacífico de Israel.

Sua exageradamente elogiada e divulgada retirada unilateral da faixa de Gaza nem propiciou um avanço no processo de paz com os palestinos nem trouxe paz e tranquilidade a essa fronteira com Israel. Foi uma retirada de mágico, um ato de ilusionismo, sendo que Israel ainda controla muitas dimensões da vida, da movimentação e da economia palestinas na faixa de Gaza. Sua construção do muro de separação que vem isolando cada vez mais algumas comunidades palestinas, incluindo Belém e Jerusalém Oriental, a parte árabe da cidade, vem se somando à ampliação contínua que ele promoveu dos assentamentos judaicos na Cisjordânia, tendo o efeito de elevar o ressentimento palestino a novos níveis - o que, em última análise, se traduz em novas formas de resistência.

Incapaz de ou indisposto a aceitar o consenso global de que, em última análise, Israel deve retirar-se de todos os territórios ocupados em 1967, Sharon jogou por terra as negociações de território por paz que estavam levando à solução de dois Estados. Ele substituiu essa abordagem por seu unilateralismo próprio: a construção da barreira de separação, a retirada de Gaza, o assassinato constante de militantes políticos e o hábito de decidir quando e se os palestinos podiam ser incluídos em discussões políticas.

(...) Ariel Sharon deixa para trás uma paisagem ensangüentada e fraturada, definida pela tensão e os confrontos com os palestinos, e a confusão no seio da sociedade israelense. Isso acontece porque, em última análise, suas políticas mostraram ser mais bravatas do que coragem real, baseada na honestidade.

(...) Se a medida de um homem é dada pelos resultados do trabalho de sua vida, então Ariel Sharon, nesta semana, deve ser visto como um grande promotor do caos, da confusão, da incerteza e do medo. Encerrar esse legado numa estratégia que leva uma nação inteira a tentar retirar-se atrás de uma muralha não apenas constitui um fracasso político grande e duradouro, como também uma grande tragédia humana envolvendo guerreiros audaciosos que não conseguiram parar de guerrear e que, quando as rédeas do poder lhes foram entregues, se voltaram a truques de ilusionismo.


Ah, claro, todas as visões más também são acompanhadas de boas visões. E o editor de assuntos diplomáticos de um jornal israelense, Aluf Benn, escreveu que "o êxito da saída de Gaza, praticamente sem violência, constituiu um exemplo brilhante de liderança nacional, um modelo a ser seguido".

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Para finalizar, uma notícia que pode parecer boa, mas, no meu ponto de vista, ainda está bastante ruim: "Diferença é menor entre raças". Os dados do Ipea são os seguintes:

Em 1990, um branco entre 48 e 50 anos, por exemplo, ganhava 130% a mais do que um negro da mesma idade. Doze anos depois, a diferença salarial nesta faixa etária caiu para 90%. Entre 24 e 26 anos, a diferença no rendimento em 1990 era de 62% a favor dos brancos. Em 2002, caiu para 55%.

Para os pesquisadores, o principal fator que explicava a queda era a redução da discriminação no mercado de trabalho. Apesar dos avanços, a desigualdade é evidenciada quando se compara a proporção de pretos e pardos em cada profissão no Censo 2000 do IBGE. Quanto mais valorizada é a ocupação, menor é a proporção de negros.

O Censo mostra que há apenas 8,9% de dentistas negros, 9,7% de arquitetos, 10,2% de médicos e 12,9% de juízes. Já entre pescadores e caçadores, no entanto, a proporção chega a 72,3%. Entre garimpeiros, são 70,6%, e, entre ajudantes de obras, 60,4%.

A comparação do rendimento mostra também que em 92% das 509 profissões do Censo negros ganham menos do que brancos.


Enfim, é excelente que as diferenças estejam diminuindo. Mas continua a discrepância racial no Brasil, não assumida por muitas pessoas (como, inclusive, podemos ver na enquete aí ao lado). Segundo o estudo realizado por Ricardo Henriques em 2001, analisando a escolaridade média de brancos e negros desde 1929, "as curvas parecem construídas com intencional paralelismo, descrevendo, com requinte, a inércia do padrão de discriminação racial". Ou seja: o analfabetismo diminuiu para todos, mas sempre mantendo a diferença clara entre negros e brancos. É bom saber que, em vez de um branco ganhar 130% a mais que um negro nas mesmas condições, ele ganha "só" 90%. Mas isso está longe de ser ideal. E a última frase da matéria é fundamental para percebermos que a luta deve continuar.

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Semana que vem vou fazer um post especial sobre Evo Morales, o novo presidente da Bolívia. Confiram!

Domingo, Janeiro 08, 2006 [ Fala aí: ]EMAIL

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