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Quais são as causas da mortalidade juvenil, tão alta entre pobres e negros? José de Castro disseca o tema, falando do tráfico de drogas, da impunidade, das relações entre a polícia e o crime, do preconceito que entende que a pobreza motiva o crime, da falta de políticas públicas que pensem em prevenção. Este artigo, cheio de dados e casos, merece ser lido atentamente por todos, especialmente os da classe média apática e segura.
Jovem e pobre: na mira do tiro
"Onde estou, a morte não está, e onde ela está, não estou. Então, por que temê-la?" Se eu fosse negro, pobre e tivesse entre 15 e 19 anos, gostaria de memorizar esse pensamento de Epicuro, um filósofo ateniense que morreu em 270 a.C, aos 70 anos de idade. Talvez eu pudesse viver sem medo, e quem sabe, viver até os 70 anos.
Mas, se eu fosse negro, pobre e vivesse numa grande cidade brasileira, minha chance de morrer antes dos 20 anos não seria animadora. O estudo Homicídios de Crianças e Jovens no Brasil -- 1980-2002, divulgado em novembro do ano passado pelo Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da Universidade de São Paulo, sem grande repercussão na imprensa -- mas que foi retomado esta semana pela revista Carta Capital --, mostra que as conquistas com a redução da taxa de mortalidade infantil nas últimas duas décadas podem se anular pelo crescimento de 306% nas taxas de homicídios de jovens até 19 anos.
No mesmo mês de novembro, a Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI) lançou o sexto volume do Mapa da Violência 2006 -- Os jovens do Brasil, continuação de um trabalho do sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz iniciado em 1998. Ele destaca que as epidemias e doenças infecciosas, que já foram as principais causas de morte de jovens, foram substituídas pelas "causas externas" de mortalidade, principalmente acidentes de trânsito (responsáveis por 17,1% das mortes) e homicídios (por 39,7%). Somados, representam cerca de 60% das mortes de jovens.
Segundo o site Missão Criança Mania de Educação, no Brasil, de 1993 a 2002 o número de homicídios de jovens de 15 a 24 anos aumentou em 88%. Só em 2003, mais de 16 mil brasileiros nessa faixa etária foram assassinados. Além disso, a taxa de homicídios de negros é 74% maior do que a média de brancos da mesma idade. E a morte por arma de fogo já constitui a principal causa entre a juventude. A maioria das vítimas de assassinato no país são jovens, pobres e negros, principalmente das periferias das grandes cidades. Por causa dessa situação, entidades do movimento negro, em parceria com diversas organizações do movimento sindical, de mulheres e de defesa dos direitos humanos, lançaram a campanha "Não matem os nossos jovens: Eu quero crescer". É um Estado que destrói a educação pública e constrói presídios, não investe nada na prevenção.
A psicanalista Maria de Lourdes Trassi, que lançou em novembro passado o livro Adolescência violência: Desperdício de vidas (Ed. Cortez), revela que quando o jovem morre por acidente de carro, geralmente é da classe média; quando morre por arma de fogo, é mais comum pertencer à classe baixa. "O jovem pobre vive em um ambiente conflagrado. Mesmo que não seja criminoso, fatalmente está mais exposto ao crime", diz.
Não é o caso de Flaviana Paula Vieira Sales, filha da escrivã Vicentina Epifânia Vieira, de uma família de classe média de Belo Horizonte, relembrado na edição deste domingo pelo jornal Estado de Minas. O repórter Paulo Henrique Lobato apurou o alto índice de impunidade dos assassinos na capital mineira e selecionou o caso Flaviana como exemplo. Ela ficou grávida em 1986, aos 16 anos. O pai, Alexandre Gomes de Sales, tinha 23 anos. Por conta da gravidez, os dois se casaram e tiveram dois filhos em quatro anos, embora vivessem em clima de violência doméstica. Em 1990, cansada dos maus-tratos, Flaviana pegou os dois filhos e foi morar no apartamento da mãe, no Bairro Padre Eustáquio. E ali foi morta pelo marido, então com 27 anos, com dois tiros na cabeça. O crime foi testemunhado pelos dois filhos do casal e pela irmã de Flaviana, Felícia, que também foi ferida com dois tiros na cabeça e outro no peito, mas sobreviveu. O suspeito disparou também contra uma filha, mas errou o alvo. Fugiu para São Paulo. No ano passado, foi preso depois de ser denunciado por agressão pela mulher com quem vivia, e recambiado para Minas. E está preso na Penitenciária Nelson Hungria, em Contagem, enquanto aguarda julgamento pelo Tribunal do Júri, sem data prevista. "Já deixei nas mãos de Deus, pois a sensação de impotência é enorme", diz a escrivã, que educou os dois netos. Hoje já estão na universidade. Em muitos pontos, uma história de vida bem diferente daquela que espera a maioria dos órfãos da violência urbana no Brasil.
O caso exemplifica bem, no entanto, o outro lado da violência -- a impunidade. Mesmo quando o crime é solucionado pela polícia e a denúncia apresentada pelo Ministério Público, o réu fica anos sem ser julgado. O mais comum é o assassino não ser identificado. Em 2004, foram abertos em Belo Horizonte 1.268 inquéritos por assassinatos, mas apenas 413 foram solucionados e a denúncia encaminhada à Justiça. Em 2005, o número de homicídios caiu para 1.027 e o de soluções subiu para 541. Muitas vezes, o caso pára aí. A capital mineira tem dois tribunais de Júri. Eles julgaram 228 casos em 2005 e, em 2006, o número subiu para 265 -- mas nem todos de assassinatos. Não se sabe quantos eram apenas tentativas de homicídio. Há homicídios da década passada na fila de julgamento.
A sensação de impunidade é um incentivo ao crime.
E a vítima preferencial é o pobre. E os jovens. As pesquisas indicam que jovens entre 15 e 19 anos são as maiores vítimas de homicídios no País, correspondendo a 87,6% dos casos, e ocorrem geralmente em vilas e favelas.
A taxa brasileira de mortes por arma de fogo é de 43,1 por 100 mil jovens entre 15 e 24 anos. Segundo a Carta Capital, em um ranking mundial desse tipo de morte, o Brasil ocuparia o primeiro lugar. "Por trás de números alarmantes, evidentemente, está a brutal desigualdade social e a vergonhosa distribuição de renda que mantêm o País dividido", afirma a reportagem assinada por Phydia de Athayde.
Com o índice de 27 homicídios a cada 100 mil habitantes (não apenas jovens), entre 84 países, o Brasil só perde para a Venezuela, a Rússia e a Colômbia. Nas mortes entre jovens, a taxa de 51,7 por 100 mil, nos coloca em terceiro lugar, atrás apenas de Colômbia e Venezuela.
As vítimas são fundamentalmente homens (93% do total) e de raça negra. Os jovens negros têm um índice de mortes por assassinato 85,3% superior aos brancos. As vítimas, em sua maioria, estão na faixa de 20 a 24 anos, mas vem crescendo nos últimos anos o número de mortes na faixa dos 14 aos 16.
O IBGE divulgou recentemente números de mortes de jovens na faixa dos 15 aos 24, nos anos de 2004 e 2005. Nesse período, a taxa brasileira caiu -- de 137,4 mortes por 100 mil jovens, em 2004 -- para 125,2 em 2005. Uma redução de 8,9%. Na primeira colocação continua o Rio de Janeiro, que apresentou aumento de 1,1% na taxa, que era de 225 em 2004 e passou para 227,4. Em seguida vem Espírito Santo (203,2), Pernambuco (188,2), Paraná (163,2) e Mato Grosso do Sul (154,9).
Carta Capital sustenta que políticas públicas específicas podem surtir efeito em problemas aparentemente insolúveis, exemplificando com o caso da mortalidade infantil. Dos anos 2000 a 2005, a taxa foi reduzida em 14,3%, de 30,1 óbitos para cada mil crianças nascidas vivas, para 25,8. Com isso, a expectativa média de vida do brasileiro subiu. Em 2000, era de 70,4 anos e, em 2005, de 71,9.
A mortandade entre os jovens tem vínculo estreito com o comércio de drogas, inclusive as legais, como o álcool. O Observatório de Favelas, do Rio de Janeiro, promoveu entre 2004 e 2006 uma pesquisa em 34 favelas do Rio. Pesquisadores acompanharam 230 trabalhadores do tráfico. Nesse período, 45 foram assassinados (66% por policiais, 13% por integrantes do próprio grupo e 9% por grupos rivais). Os entrevistados apontaram como o mais desagradável na profissão o risco de morte (73,5%), seguido do risco de ser preso (8,7%), do temor das milícias (5,7%) e da discriminação (3,9%). Entre outros mitos, cai por terra, na pesquisa, a idéia de que é impossível sair do crime: 40% abandonaram a atividade por conta própria. Mesmo porque, ao contrário do que se pensa, poucos ganham dinheiro no tráfico. Em 2001, o "vapor" -- ou "aviãozinho", como eram chamados antigamente os que fazem o comércio varejista da droga nas ruas -- ganhava de 10 a 15 salários mínimos, agora ganha no máximo três. Hoje, 60% deles trabalham 12 horas por dia, 7 dias por semana. O risco de morte aumentou significativamente e 73% desses jovens já foram espancados pela polícia. Quase metade, 55% foi vítima de extorsão e apenas 28% foram detidos. Isso mostra que há uma relação estreita com a polícia, segundo o Observatório de Favelas.
Se houvesse mais investimento na educação, boa parte do problema da violência estaria resolvida. O PAC, porém, lançado na semana passada pelo governo Lula para criar condições de desenvolvimento do país, nada fala sobre isso. Na favela da Maré, no Rio, há sete vezes mais jovens universitários do que traficantes, mas só os do tráfico são notícia. Cria-se um grave problema social quando se liga pobreza com marginalidade, pois isso vem legitimando a matança de jovens.
O economista Luiz Gonzaga Belluzzo, em artigo na Carta Capital, critica a classe média, da qual faz parte: "É claro que o repúdio dessa gente à saúde pública, à escola pública, à segurança pública é um gesto de diferenciação, de distinção em relação aos de baixo, uma espécie de grife que os identifica como consumidores de bom gosto em oposição à rafaméia vestida em andrajos. A grande vantagem dessa atitude é que, de quebra, fica justificado o descumprimento das obrigações coletivas -- desde o estacionamento em lugar proibido até a esperteza de furar filas e trafegar pelo acostamento --, ensejando uma espécie de anarquismo de remediados. Há fortes evidências, neste momento, de que, salvo para os de cima -- descontados os desabamentos de túneis --, a experiência foi desastrosa".
Essa experiência a que se refere Belluzzo é o desmonte do Estado verificada no país desde o governo Fernando Henrique Cardoso, por orientação do chamado Consenso de Washington. Ou pelo neoliberalismo. Um desmonte que continua no governo Lula. E com reflexos na classe média. Completa o economista: "A verdade é que, de uns tempos a esta parte, a chamada classe média precipita-se ladeira abaixo. É claro que alguns ainda conseguem se agarrar à nave espacial dos mais ricos, que decola célere em direção à economia moderna e globalizada. Mas esses são cidadãos do mundo e só fazem cálculos em dólares porque não acreditam, de fato, que o real seja uma moeda forte".
Mino Carta, diretor da Carta Capital, afirma em seu blog: "A história da cratera paulistana e a tragédia do Rio Pomba originam-se em características inescapáveis do poder brasileiro. Irresponsabilidade, incompetência, instinto de predação herdado dos colonizadores, certeza da impunidade. Os nossos senhores são prepotentes, arrogantes, vulgares, hipócritas, amorais. É por isso que acontecem desgraças anunciadas. E que o País vive uma Idade Média. E que foi atirado ao lixo, até agora, um capital de valor inestimável, chamado Brasil".
É preciso dizer mais?
Ele diz. E conta: "Segunda-feira passada almocei com um grupo de empresários. Primeiro time. Estavam satisfeitos com o PAC, acreditavam nos propósitos do governo e achavam o projeto viável. Discutiu-se a taxa de juros reais, a mais alta do mundo, e houve quem manifestasse esperanças de que logo mais o Copom mostraria sintonia com o plano. A decisão almejada por alguns ficaria entre 0,5 e um ponto percentual. Houve quem apostasse em 0,5. Perguntaram por minha opinião, o que me pareceu engraçado, em matéria de economia e tudo o mais trafego na névoa, mas, com a expressão de Buster Keaton, vaticinei, implacável: 0,25. De fato, não espero do Copom lances empolgantes. Acertei, infelizmente. Percebo a decepção geral. O desalento, até. Inquiro os meus melancólicos botões: que história é esta, o BC não é órgão do governo? Os botões saíram de fino, assobiavam baixinho o Requiem de Giuseppe Verdi. Eu entendo, poupam-se de dizer, ou melhor, de constatar, que o BC peita o governo numa boa. Às vezes, funciona como quinta-coluna".
Como se sabe, Mino Carta é eleitor de Lula e sua revista declarou publicamente seu apoio à reeleição...
Domingo, Janeiro 28, 2007 [ Fala aí: ]EMAIL
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Apesar do título que dei para o novo artigo de José de Castro, ele bem poderia se chamar "Como enganar os brasileiros, na versão mais atualizada dos governos" -- não só do Lula, mas também do FHC e de todos o outros que remontam à criação do Incra, na época da Ditadura Militar. Tanto tempo depois, lendo e ouvindo tantos números maquiados, só nos resta manter aceso o senso crítico e a indignação -- e ajudar a divulgar as análises importantes deste artigo.
Como enganar um sem-terra
Quem quiser que acredite em estatísticas oficiais. Aprendi, ao longo de mais de 30 anos no jornalismo, a não confiar. E desconfio, sobretudo, de dados do governo Lula sobre a reforma agrária. Têm cheiro, gosto e aspecto de empulhação. É querer nos tapear, por exemplo, quando o ministro Miguel Rossetto divulga no dia 3 de janeiro de 2006 que mais de 117,5 mil famílias foram assentadas, em 2005, pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário e pelo Incra, até o dia 22 de dezembro. E vinte dias depois, o mesmo ministro afirma que foram assentadas 127.506 famílias, ou 10,9% acima da meta para o ano.
Nesse mesmo dia, em entrevista coletiva, Rossetto previu que em 2006 seriam assentadas 55 mil famílias, para cumprir a meta de assentar 400 mil nos quatro anos do governo Lula, que terminariam no dia 31/12/2006.
Uma pobre meta, partindo de quem havia prometido muito mais, na campanha eleitoral de 2002. Dizia o Programa de Governo do PT: "A aceleração do processo de Reforma Agrária e um programa de recuperação dos assentamentos já efetuados é indispensável para aumentar o emprego na agricultura e proporcionar segurança alimentar aos trabalhadores e suas famílias".
Pelo menos, não estou sozinho nesse descrédito em relação aos números do governo. Em dezembro de 2005, logo depois do anúncio de que foram assentadas 117.500 famílias, o secretário de Política Agrícola da Confederação Nacional de Trabalhadores na Agricultura (Contag), Paulo Caralo, contestou o número de Rossetto, como já havia feito o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST).
A Contag é uma entidade sindical eternamente pendurada nas mamas do governo, qualquer governo. É uma entidade pelega. Mesmo assim, disse Caralo, o governo estava mascarando os números. Estava contando como meta de reforma agrária a retomada de lotes e a regularização fundiária de famílias que já eram posseiras há 10, 20 ou 30 anos. "Para nós, reforma agrária são novas famílias na terra, são novas áreas desapropriadas", ensinou Caralo a Rossetto. Segundo Caralo, sob as asas da Contag e dos sindicatos filiados, que se opõem ao MST, havia mais de 140 mil famílias acampadas e, destas, apenas umas 30 mil foram assentadas em 2005.
De acordo com a Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, naquele ano, cerca de 1,18 milhão de hectares contabilizados pelo Programa Nacional de Reforma Agrária (PNRA) resultaram da regularização fundiária. Ou seja, posseiro que recebeu o título de posse da terra que já ocupava há anos. Apenas 205,4 mil hectares, ou 12,8% do total, resultaram de processos de desapropriação.
Acontece que a Constituição Federal prevê que devem ser desapropriadas terras que não cumpram sua função social, mas o governo Lula prefere comprar terras, para não criar problemas com os latifundiários. Hoje, é grande negócio ser amigo do presidente do Incra ou até mesmo do superintendente regional da autarquia... Livra-se de uma terra improdutiva e recebe-se um bom dinheiro para investir no mercado financeiro. Em 2004, cerca de R$ 1 bilhão do orçamento do Incra eram destinados à compra de terra. Para 2006, naquela famosa entrevista de 23 de janeiro, o ministro Rossetto disse que já estavam assegurados R$ 900 milhões do orçamento para a compra de terra, para assentar 55 mil famílias.
Lembra-se daquele Programa de Governo do PT? Ele dizia ainda: "O instrumento central de obtenção de terras para a Reforma Agrária será a desapropriação por interesse social, nos termos do que estabelece a Constituição Federal".
Promessas... Nos dois primeiros anos do governo Lula, segundo os dados oficiais, foram assentadas 117.555 famílias, das quais apenas 36.301 em 2003. O prometido era assentar naquele ano 60 mil.
Em novembro de 2003, o governo recebeu o projeto do segundo PNRA, que havia encomendado a uma equipe coordenada pelo ex-deputado federal petista Plínio de Arruda Sampaio. O projeto propunha o assentamento de 1 milhão de famílias até 2006. Para isso, o governo deveria desembolsar cerca de R$ 21 bilhões, dos quais R$ 13 bilhões representando créditos que poderiam voltar aos cofres da União. Lula engavetou-o, embora 1 milhão de famílias fosse um número até modesto, se comparado com a meta estipulada em 1985 pelo então presidente Sarney, ao lançar o primeiro PNRA. Sarney prometia assentar em cinco anos 1 milhão e 400 mil famílias. E assentou apenas 82 mil. Hoje um grande amigo de Lula -- e dos latifundiários --, o senador José Sarney pode tê-lo aconselhado a baixar sua meta. Mesmo porque o Incra foi criado em julho de 1970 pela ditadura militar, para fingir que faria uma reforma agrária, e 34 anos depois o número de famílias assentadas no país não passava de 423 mil.
Nessa questão da reforma agrária, só há alguma coisa bem-sucedida: o crescimento impressionante da estrutura burocrática e de pessoal do Ministério do Desenvolvimento Agrário e do Incra. As assessorias de imprensa dos dois órgãos plantam mais notícias na imprensa do que se planta feijão e arroz nos assentamentos do Incra. É fácil conferir na internet nos sites www.mda.gov.br e www.incra.gov.br.
Uma dessas notícias mais recentes é curiosa: a superintendência mineira do Incra doou no mês passado uma área de 44 hectares em Rio Paranaíba, no Triângulo Mineiro, a uma das mais ricas universidades brasileiras, a Universidade Federal de Viçosa, para construir ali, em cinco anos, um outro campus. Faz sentido...
Como parece fazer algum sentido a denúncia apresentada dia 11 deste mês pela Procuradoria da República no Distrito Federal contra o deputado Raul Jungmann e mais oito pessoas. São acusados de dar prejuízo de R$ 33 milhões ao Incra com contratos de publicidades ilegais firmados entre 1998 e 2002, quando Jungmann era ministro do Desenvolvimento Agrário. Ele classificou como estranha a denúncia, apontando como causa a disputa pela presidência da Câmara dos Deputados. Eu não acho estranha, até prova em contrário. Só acho que demorou. Entre os envolvidos, uma empresa mineira de publicidade, a Casablanca. Seu dono era proprietário da agência acusada de irregularidades no Governo Collor e que ficou mal no mercado. Mudou de nome...
Para enganar tanta gente durante tanto tempo, é preciso mesmo plantar notícias e pagar muito anúncio. Se o governo Lula quisesse resolver o problema, podia começar extinguindo o Ministério do Desenvolvimento Agrário -- que depois de Jungmann teve como titular o ex-vice-governador gaúcho Miguel Rossetto, do PT, que se desincompatibilizou para se candidatar a senador pela coligação PT/PCdoB e perdeu para Pedro Simon, do PMDB. Rossetto é um técnico em mecânica formado em Ciências Sociais e que pouco entende de desenvolvimento agrário. Antes de ser vice-governador, foi presidente de um sindicato de trabalhadores em empresas petroquímicas e elegeu-se, dois anos antes, deputado federal pelo PT.
Não faria mal se Lula acabasse também com o Incra, que não melhorou em nada desde que foi criado pelos militares, mas se agigantou. É uma máquina pesadona, que consome toda a energia que produz.
Feito isso, o governo Lula poderia retomar a experiência bem-sucedida de reforma agrária realizada em Goiás pelo governador Mauro Borges, a partir de 1961, e desmontada pelo regime militar três anos depois. O psicólogo Marcos Goursand de Araújo, que trabalhou naquele projeto, descreve-o em seu livro O que é isso, ex-companheiro Lula?, de que falo no meu último artigo neste blog. O projeto previa a construção de Combinados Agro-Urbanos (CAU). Cada CAU podia ter uma ou mais pequenas vilas chamadas de rurópolis, que eram o centro cooperativo, administrativo e econômico da colônia, contando com uma escola fundamental, um posto de saúde, uma capela e uma cooperativa.
A cooperativa fornecia insumos, ferramentas, financiava ou alugava equipamentos mais caros, como tratores, dando condições para que cada família pudesse trabalhar e produzir. A família era dona de sua produção, mas não da terra, cujo dono era o governo. Com isso, evitava-se um dos maiores problemas enfrentados pelo Incra -- a venda da terra pelos assentados para grandes empreendedores rurais ou para especuladores, voltando tudo à estaca zero. A cooperativa recebia e estocava a produção de cada agricultor, transportava-a e comercializava-a diretamente nas grandes cidades, sem intermediários e atravessadores. Lucravam o colono e o consumidor. Cada família devia cuidar sozinha de sua gleba. Não podia ter empregados. Em cada rurópolis, a Assembléia Geral, formada por todos os colonos adultos, era o órgão superior de decisão, cabendo-lhe eleger os administradores.
Simples assim. E funcionava. Tanto que os milicos acabaram com as rurópolis goianas, para não servirem de exemplo ao resto do país. Parecia-lhes coisa de comunista. E a Lula, o que lhe parecem as rurópolis?
Terça-feira, Janeiro 16, 2007 [ Fala aí: ]EMAIL
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A Guerra do Petróleo
O Tamos com Raiva foi criado no dia 20 de março de 2003, quando as primeiras bombas da invasão norte-americana no Iraque começaram a pipocar. Nossa raiva, naquele momento, era dessa guerra que -- já prevíamos -- mataria muito mais civis iraquianos que soldados dos Estados Unidos e aliados. E a indignação ficava maior quando nos deparávamos com o motivo da guerra: a multinacionalização dos riquíssimos poços de petróleo do Iraque, segundo maior produtor no mundo, perdendo apenas da Arábia Saudita. Bem, pelo menos era nisso que apostávamos, enquanto George W. Bush e seus comparsas insistiam em dizer que estavam defendendo os iraquianos de um ditador cruel e protegendo os americanos de terroristas sanguinários.
Agora sabemos que a teoria do petróleo está confirmada. Depois de uma guerra desigual, que arrasou vários civis, e depois do enforcamento recente de Saddam Hussein, o governo iraquiano -- formado por uma delegação de estrangeiros e militares chefiada pelos EUA -- prepara uma lei que vai trazer lucros imbatíveis às companhias de petróleo ocidentais -- Shell, Exxon e British Petroleum, principalmente. Essas empresas vão poder assinar contratos de 30 anos para explorar petróleo iraquiano, embolsando lucros de 75% (!!), no começo, que, mais tarde, passariam para 20% (valor ainda muito superior que a média). Depois que Saddam Hussein nacionalizou os poços iraquianos, em 1972, esta será a primeira vez que as multinacionais americanas e inglesas poderão explorar e lucrar naquele paraíso energético.
Para chegar a isso, precisaram manchar as mãos com muito sangue árabe. Segundo o Iraq Body Count, organização que vem contando, desde janeiro de 2003, o número de civis iraquianos mortos (dados que eles retiram de várias fontes confiáveis, uma vez que o governo norte-americano não tem interesse em divulgar dados oficiais), o número de corpos pode ter ultrapassado os 59 mil (número subestimado pela própria organização). Além disso, mais de 6 mil militares iraquianos devem ter morrido na "guerra". Enquanto isso, a GlobalSecurity estima que mais de 3 mil soldados norte-americanos morreram e 22.400 ficaram feridos. A discrepância pode ser ainda maior: estudos paralelos acreditam que cerca de 650 mil civis iraquianos tenham morrido nesses últimos quatro anos. Releiam o negrito.
Tudo pelos 30 anos de exploração, com 75% do lucro nas mãos dos invasores. "Valeu a pena", dirá George Bush.
O Tamos com Raiva também não se esquece das aulas de História. Elas mostraram que o país mais rico do mundo já matou mais de 1 milhão de vietnamitas e 58.193 soldados americanos na guerra de 1964 a 1975. Também matou cerca de 200 mil iraquianos em 1991, na Guerra do Golfo. Matou 1,2 milhão de afegãos e 15 mil soviéticos na Guerra do Afeganistão (não na última, mas naquela que assolou o país entre 1978 e 1992). E não esquecemos das vinte e três invasões que os Estados Unidos fizeram, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em países da Ásia (China, Coréia, Indonésia, Laos, Vietnã, Camboja, Iraque, Afeganistão...), África (Sudão, Congo...), Europa (Iugoslávia) e América (Guatemala, Nicarágua, El Salvador, Panamá, Peru, Cuba...). Foram bilhões de dólares gastos na indústria da guerra, contabilizando milhões de civis e soldados mortos e um resultado rentável para o governo norte-americano (senão eles não repetiriam as invasões com tanta freqüência, certo?).
Aliás, mais um país da América do Sul deve abrir os olhos: a Venezuela. Na mesma época em que os iraquianos preparam contratos bilionários para as multinacionais do petróleo, Hugo Chávez anuncia, de surpresa, a nacionalização da principal companhia de telecomunicações do país e da maior fornecedora de energia elétrica, ambas controladas pelos Estados Unidos. Também vai estatizar alguns dos principais projetos de exploração de petróleo e vai acabar com a autonomia do Banco Central da Venezuela. O resultado nós veremos nos próximos capítulos, mas podemos arriscar algumas previsões, com base na História: Hugo Chávez será deposto, ou assassinado (torcendo pela solução mais rápida e indolor), ou, na pior das hipóteses, veremos uma nova invasão dos americanos do norte, desta vez causando a morte dos nossos vizinhos do sul.
Domingo, Janeiro 14, 2007 [ Fala aí: ]EMAIL
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Um artigo para refletir e para nos incitar a conhecer a história política do México e a trajetória do Partido dos Trabalhadores. José de Castro não dá muitos exemplos ou referências, desta vez, como costuma fazer. É como se dissesse: "Leiam o livro O que é isso, ex-companheiro Lula? e tirem suas próprias conclusões!"
O que é isso, ex-companheiro Lula?
Já se disse que no Brasil há mais editoras do que livrarias. Provavelmente, há também mais escritores que leitores. Só em setembro de 2006 foram realizadas no país, segundo o site República do Livro, 197 noites de autógrafos. Feitas por autores que, depois de muita luta para ver seu livro publicado, tentam atrair leitores. A maioria acaba frustrada. Não sei se é o caso do psicólogo social mineiro Marcos Goursand de Araujo, que se formou em 1962 pela PUC Minas, doutorou-se pela PUC de São Paulo e fez pós-doutorado na Universidade da Califórnia. Ele é um dos que lançaram um livro em setembro. No dia 28, três dias antes das eleições.
Seu livro -- "O que é isso, ex-companheiro Lula?" -- não teve qualquer repercussão. Em nada contribuiu para jogar a eleição do presidente da República para o segundo turno. E mesmo então não deve ter tirado muitos votos de Lula. Afinal, não foi editado por nenhuma grande editora. É uma edição do autor, impresso numa gráfica do interior de Minas. Eu mesmo, um rato de livraria, só tomei conhecimento de sua existência nesta semana. O autor foi professor, entre outras, das universidades federais de Minas Gerais, Santa Catarina e Espírito Santo, participou da fundação do Conselho Federal de Psicologia e da reorganização do PSB, tendo sido seu vice-presidente em Minas em 1989, quando acompanhou Lula na primeira campanha dele à presidência da República, em vários comícios.
Se o tivesse lido antes, não teria escrito aqui um artigo declarando meu voto em Lula. Pois o livro refrescou minha memória para a traição do presidente e do seu partido ao eleitor. E descreve o caminho que o PT vai traçando para se transformar num partido hegemônico de direita, como fez o partido que governou o México por mais de 70 anos.
Uma vez alcançado o poder, alerta o autor, é um caminho fácil, largo, cheio de mordomias e vantagens pessoais, de bajuladores prontos a satisfazer quaisquer desejos. "O sentimento embriagador do poder impede de ver o ouvir os clamores populares, sufocados pelo canto das sereias de ocasião. O único projeto que se tem, é o de usufruir as benesses e vantagens do cargo, nele permanecendo o maior tempo possível. Ao deixá-lo, se isto for inevitável, a idéia é ter amealhado toda fortuna e prestígio possíveis. É o caminho preferido dos oportunistas, dos déspotas e dos tiranos como os genocidas Adolf Hitler, Joseph Stalin, Lyndon Johnson, George W. Bush, Saddam Hussein, Slobodan Milosevic, Ariel Sharon. Ou de políticos menores, de práticas mesquinhas, mas também compondo uma lista nefasta, como os médicis, collors, sarneys, fhcs e malufs da vida e que poderá vir a contar também com um lula. A história está repleta deles e para citá-los seriam precisos muitos livros deste".
Vou guardar o livro de Marcos Goursand de Araujo na minha estante. Quero voltar a ler suas 341 páginas daqui a quatro anos, antes das eleições presidenciais. Para reforçar minha decisão de não votar em nenhum -- mas nenhum mesmo! -- candidato do PT. Não quero para o Brasil uma "democracia" de partido dominante ou monopolista, como o PRI no México. Como lembrou Goursand, ao assumir o governo, o PT assumiu também a sua face autoritária. É exigida a subordinação não apenas dos integrantes dos ministérios e órgãos superiores do governo, mas até dos congressistas que deveriam se supor membros de um poder independente, o Legislativo. O espetáculo atual da eleição do novo presidente da Câmara dos Deputados mostra que essa tendência do PT foi reforçada.
É triste, mas é verdade: o PT é o novo inimigo dos democratas.
Sábado, Janeiro 13, 2007 [ Fala aí: ]EMAIL
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Se Aécio é votado o melhor governador do país quem, além dele próprio, sai ganhando? E, afinal, para quem ele é o melhor governador? Para a mídia mineira, que não conhece oposição? E, a propósito, quem forma essa mídia? Qual a relação dos donos da imprensa com os donos do poder? Como isso prejudica a democracia em geral? Essas e outras questões são levantadas neste excelente artigo de José de Castro, que interessa a jornalistas, mas também aos mineiros e, em breve, a todos os brasileiros que terão que escolher por votar ou não no Aécio Neves para presidente. Leiam e divulguem!
Aécio Neves, o melhor governador do país. Será?
"Entre os governos estaduais, Aécio Neves, de Minas Gerais, pela quarta vez consecutiva, foi considerado o melhor governador com uma aprovação de 95%. Para realizar a pesquisa, a Macroplan entrevistou 80 profissionais dos principais veículos em sete estados do País". Esta notícia, sob o título "Jornalistas avaliam o governo Lula", foi divulgada no dia 28 de dezembro último pelo Comunique-se, um site muito visitado por jornalistas brasileiros. No mesmo dia, escrevi ali este comentário:
"É triste ver, nessa notícia, a avaliação que fazem os jornalistas brasileiros do governo Aécio Neves. É desconhecer que ele governa sem oposição na Assembléia Legislativa e sem acompanhamento crítico de seu governo pela imprensa. Aécio descobriu uma forma barata de comprar a imprensa: ele põe alguns (não digo todos, porque é difícil provar) diretores de redação e editores de política e economia na folha de pagamento do governo. Um dos canais usados para isso, basta apurar para comprovar, é o gabinete do vice-governador. Mas há muitos outros, todos rendosos para os caciques dos principais órgãos de imprensa mineiros, que, aliás, se vendem barato. Antigamente, os governadores mineiros pisavam em ovos com o PT. Não é o que acontece hoje. O partido de Lula sente-se à vontade no Palácio da Liberdade, e nenhum outro tomou o seu lugar, como oposição. Assim, fica fácil... Mas acho que Tancredo se sentiria um pouco constrangido diante da desenvoltura dos netos no trato com a imprensa."
Esse comentário não mereceu maior atenção. Apenas o estudante Thiago Cândido estranhou a avaliação feita de Aécio Neves. Ele comentou: "Meu Deus, como pode? Bem disse a Catanhede na Falha de hoje: Os jornalistas estão se informando pela imprensa. E gostaria muito de uma pesquisa dessas aqui em Piratininga. Como será que os Coleguinhas avaliam Serra? E quanto tempo vai demorar pro Serra pedir a primeira cabeça nas redações?"
Sem se referir ao meu comentário, Talis Andrade, um importante jornalista aposentado de Pernambuco, escreveu no dia seguinte: "Não existe a profissão de jornalista. Existe o bico, o emprego temporário. Fica justificado o mota, o jabá. Idem as folhas dos governos estaduais e municipais. Jornalista deve lutar pelos mesmos direitos dos assessores de imprensa. Eles têm estabilidade no emprego, jornalista não. Eles têm promoções e gratificações por tempo de serviço, jornalista não. Eles têm aposentadoria de jornalista, jornalista não. O jabaculê é a sobrevivência de muita gente boa. Pago pelas agências de publicidade e assessorias de rp, de imprensa..."
Esta é uma velha discussão no Comunique-se. Talis Andrade e Delmar Marques estão entre seus principais fomentadores. Como também ganhou ali algum espaço, há uns três anos, a informação divulgada pelo Sindicato dos Jornalistas mineiros de que o governo de Minas pedira a um jornal a cabeça de um editor de economia, entre outros casos comentados entre os jornalistas.
Voltando de um breve descanso na Bahia, interessei-me de novo pelo assunto, ao saber que meu modesto comentário no Comunique-se tinha repercutido entre colegas.
Procurei então ler a pesquisa que apontava o neto de Tancredo Neves com elevado prestígio entre os jornalistas brasileiros. Descobri, em primeiro lugar, que a pesquisa foi feita pela Macroplan Prospectiva, Estratégia & Gestão, uma empresa fundada pelo economista Cláudio Porto e que tem como diretor associado José Paulo Silveira, um engenheiro metalúrgico que já foi secretário de Planejamento e Investimento Estratégico do Ministério do Planejamento e Gestão. A empresa tem sedes no Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo, emprega 41 consultores e tem entre seus clientes a Petrobrás, o Sebrae, diversos governos estaduais e instituições privadas. No seu site (www.macroplan.com.br), destaca-se uma notícia de 29 de dezembro último. Ela diz:
Governo de Minas inova na estratégia com apoio da Macroplan
Contratada pela segunda vez pelo Governo de Minas Gerais, para apoiar a formulação e a implementação da estratégia de desenvolvimento do governo estadual, a Macroplan concluiu, em dezembro de 2006, o projeto de apoio à elaboração do novo Plano Mineiro de Desenvolvimento Integrado do estado para o horizonte 2007-2023, que integra também estratégias de Governo no médio prazo (2007-2011). O projeto foi elaborado pela Macroplan em parceria com as equipes da Fundação João Pinheiro e da Secretaria de Planejamento e Gestão (Seplag) do Governo do Estado de Minas Gerais. "A parceria da equipe técnica da Seplag, liderada pelo subsecretário de Planejamento e Orçamento Tadeu Barreto, com a Macroplan levou a uma arquitetura estratégica inovadora e robusta, que supera as formulações genéricas que são comuns em formulações desta natureza", comentou o diretor presidente da Macroplan, Cláudio Porto.
(...) Outro ponto de destaque foi a realização de uma avaliação estratégica do desempenho do governo de Minas Gerais no período 2003-2006, abordando a estratégia implementada, a carteira de projetos estruturadores executada e o modelo de gerenciamento empregado. "Ao invés de recomeçar do zero, partiu-se da caminhada já feita para identificar o que estava indo bem e precisava ser mantido e também mapear o que teria que ser modificado e melhorado", afirmou Alexandre Mattos responsável pela coordenação executiva dos trabalhos da Macroplan.
Bem, não há dúvidas de que a Macroplan ficou muito feliz com a boa avaliação feita pelos jornalistas sobre um importante cliente -- e com sua divulgação pela imprensa. Mas, quais são esses jornalistas? O texto da pesquisa, intitulada "Por dentro dos que fazem a mídia: como estes profissionais avaliam o Brasil e seus governantes", esclarece que foram entrevistados apenas 80 jornalistas. São diretores editores de redação, colunistas, comentaristas de renome nacional ou regional e repórteres especiais "vinculados aos principais jornais do País, às redações dos principais emissores de TV, das revistas de conteúdo jornalístico de circulação nacional e dos núcleos de jornalismo das rádios de grande audiência". A grande maioria (65%) trabalha no Distrito Federal (20 entrevistados), São Paulo (16) e Rio de Janeiro (16). Há ainda 8 trabalhando no Rio Grande do Sul, 7 em Minas Gerais, 7 no Espírito Santo e 6 em Pernambuco.
Fica, portanto, prejudicada a generalização. Conforme admite a própria Macroplan, que já fez oito rodadas de entrevistas com jornalistas, desde 2003, "a composição da amostra seguiu critérios qualitativos e não estatísticos de representatividade". Para a empresa, no entanto, o resultado da pesquisa, apesar da amostra insuficiente, "indica, indiscutivelmente, as percepções, opiniões e expectativas daqueles profissionais mais influentes nos principais meios de comunicação do Brasil e de outros países que contribuem para informar e formar a opinião política da população".
A Macroplan pode acreditar no que afirma. E os jornalistas que responderam às suas perguntas devem supor que estão bem informados, pois lêem jornais, ouvem rádios e assistem TV. Tanto que se expõem a avaliar os governadores de Minas, Distrito Federal, São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Espírito Santo e Pernambuco, embora trabalhem distantes de muitos deles. O governador Aécio Neves teve aprovação quase absoluta (95%), enquanto 92% dos entrevistados consideraram o desempenho da ex-governadora Rosinha Garotinho ruim ou muito ruim.
Há aí um aspecto a ser considerado. Como disse naquele comentário no Comunique-se, Aécio não tem oposição política de peso e seu governo é tratado pela imprensa como um excelente governo, já que não se lê ou se ouve qualquer crítica a ele. E Rosinha Garotinho enfrentou, durante quatro anos, a marcação cerrada dos jornais, rádios e televisões do grupo fundado por Roberto Marinho.
Quando estimulados a falar livremente, 72% dos 78 entrevistados que se pronunciaram a respeito apontam Aécio Neves como o melhor governador do País, seguido, com grande distância, pelo governador Paulo Hartung (19%), do Espírito Santo. Apenas 1,3% se lembrou de apontar o governador reeleito do Paraná, Roberto Requião (PMDB). Requião havia sofrido, durante a campanha eleitoral, forte oposição da imprensa local, tanto que no discurso de posse, dia 1º de janeiro, ele se dedicou a criticar os barões da imprensa, apontando o risco, para a democracia, quando "apenas seis redes privadas controlam 667 veículos -- emissoras de TV, de Rádio e jornais diários -- atingindo 87% dos domicílios, em 98% dos municípios brasileiros".
Quando digo em meu comentário que Aécio Neves comprou a imprensa, não me refiro especificamente a colocar na folha de pagamento do governo, de forma clandestina ou não, diretores de redação ou editores. Tenho notícia de que isso pode ocorrer, mas não conheço sua extensão e nem tenho como provar. É uma suspeita baseada no resultado do trabalho que se produz em Minas no meio jornalístico. No mau jornalismo que temos, quando visto sob essa ótica de Roberto Requião: "Queremos uma comunicação de interesse público. Que estimule o debate. Que tenha compromisso com a formação, a educação e a construção da cidadania. Que democratize e produza instrumentos de socialização da informação".
Uma forma de comprar a imprensa é a destinação de verba publicitária do governo. Como comentou no Comunique-se o editor do Jornal Vanguarda, de Guanambi, na Bahia, Seu Pedro: governantes, quaisquer que sejam suas cores políticas, fazem dos anúncios moedas de troca. Exigem que só falem bem, não aceitam críticas.
Roberto Requião promete romper essa prática. Segundo a Agência Estado, ele determinou a redução, em 74%, do orçamento de publicidade. O da Secretaria de Comunicação caiu de R$ 14,8 milhões, em 2006, para R$ 3,8 milhões neste ano.
É uma boa forma de Aécio Neves provar que não está comprando a imprensa. Para os chefes de redação mineiros, existe uma excelente maneira -- muito melhor do que entrar na Justiça contra quem os critica -- de provar que não se venderam: é voltar a fazer o bom jornalismo que sabem fazer, como muitos provaram no passado, quando se empenhavam pelo fim da ditadura.
Para o bem da democracia e da própria imprensa, seria bom que nem Aécio nem os diretores de redação se empenhassem em confirmar o que disse o poderoso ministro das Comunicações no Governo Fernando Henrique Cardoso, Sérgio Motta: "A mídia come na mão se farto for o grão" (citado por Fábio José de Mello, no Comunique-se).
Domingo, Janeiro 07, 2007 [ Fala aí: ]EMAIL
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