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Deputados que mamam numa teta mais gorda




O deputado José Janene, do PP paranaense, vai desaparecer da vida política do Brasil. Mas, não se enganem: ele não foi cassado, como esperaríamos no final do ano passado. Nem sofreu um ataque cardíaco, como dois médicos -- camaradas do deputado -- confirmaram ser possível. Ele apenas conseguiu uma aposentadoria na Câmara dos Deputados, que vai lhe render, por mês, um ganho líquido de R$ 12.847,20. O valor mais alto entre as 13 aposentadorias de deputados que aconteceram apenas desde o dia 15 de janeiro deste ano.

Ele alegou ter sérios problemas cardíacos, atestados por três juntas médicas do próprio Congresso. Quem autorizou sua despedida foi Aldo Rebelo (PCdoB-SP), um dia antes de ceder a presidência da Câmara para Arlindo Chinaglia (PT-SP). Ou seja, Aldo também se despediu de seu trono fazendo uma boa ação.

Vale a pena a gente relembrar certas coisas sobre Janene, para tentar comprovar seu merecimento. A CPI do mensalão incluiu seu nome entre os 18 deputados acusados de participar do esquema do mensalão. Ele não apenas participou, mas foi acusado de ser um dos mandantes da quadrilha. E de receber R$ 4,1 MILHÕES no valerioduto. Custou a ser julgado pela CPI, porque vivia em licença médica. E, no dia do que seria sua cassação, foi beneficiado pela crise dos aeroportos, porque vários deputados chegaram atrasados ao Congresso e a sessão não teve quórum. Assim, foi absolvido, mesmo tendo recebido 210 votos a favor de sua cassação (o mínimo necessário seria de 254).

Além disso, no final do ano passado, o Ministério Público denunciou o deputado por crimes contra a ordem tributária. O MP descobriu irregularidades nas declarações de imposto de renda de Janene, entre 1996 e 1999. Sua dívida com os cofres públicos somaria R$ 5,7 milhões. O que pareceu irregular ao MP? O fato de muito dinheiro não ter sua origem comprovada. Realmente, é estranho o fato de, num espaço de dez dias, em dezembro de 2003, Janene e a mulher comprarem três carrões -- um Mitsubishi de R$ 83 mil, um Audi alemão A4 de R$ 173 mil e um Audi A3 no valor de R$ 65 mil. Esses, além dos outros dois que já tinha comprado no mesmo ano: a picape Chevrolet S10 Executive de R$ 74 mil e a picape Ford F-350 por R$ 48 mil. Mas não podemos nos esquecer da compra de 11 fazendas no curto período de dois anos, entre 2003 e 2004. Juntas, essas propriedades foram avaliadas em 7 milhões de reais. Nem com salário de deputado...

Talvez por isso 200 famílias do MST tenham escolhido justamente uma fazenda de Janene para ocupar desde setembro do ano passado. Mas se meteram com o cara errado! Em 16 de janeiro deste ano, o deputado contratou 30 pistoleiros para arrancar à força os sem-terra de sua fazenda. Sorte que ninguém ficou ferido, porque senão o deputado teria que acrescentar mais um processo à lista de 13 ações civis públicas que já enfrenta na justiça paranaense. Isso, além dos 11 inquéritos e uma ação penal em andamento no Supremo.

Realmente, José Janene merece ganhar a mais alta aposentadoria do Congresso, de R$ 12.847,20 por mês. Talvez assim nossa casa legisladora diminua seu índice de corrupção...

Agora, vamos aos outros 12 deputados que resolveram mamar com sossego nas tetas da União. Lembrando que, ao todo, os 13 recém-aposentados vão trazer um gasto de R$ 94 mil mensais à Câmara. São eles:

Alberto Goldman (PSDB-SP) - 26% do vencimento mais 11/35 do vencimento
Alceste Madeira de Almeida (PMDB-PR) - 26%
Alceu de Deus Collares (PDT-RS) - 39% mais 8/35
Benedito de Carvalho Sá (PSB-PI) - 26% mais 8/35
Chico Vigilante (PT-DF) - 26% dos vencimentos (IPC)
Iberê Paiva Ferreira de Souza (PSB-RN) - 52% (IPC) mais 12/35 (regra atual)
Jairo Carneiro (PFL-BA) - 39% mais 8/35
João Hermann Neto (PDT-SP) - 32,5% mais 8/35
José Janene (PP-PR) - vencimento integral (invalidez)
Nilton Gomes Oliveira (PP-ES) - 26% mais 8/35
Paulo Delgado (PT-MG) - 39% mais 8/35
Romel Anízio Jorge (PP-MG) - 26% mais 8/35
Silas Brasileiro (PMDB-MG) - 26% mais 8/35

Dos treze senhores acima, três são mineiros. Talvez o Estado de Aécio Neves crie condições naturais para a picaretagem. Paulo Delgado receberá R$ 7.946,90 mensais -- não consegui descobrir quanto, exatamente, os outros dois vão ganhar. Mas a regra é clara: se até 1997 os parlamentares deveriam ter 50 anos de idade e pelo menos 8 de contribuição para se aposentarem, hoje precisam ter pelo menos 60 anos de idade e 35 de contribuição. Só tem um detalhe: a maioria dos deputados que se aposentaram agora já tinha direitos adquiridos do antigo Instituto de Previdência dos Congressistas e deve receber proporcionalmente. No Estado de Minas de hoje: "Para fazer as contas da aposentadoria, a Câmara contou o tempo de contribuição dos deputados pelo regime antigo, do Instituto de Previdência dos Congressistas (IPC) e somou ainda a contribuição feita nas legislaturas mais recentes. Quem contribuiu, por exemplo, durante dois mandatos no regime antigo e mais dois mandatos no regime novo, terá aposentadoria de R$ 6.276,77 (R$ 3.340,27 pelas regras antigas e R$ 2.936,50 pelas regras atuais)."

É aí que chegamos aos 94 mil reais mensais gastos pela Câmara...

Só para fechar, por hoje: Juvenil Alves não só conseguiu ser diplomado deputado, como garantiu cadeira em duas comissões permanentes da Câmara (do Meio Ambiente e da Ciência e Tecnologia). E na última sexta-feira, largou a sigla do PT. Ele está sob investigação da Polícia Federal, que o indiciou por crimes fiscais, e da Justiça Eleitoral, por suspeita de formação de caixa dois na última eleição. E, daqui pouco tempo, poderá se aposentar tranqüilamente como deputado, saindo ileso, como todos os outros, no grande ralo de sujeira que existe em Brasília.

Definitivamente, aposentar pelo Instituto de Seguridade Social dos Congressistas (ISSC) é muito mais negócio que aposentar pelo Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS). Por causa de uma letra diferente na sigla, os beneficiados do Parlamento não têm que se recadastrar em até 30 dias, precisam contribuir por muito menos tempo e levam uma bolada muito maior...


Sexta-feira, Fevereiro 23, 2007 [ Fala aí: ]EMAIL

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Deputados que mamam numa teta mais gorda




O deputado José Janene, do PP paranaense, vai desaparecer da vida política do Brasil. Mas, não se enganem: ele não foi cassado, como esperaríamos no final do ano passado. Nem sofreu um ataque cardíaco, como dois médicos -- camaradas do deputado -- confirmaram ser possível. Ele apenas conseguiu uma aposentadoria na Câmara dos Deputados, que vai lhe render, por mês, um ganho líquido de R$ 12.847,20. O valor mais alto entre as 13 aposentadorias de deputados que aconteceram apenas desde o dia 15 de janeiro deste ano.

Ele alegou ter sérios problemas cardíacos, atestados por três juntas médicas do próprio Congresso. Quem autorizou sua despedida foi Aldo Rebelo (PCdoB-SP), um dia antes de ceder a presidência da Câmara para Arlindo Chinaglia (PT-SP). Ou seja, Aldo também se despediu de seu trono fazendo uma boa ação.

Vale a pena a gente relembrar certas coisas sobre Janene, para tentar comprovar seu merecimento. A CPI do mensalão incluiu seu nome entre os 18 deputados acusados de participar do esquema do mensalão. Ele não apenas participou, mas foi acusado de ser um dos mandantes da quadrilha. E de receber R$ 4,1 MILHÕES no valerioduto. Custou a ser julgado pela CPI, porque vivia em licença médica. E, no dia do que seria sua cassação, foi beneficiado pela crise dos aeroportos, porque vários deputados chegaram atrasados ao Congresso e a sessão não teve quórum. Assim, foi absolvido, mesmo tendo recebido 210 votos a favor de sua cassação (o mínimo necessário seria de 254).

Além disso, no final do ano passado, o Ministério Público denunciou o deputado por crimes contra a ordem tributária. Ou seja, o MP descobriu irregularidades nas declarações de imposto de renda de Janene, entre 1996 e 1999. Sua dívida com os cofres públicos somaria R$ 5,7 milhões. O que pareceu irregular ao MP? O fato de muito dinheiro não ter sua origem comprovada. Realmente, é estranho o fato de, num espaço de dez dias, em dezembro de 2003, Janene e a mulher comprarem três carrões -- um Mitsubishi de R$ 83 mil, um Audi alemão A4 de R$ 173 mil e um Audi A3 no valor de R$ 65 mil. Esses, além dos outros dois que já tinha comprado no mesmo ano: a picape Chevrolet S10 Executive de R$ 74 mil e a picape Ford F-350 por R$ 48 mil. Mas não podemos nos esquecer da compra de 11 fazendas no curto período de dois anos, entre 2003 e 2004. Juntas, essas propriedades foram avaliadas em 7 milhões de reais. Nem com salário de deputado...

Talvez por isso 200 famílias do MST tenham escolhido justamente uma fazenda de Janene para ocupar desde setembro do ano passado. Mas se meteram com o cara errado! Em 16 de janeiro deste ano, o deputado contratou 30 pistoleiros para arrancar à força dos sem-terra de sua fazenda. Sorte que ninguém ficou ferido, porque senão o deputado teria que acrescentar mais um processo à lista de 13 ações civis públicas que já enfrenta na justiça paranaense. Isso, além dos 11 inquéritos e uma ação peça em andamento no Supremo.

Realmente, José Janene merece ganhar a mais alta aposentadoria do Congresso, de R$ 12.847,20 por mês. Talvez assim nossa casa legisladora diminua seu índice de corrupção...

Agora, vamos aos outros 12 deputados que resolveram mamar com sossego nas tetas da União. Lembrando que, ao todo, os 13 recém-aposentados vão trazer um gasto de R$ 94 mil mensais à Câmara. São eles:

Alberto Goldman (PSDB-SP) - 26% do vencimento mais 11/35 do vencimento
Alceste Madeira de Almeida (PMDB-PR) - 26%
Alceu de Deus Collares (PDT-RS) - 39% mais 8/35
Benedito de Carvalho Sá (PSB-PI) - 26% mais 8/35
Chico Vigilante (PT-DF) - 26% dos vencimentos (IPC)
Iberê Paiva Ferreira de Souza (PSB-RN) - 52% (IPC) mais 12/35 (regra atual)
Jairo Carneiro (PFL-BA) - 39% mais 8/35
João Hermann Neto (PDT-SP) - 32,5% mais 8/35
José Janene (PP-PR) - vencimento integral (invalidez)
Nilton Gomes Oliveira (PP-ES) - 26% mais 8/35
Paulo Delgado (PT-MG) - 39% mais 8/35
Romel Anízio Jorge (PP-MG) - 26% mais 8/35
Silas Brasileiro (PMDB-MG) - 26% mais 8/35

Dos treze senhores acima, três são mineiros. Talvez o Estado de Aécio Neves crie condições naturais para a picaretagem. Paulo Delgado receberá R$ 7.946,90 mensais -- não consegui descobrir quanto, exatamente, os outros dois vão ganhar. Mas a regra é clara: se até 1997 os parlamentares deveriam ter 50 anos de idade e pelo menos 8 de contribuição para se aposentarem, hoje precisam ter pelo menos 60 anos de idade e 35 de contribuição. Só tem um detalhe: a maioria dos deputados que se aposentaram agora já tinha direitos adquiridos do antigo Instituto de Previdência dos Congressistas e deve receber proporcionalmente. No Estado de Minas de hoje: "Para fazer as contas da aposentadoria, a Câmara contou o tempo de contribuição dos deputados pelo regime antigo, do Instituto de Previdência dos Congressistas (IPC) e somou ainda a contribuição feita nas legislaturas mais recentes. Quem contribuiu, por exemplo, durante dois mandatos no regime antigo e mais dois mandatos no regime novo, terá aposentadoria de R$ 6.276,77 (R$ 3.340,27 pelas regras antigas e R$ 2.936,50 pelas regras atuais)."

É aí que chegamos aos 94 mil reais mensais gastos pela Câmara...

Só para fechar, por hoje: Juvenil Alves não só conseguiu ser diplomado deputado, como garantiu cadeira em duas comissões permanentes da Câmara (do Meio Ambiente e da Ciência e Tecnologia). E na última sexta-feira, ele largou a sigla do PT. Ele está sob investigação da Polícia Federal, que o indiciou por crimes fiscais, e da Justiça Eleitoral, por suspeita de formação de caixa dois na última eleição. E, daqui pouco tempo, poderá se aposentar tranqüilamente como deputado, saindo ileso, como todos os outros, no grande ralo de sujeito que existe em Brasília.

Definitivamente, aposentar pelo Instituto de Seguridade Social dos Congressistas (ISSC) é muito mais negócio que aposentar pelo Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS). Por causa de uma letra diferente na sigla, os beneficiados do Parlamento não têm que se recadastrar em até 30 dias, precisam contribuir por muito menos tempo e levam uma bolada muito maior...


Sexta-feira, Fevereiro 23, 2007 [ Fala aí: ]EMAIL

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Desta vez, José de Castro revelou um pouquinho da caixa preta do Judiciário para nós, reles mortais que não ganhamos 22 mil reais por mês. Ele mostra como muitos juízes se aproveitam do poder que têm para ganhar um por-fora, sem qualquer punição (nenhum dos investigados foi preso; o máximo que levaram foi uma "advertência"). Conclui com uma análise sobre os concursos públicos para juiz e promotor, que demonstram como o problema já começa pela raiz. Este é para ler mais de uma vez!



A propina do juiz




Li hoje, 12 de fevereiro, no Jornal do Brasil, reportagem de Daniel Pereira e do veterano Luiz Orlando Carneiro (ex-chefe da sucursal em Brasília nos anos 70), que começa assim: "Nem nepotismo nem teto salarial de desembargadores. A maior parte dos processos em curso no Conselho Nacional de Justiça (CNJ) envolve denúncia de desvio de conduta de juízes e demora na prestação do serviço à população. É o que mostra relatório das atividades da Corregedoria do CNJ no ano passado. Obtido com exclusividade pelo Jornal do Brasil, o texto abre a chamada caixa-preta do Judiciário para revelar e confirmar suspeitas de cobrança de propina, tráfico de influência e outras irregularidades".

Há pelo menos 27 anos estou à espera da abertura da caixa-preta do Judiciário. Minha atenção para o problema foi despertada em 1979, quando eu chefiava a redação da sucursal do JB em Minas. O culpado foi o técnico judiciário Ari Cezar Pimenta de Portilho que apresentou um pacote de denúncias contra juízes do Tribunal Regional do Trabalho de Minas Gerais (TRT-MG). Um dos acusados era o juiz classista Fábio de Araújo Motta, também presidente da Federação das Indústrias do Estado (Fiemg).

As denúncias eram sobre nepotismo. Um ex-presidente do tribunal tinha 18 parentes em cargos comissionados (que podem ser preenchidos sem concurso público). Era uma prática comum entre os juízes. O JB entrou fundo nessa história, solitariamente, durante mais de seis meses, até que a direção do tribunal fosse mudada.

Quando a situação ficava preta para Portilho, ele ameaçava ampliar suas denúncias, apresentando provas também de corrupções processuais. Faixa preta de judô e sem medo do perigo, ele nunca teve coragem, porém, de ir além do nepotismo.

Agora vem o JB, novamente, para revelar:

"No Tribunal de Justiça de Minas Gerais, por exemplo, um desembargador é acusado de receber uma caminhonete S-10 para influenciar o resultado de um processo em favor do Sindicato dos Empregados no Comércio de Belo Horizonte e Região Metropolitana. 'O detalhe do caso é que a suposta doação ficou registrada em ata do próprio sindicato', diz o relatório. Outro desembargador do TJ-MG está sob investigação por ter supostamente recebido R$ 60 mil para conceder uma liminar".

Veja: um sindicato de empregados oferece a um desembargador uma caminhonete que deve custar uns 60 mil reais. O que o desembargador cobraria de um sindicato de patrões? Ou da Federação das Indústrias? E o que esses estariam dispostos a pagar para comprar uma decisão de um desembargador?

Ao publicar as denúncias de Ary Portilho, o JB não ocultava os nomes dos denunciados. Bons tempos aqueles, do AI-5... Agora, diz o jornal, "a corregedoria não revela os nomes dos investigados, sob a alegação de que a informação tem caráter sigiloso, segundo a Lei Orgânica da Magistratura (Loman). Só pode vir a público depois de condenação definitiva, a ser aplicada pelos tribunais de Justiça ou o CNJ. Entre as penas previstas estão mera advertência verbal e aposentadoria compulsória dos magistrados -- mantidos os vencimentos. Segundo o corregedor nacional de Justiça, ministro Antônio de Pádua Ribeiro, a abertura de investigações está rendendo frutos".

De acordo com o relatório, 54% dos 2.808 processos encaminhados ao CNJ são reclamações disciplinares e representações por excesso de prazo. No primeiro grupo, está, por exemplo, o caso de uma juíza de Tocantins que, mesmo incompetente para analisar o processo, concedeu liminar ao autor da ação, assegurando-lhe o direito de recebimento de R$ 30,8 milhões. Para garantir o acerto de contas, a juíza determinou a apreensão de recursos da Eletrobrás e subsidiárias nos cofres do Banco do Brasil ou de qualquer outra instituição financeira localizada em território nacional. A suspeita é de que a juíza tenha recebido propina. Outra reclamação disciplinar envolve desembargador que pediu a juízes de primeira instância preferência para processos de um amigo dele. O desembargador depois atuou como relator dos recursos apresentados nos mesmos processos.

Segundo o corregedor Pádua Ribeiro, em Pernambuco, dois juízes foram presos e um foi afastado no início do ano, em razão de prática criminosa, envolvimento em negócios relativos a títulos podres.

No biênio 2004-2005, foram punidos, em todo o país, 82 magistrados, com advertência verbal (1), advertência por escrito (29), censuras (28), remoção compulsória (4), disponibilidade (7), aposentadoria compulsória (6), demissão (1) e afastamento (6). Note-se que nenhum juiz foi preso.

O relatório menciona também o primeiro caso de representação por excesso de prazo analisado pelo CNJ, que começou a funcionar em junho de 2005. O Conselho deu prazo de 30 dias para que o Tribunal de Justiça de Goiás indique um juiz para julgar ação que tramitava na comarca de Iaciara há 38 anos.

Como se sabe, uma das formas de corrupção é não julgar uma ação em que o corruptor não pode, de outro modo, escapar da condenação. O advogado tem prazo para recorrer de uma decisão e perde a ação por decurso de prazo, mas o juiz pode deixar o processo dormindo no cartório pelo tempo que quiser. Quando pressionado, alega acúmulo de serviço.

Espera-se que o corregedor nacional de Justiça saiba o que diz, quando declara ao JB: "Posso afirmar com segurança que hoje, no Judiciário brasileiro, não há mais impunidade ou imunidade de qualquer juiz sob o pálio do corporativismo. Não há mais vestais na Justiça do Brasil".

Veremos.

Por enquanto, o Judiciário continua sendo um problema, embora tenha passado por renovação em seus quadros. Salários acima de 10 mil reais, podendo ultrapassar os 22 mil, têm atraído jovens advogados que concorrem com milhares de outros em concursos públicos. Mas há problemas também nesses concursos, como apontou o promotor de Justiça de Estrela do Sul (MG), André Luís Alves de Melo, que tem um site na Internet (www.direitomoderno.com).

Segundo ele, criam-se cargos de juiz e promotor com base em número de processos em estoque, o que estimula produzir menos para acumular mais processos e abrir mais cargos. Se houvesse uma administração gerencial eficiente da Justiça, bastaria ter um juiz e um promotor para cada 40 mil habitantes, o dobro do que ocorre hoje, diz o promotor em artigo publicado em maio de 2001. E acrescenta:

"O preocupante é que muitos juristas que participam das decisões de manter o sistema atual e também de abrir novos concursos possuem filhos ou parentes fazendo concursos e, outros são donos de cursinhos para concursos jurídicos".

Mas o problema não pára aí:

"Estes concursos são conduzidos por pequenos grupos, sem uma transparência da forma de correção e dos critérios utilizados, raramente permitem que juizes e promotores participem da banca examinadora (99 % das vezes são apenas desembargadores e procuradores de justiça), apesar do concurso não ser para desembargador e procurador, e sim, para promotor e para juiz. Além disso, não prestam contas para a sociedade, não disponibilizam acesso público às provas. E muitos levam as provas para a casa para corrigir".

Não é tudo, adverte o zeloso promotor de Justiça:

"A prova de títulos, que deveria ter o condão de avaliar toda a vida do candidato e é exigência constitucional, é considerada apenas classificatória. E muitos são aprovados com nota zero na prova de títulos. Contudo, a Constituição não disse que a prova de títulos é uma prova de segunda classe, até a colocou juntamente com as demais formas de avaliação. Entretanto, enquanto não se edita uma lei regulando os concursos para juiz e promotor, quase tudo é possível, pois o poder do examinador é similar ao de Deus, não há limites objetivos. O poder do examinador é tanto que se torna impossível dizer que há corrupção (não significa que exista, mas já ocorreu no concurso para promotor em SP, em 2000), mas se ocorrer é quase impossível constatar, pois não há regras para a correção e nem transparência. Alguns concursos não informam nem o número de vagas no edital", critica Alves de Melo, que, passados seis anos, continua como promotor naquela humilde comarca do Triângulo Mineiro.

A mostrar que a situação da Justiça descrita por Alves de Melo não mudou, o jornal O Estado de S.Paulo, informa hoje:

"O Brasil conseguiu abocanhar mais um título para a sua extensa lista de conquistas negativas. Com cerca de 2 milhões de processos por ano, o País é campeão mundial em ações trabalhistas, segundo levantamento do sociólogo José Pastore, especialista em relações do trabalho há mais de 40 anos. Segundo ele, nos Estados Unidos o número de processos não passa de 75 mil; na França, 70 mil; e no Japão, 2,5 mil processos."

É uma justiça cara. Para cada 1 mil reais julgados, a Justiça do Trabalho gasta cerca de 1.300, calcula Pastore. Em 2005, foram pagos aos reclamantes R$ 7,19 bilhões e, em 2006, R$ 6,13 bilhões até setembro, segundo dados do Tribunal Superior do Trabalho. O TST informa ainda que o País tem 1.364 varas instaladas. Em 2005, para cada 100 mil brasileiros, 69 tinham ação no TST, 298 nos tribunais regionais e 1.050 nas varas trabalhistas. Cada magistrado recebeu 949 processos em média.

Para concluir, vale lembrar: quem paga toda essa estrutura jurídica e legal ineficiente é o cidadão. O governo só tem sido eficaz ao espremer, até o bagaço, o contribuinte. Informa hoje O Globo:

"Diante do pífio crescimento econômico dos últimos 12 anos, que não passou da média de 3%, a arrecadação de impostos federais pode ser considerada um fenômeno nesta pouco mais de uma década: a expansão real, já descontada a inflação pelo IPCA, foi de nada menos que 140,31%, segundo cálculos do tributarista Ilan Gorin. O período engloba os dois mandatos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995/1998 e 1999/2002) e o primeiro de Luiz Inácio Lula da Silva (2003/2006). Só no ano passado, os brasileiros pagaram R$ 397,611 bilhões em impostos, um recorde histórico.

Na avaliação de Gorin, esse cenário é basicamente reflexo de mudanças de legislação e de aumentos de alíquotas de impostos. A arrecadação cresceu a um ritmo de 7,57% ao ano entre 1995 e 2006, duas vezes e meia a velocidade de expansão média do Produto Interno Bruto (PIB, soma de todas as riquezas do país) no mesmo período. Embora ele reconheça que o crescimento da economia, do emprego e da renda também ajuda a elevar a arrecadação -- como o governo costuma discursar, para minimizar a constante elevação da carga tributária -- o desempenho econômico está longe de justificar a sanha arrecadatória do Fisco".

Um dos beneficiários dessa sanha é o Poder Judiciário, o que melhor paga aos funcionários públicos neste País.

Portanto, nem adianta pensar em se queixar ao juiz. Como o bispo anda desprestigiado, ou o cidadão faz a revolução pelo voto ou é bom ir pensando numa nova Inconfidência Mineira.

Uma que não leve Tiradentes à forca...

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Grifos meus

Segunda-feira, Fevereiro 12, 2007 [ Fala aí: ]EMAIL

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