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Caça a Dilma Roussef
Começou para valer a sucessão do presidente Lula e a temporada de caça à ministra Dilma Roussef, possível candidata petista à presidência da República em 2010, se até lá ela conseguir sobreviver. O primeiro ataque, desfechado por Veja – alguma surpresa? – teve suíte com um "furo" da Folha de S. Paulo no dia 28 de março e nova suíte da Veja neste fim de semana, dando início ao mesmo processo que acabou tirando do governo dois importantes ministros: José Dirceu e Antônio Palocci.
No mesmo dia 28, Kennedy Alencar, colunista da Folha Online, tratou de pôr mais água no moinho do "Dilmagate", como batizou a Folha o episódio. Diz ele que "a semelhança com o caseirogate é evidente. O poderoso Antonio Palocci Filho caiu do Ministério da Fazenda em março de 2006 porque houve o vazamento do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa. Palocci nega até hoje participação no vazamento".
Tem gente que vê cada semelhança!
No Observatório da Imprensa, o jornalista Luciano Martins Costa raciocina, em artigo divulgado naquele mesmo dia sobre o auê da Folha: "Mas aquilo que mais interessa ao leitor não está dito: a lista com alguns itens de gastos pode ser chamada de 'dossiê'? E qual é a verdadeira dimensão do acontecimento, se o propósito da CPI, afinal, é quebrar o sigilo sobre todas as despesas pessoais tanto deste governo como do governo anterior?".
Luciano acena com a possibilidade de tudo aquilo não passar de uma tempestade em copo d’água.
Aliás, foi essa minha opinião, no espaço de comentários daquele artigo: "Não há dúvida, é uma tempestade em copo d’água que logo estará esquecida. A ministra da Casa Civil teria que demitir a secretária-executiva se esta não tivesse tomado aquela iniciativa de levantar os gastos de cartões do governo anterior, se prevenindo para o que surgisse na CPI. Qualquer assessor político com um mínimo de competência teria feito isso, se adiantando aos fatos. É uma coisa tão corriqueira, que ela nem precisaria ter avisado à ministra sobre o que estava fazendo".
Vamos aguardar pelos próximos episódios.
Eles virão, não tenham dúvidas. Haverá requentamentos de matérias, outras serão inventadas e detalhes criados dando origem às mais estapafúrdias interpretações. Dilma Roussef tem uma biografia interessante, ainda pouco explorada e propícia a muitas divagações da imprensa e dos marqueteiros.
Mas não custa lembrar o que escreveu a Veja, em janeiro de 2003, quando Dilma Roussef era ministra das Minas e Energia e José Dirceu o ministro da Casa Civil. Título: "O cérebro do roubo ao cofre – Com passado pouco conhecido, a ministra envolveu-se em ações espetaculares da guerrilha". A reportagem assinada por Alexandre Oltramari diz que o governo Lula tem dois ex-guerrilheiros com posto de ministro de Estado. O texto é ilustrado com duas fotos do tempo em que ela foi presa, com a seguinte legenda: "A ficha nos arquivos militares de Dilma Rousseff, hoje ministra das Minas e Energia: só em 1969, ela organizou três ações de roubo de armamentos em unidades do Exército no Rio de Janeiro".
Não vou alongar, porque a reportagem está disponível no Google e a queda de José Dirceu é bem conhecida. E porque teremos nos próximos dois anos uma série de novas versões a respeito, se a pré-candidata sobreviver até lá. E ela é dura na queda, pois sobrevive ao conhecido processo de autofagia da esquerda brasileira com notável desempenho. De qualquer forma, não se surpreendam se, numa dessas reportagens, como fez a Veja recentemente com um guerrilheiro cubano famoso, lerem que Dilma fedia ao ser presa. Sem dúvida, ao ser torturada nos porões da polícia política, ela e nem ninguém cheirava bem.
O que importa é que Dilma Roussef não se envergonha de seu passado, ao contrário de muita gente na idade dela, e até já procurou reparações. Em dezembro de 2006, a Comissão Especial de Reparação da Secretaria de Direitos Humanos do Estado do Rio de Janeiro aprovou seu pedido de concessão de reparação moral. Reproduzo aqui trechos de artigo de Jorge Serrão no blog Alerta Total, de 20 de dezembro de 2006: (http://alertatotal.blogspot.com/2006/12/dilma-rousseff-guerrilheira-aposentada.html )
Dilma faz parte do folclore da luta armada. A guerrilheira organização marxista VAR-Palmares – e que já foi brizolista no passado – teria participado do assalto à casa de uma amante do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros. Do cofre da residência, foram roubados US$ 2 milhões e 400 mil dólares. Dilma alega que ajudou no planejamento. Mas a guerrilheira aposentada garante não participou da ação. Por coincidência, sua reparação saiu no dia 14 de dezembro, data de seu aniversário de 59 anos.
Dilma, que é autora do livro "Mulheres que foram à luta armada" (1998) foi beneficiada pelo depoimento de uma companheira de guerrilha. Vânia Amoretty Abrantes relatou que foi transferida com ela, no mesmo camburão, de uma prisão em São Paulo para o Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), sediado no quartel da Polícia Especial do Exército, na Rua Barão de Mesquita, no Rio de Janeiro. Apenas por coincidência, Vânia Amoretty é diretora do Grupo Tortura Nunca Mais. Em nome da ONG, Vânia acompanha os trabalhos da Comissão Especial de Reparação.
Ano passado, Dilma fez lobby e recebeu a medalha do Mérito da Ordem Militar – o que irritou oficiais da ativa e da reserva das Forças Armadas contra as quais a guerrilheira Estela (seu principal codinome) lutou nos tempos da guerrilha urbana. Agora, essa "reparação moral" à Dilma vai gerar novas polêmicas. Até porque Dilma será a mulher forte do novo governo Lula. Atual presidente do Conselho de Administração da Petrobrás, Dilma será a responsável por tocar os projetos bilionários de desenvolvimento que irão destravar o País", prometidos pelo presidente reeleito.
Até agora, a direita e a linha dura das Forças Armadas não têm criado grandes problemas à ex-guerrilheira. Como pré-candidata, talvez a coisa mude. Sobretudo, se tiver como concorrente José Serra, um ex-presidente da UNE, e que sabe jogar um jogo político da pesada.
Vai ser interessante acompanhar esse jogo bruto da política brasileira, mesmo sabendo que vamos nos irritar profundamente em muitos momentos da partida.
Muito mais interessante será se, com Dilma Roussef, tivermos pela primeira vez uma mulher na presidência da República.
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Segunda-feira, Março 31, 2008 [
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Caça a Dilma Roussef
Começou para valer a sucessão do presidente Lula e a temporada de caça à ministra Dilma Roussef, possível candidata petista à presidência da República em 2010, se até lá ela conseguir sobreviver. O primeiro ataque, desfechado por Veja – alguma surpresa? – teve suíte com um "furo" da Folha de S. Paulo no dia 28 de março e nova suíte da Veja neste fim de semana, dando início ao mesmo processo que acabou tirando do governo dois importantes ministros: José Dirceu e Antônio Palocci.
No mesmo dia 28, Kennedy Alencar, colunista da Folha Online, tratou de pôr mais água no moinho do "Dilmagate", como batizou a Folha o episódio. Diz ele que "a semelhança com o caseirogate é evidente. O poderoso Antonio Palocci Filho caiu do Ministério da Fazenda em março de 2006 porque houve o vazamento do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa. Palocci nega até hoje participação no vazamento".
Tem gente que vê cada semelhança!
No Observatório da Imprensa, o jornalista Luciano Martins Costa raciocina, em artigo divulgado naquele mesmo dia sobre o auê da Folha: "Mas aquilo que mais interessa ao leitor não está dito: a lista com alguns itens de gastos pode ser chamada de 'dossiê'? E qual é a verdadeira dimensão do acontecimento, se o propósito da CPI, afinal, é quebrar o sigilo sobre todas as despesas pessoais tanto deste governo como do governo anterior?".
Luciano acena com a possibilidade de tudo aquilo não passar de uma tempestade em copo d’água.
Aliás, foi essa minha opinião, na sessão de comentários do OI: "Não há dúvida, é uma tempestade em copo d’água que logo estará esquecida. A ministra da Casa Civil teria que demitir a secretária-executiva se esta não tivesse tomado aquela iniciativa de levantar os gastos de cartões do governo anterior, se prevenindo para o que surgisse na CPI. Qualquer assessor político com um mínimo de competência teria feito isso, se adiantando aos fatos. É uma coisa tão corriqueira, que ela nem precisaria ter avisado à ministra sobre o que estava fazendo".
Vamos aguardar pelos próximos episódios.
Eles virão, não tenham dúvidas. Haverá requentamentos de matérias, outras serão inventadas e detalhes criados dando origem às mais estapafúrdias interpretações. Dilma Roussef tem uma biografia interessante, ainda pouco explorada e propícia a muitas divagações da imprensa e dos marqueteiros.
Mas não custa lembrar o que escreveu a Veja, em janeiro de 2003, quando Dilma Roussef era ministra das Minas e Energia e José Dirceu o ministro da Casa Civil. Título: "O cérebro do roubo ao cofre – Com passado pouco conhecido, a ministra envolveu-se em ações espetaculares da guerrilha". A reportagem assinada por Alexandre Oltramari diz que o governo Lula tem dois ex-guerrilheiros com posto de ministro de Estado. O texto é ilustrado com duas fotos do tempo em que ela foi presa, com a seguinte legenda: "A ficha nos arquivos militares de Dilma Rousseff, hoje ministra das Minas e Energia: só em 1969, ela organizou três ações de roubo de armamentos em unidades do Exército no Rio de Janeiro".
Não vou alongar, porque a reportagem está disponível no Google e a queda de José Dirceu é bem conhecida. E porque teremos nos próximos dois anos uma série de novas versões a respeito, se a pré-candidata sobreviver até lá. E ela é dura na queda, pois sobrevive ao conhecido processo de autofagia da esquerda brasileira com notável desempenho. De qualquer forma, não se surpreendam se, numa dessas reportagens, como fez a Veja recentemente com um guerrilheiro cubano famoso, lerem que Dilma fedia ao ser presa. Sem dúvida, ao ser torturada nos porões da polícia política, ela e nem ninguém cheirava bem.
O que importa é que Dilma Roussef não se envergonha de seu passado, ao contrário de muita gente na idade dela, e até já procurou reparações. Em dezembro de 2006, a Comissão Especial de Reparação da Secretaria de Direitos Humanos do Estado do Rio de Janeiro aprovou seu pedido de concessão de reparação moral. Reproduzo aqui trechos de artigo de Jorge Serrão no blog Alerta Total, de 20 de dezembro de 2006: (http://alertatotal.blogspot.com/2006/12/dilma-rousseff-guerrilheira-aposentada.html )
Dilma faz parte do folclore da luta armada. A guerrilheira organização marxista VAR-Palmares – e que já foi brizolista no passado – teria participado do assalto à casa de uma amante do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros. Do cofre da residência, foram roubados US$ 2 milhões e 400 mil dólares. Dilma alega que ajudou no planejamento. Mas a guerrilheira aposentada garante não participou da ação. Por coincidência, sua reparação saiu no dia 14 de dezembro, data de seu aniversário de 59 anos.
Dilma, que é autora do livro "Mulheres que foram à luta armada" (1998) foi beneficiada pelo depoimento de uma companheira de guerrilha. Vânia Amoretty Abrantes relatou que foi transferida com ela, no mesmo camburão, de uma prisão em São Paulo para o Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), sediado no quartel da Polícia Especial do Exército, na Rua Barão de Mesquita, no Rio de Janeiro. Apenas por coincidência, Vânia Amoretty é diretora do Grupo Tortura Nunca Mais. Em nome da ONG, Vânia acompanha os trabalhos da Comissão Especial de Reparação.
Ano passado, Dilma fez lobby e recebeu a medalha do Mérito da Ordem Militar – o que irritou oficiais da ativa e da reserva das Forças Armadas contra as quais a guerrilheira Estela (seu principal codinome) lutou nos tempos da guerrilha urbana. Agora, essa "reparação moral" à Dilma vai gerar novas polêmicas. Até porque Dilma será a mulher forte do novo governo Lula. Atual presidente do Conselho de Administração da Petrobrás, Dilma será a responsável por tocar os projetos bilionários de desenvolvimento que irão destravar o País", prometidos pelo presidente reeleito.
Até agora, a direita e a linha dura das Forças Armadas não têm criado grandes problemas à ex-guerrilheira. Como pré-candidata, talvez a coisa mude. Sobretudo, se tiver como concorrente José Serra, um ex-presidente da UNE, e que sabe jogar um jogo político da pesada.
Vai ser interessante acompanhar esse jogo bruto da política brasileira, mesmo sabendo que vamos nos irritar profundamente em muitos momentos da partida.
Muito mais interessante será se, com Dilma Roussef, tivermos pela primeira vez uma mulher na presidência da República.
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Segunda-feira, Março 31, 2008 [
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Fiquei puto com esse Chinaglia!
Nesta segunda-feira, 24 de março, o presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia (PT-SP), me deu um bom motivo pra ficar com raiva. Ele defendeu o gasto de R$ 29,5 milhões para reformar 96 apartamentos funcionais. Moradia de deputados em Brasília, paga por nós, os contribuintes.
Cada reforma custará em média mais de 307 mil reais. Trabalhei a vida toda, com a valiosa ajuda de minha mulher, uma psicóloga e funcionária pública, para comprar o apartamento onde moramos – e que nos custou pouco mais da metade desse valor que o nobre deputado petista quer pagar para uma simples reforma.
Não é a primeira vez que Chinaglia me dá raiva.
Ele era líder do governo, em novembro de 2006, e aprovou o aumento de 90,7% nos salários de deputados e senadores, o que provocou um efeito cascata em todas as assembléias legislativas e câmara de vereadores do país, esmagando ainda mais o pobre contribuinte. Chinaglia foi um dos 20 deputados federais e seis senadores que aprovaram aquela proposta, acompanhando os votos dos presidentes da Câmara, Aldo Rebelo (PCdoB-SP), e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), de triste memória.
Mas Chinaglia não se satisfaz com a reforma de apenas 96 apartamentos, licitada em 2007, por aquele valor assombroso. Ao todo, são 18 blocos de apartamentos, e aqueles ficam em apenas quatro blocos. O presidente da Câmara quer reformar todos eles, alegando que os apartamentos pertencem ao patrimônio público e precisam ser reformados porque estão se deteriorando.
Não passa pela nobre cabeça a idéia de vender todos eles, para que os deputados paguem os aluguéis, como qualquer pobre funcionário público ou humilde trabalhador deste país. Quando eles lutavam por reajustar seus salários em mais de 90%, para igualá-los aos dos ministros do Supremo Tribunal Federal, o então ministro do Trabalho Luiz Marinho (ex-presidente da Central Única dos Trabalhadores), defendia um reajuste do salário mínimo de acordo com o índice inflacionário, alegando que era impossível dar um aumento de 70 reais como reivindicavam as centrais sindicais na época.
Quem ganha um salário mínimo paga aluguel, porque não recebe o suficiente para comprar a casa-própria. Um deputado, coitado, precisa morar em imóvel do governo, embora cada um desses deputados custe ao contribuinte mais de R$ 92 mil por mês. Além do salário-base de 24,5 mil reais, cada deputado recebia, em fins de 2006, auxílio-moradia de 3 mil, verba indenizatória de 15 mil (uma invenção do então presidente da Câmara dos Deputados Aécio Neves, em agradecimento aos colegas por sua eleição), verba de gabinete de 50,9 mil, cota postal e telefônica de 4,2 mil e quatro passagens de avião, ida e volta, para seus estados. Tudo isso, mensalmente.
E essa farra com dinheiro público não se limita à Câmara dos Deputados e ao Senado. Na Assembléia estadual de São Paulo, segundo O Globo de 23 de novembro passado, o deputado ganha salário-base de 12.384 reais, uma verba de gabinete de 17,7 mil reais, um auxílio-moradia de 2.250 reais. Ele pode contratar como quiser 15 funcionários, alugar um escritório por até 10,8 mil por mês, pagos pelos contribuintes. Tem carro oficial à disposição 24 horas por dia, inclusive nas férias, e recebe 24,7 mil reais por ano para comprar roupas, entre outras mordomias.
Em Minas, não é diferente, como não é em qualquer outro estado. Cada um dos 77 deputados estaduais mineiros custa ao contribuinte 700 mil reais por ano, ainda de acordo com aquela reportagem de O Globo. Como só trabalham 12 dias por mês, de terça a quinta-feira, um deputado custa 4 mil reais por dia trabalhado. Como ele trabalha ordinariamente pouco, a Assembléia realiza todo mês oito reuniões extraordinárias e cada deputado embolsa mais 620 reais por reunião. Além disso, mesmo se tiver residência em Belo Horizonte, ele recebe 2.250 reais de auxílio-moradia por mês, mais 7 mil por ano para passagens aéreas e auxílio-paletó.
Ele precisa disso tudo, é claro, porque o salário-base é de apenas 12,3 mil reais, ou quase 30 salários mínimos.
Acho que Millôr tem razão. Político – seja ele um Chinaglia do PT, um Calheiros do PMDB, um Maia do PFL, um Rebelo do PCdoB, um Miro Teixeira do PDT, um Luciano Castro do PL, um Monteiro do PTB (todos eles votaram pelo reajuste de seus próprios salários em 2006) – pensa em si em primeiro lugar, depois nos parentes, em seguida nos amigos e, se sobrar tempo, na população.
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Terça-feira, Março 25, 2008 [
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Ressurreição: o que nos deveriam ensinar os Evangelhos
Um dos melhores achados do cristianismo, se não me engano, é a idéia da ressurreição, em que a vida conquista a morte.
Mas há um problema, que descubro agora ao ler "Matadouro 5", de Kurt Vonnegut, escrito em 1969, em plena Guerra do Vietnã. É que antes de Jesus ressuscitar, ele morreu na cruz. Tudo bem – ou tudo mal, melhor dizendo. A questão é a seguinte: os Evangelhos nos ensinam a sermos misericordiosos (até mesmo com os ladrões – o que inclui os "anões do orçamento"), mas, diz Vonnegut, na verdade, eles ensinam que, antes de matar alguém, é preciso ter certeza absoluta de que ele não é bem relacionado.
Ou seja, no caso de Jesus, filho do mais poderoso ser do universo, é óbvio que eles pegaram o cara errado pra linchar.
A lição, portanto, é essa: antes de crucificar alguém, é preciso saber com certeza de quem ele é filho.
Segundo o autor, aprenderíamos melhor a lição, se Jesus fosse realmente um qualquer que ficasse por aí pregando aquelas mesmas coisas que o outro dizia e que, um dia, as pessoas o pegassem e o pregassem na cruz para se divertir.
E então, pouco antes de aquele qualquer morrer, os céus se abririam. E haveria raios e trovões, os mortos sairiam de suas sepulturas, e a voz de Deus retumbaria no firmamento, dizendo que estava adotando aquele Zé Ninguém como seu filho e que, daquele momento em diante, puniria terrivelmente qualquer um que atormentasse um vagabundo sem boas relações...
Se tivesse sido assim, pensa Vonnegut – e eu também, pobre de mim –, os cristãos não achariam tão simples serem cruéis, como o foram ao longo da história e como Bush, um político apoiado pelos cristãos mais empedernidos dos Estados Unidos, está sendo agora, ao invadir o Iraque e o Afeganistão e ao ameaçar Chávez com o fogo dos infernos.
Quando Vonnegut escreveu aquilo, ele tinha em mente o bombardeio de Dresden, capital do estado alemão da Saxônia, às margens do Rio Elba. O bombardeio feito pela força aérea americana ocorreu na primavera de 1945 e destruiu completamente a cidade, matando seus 135 mil moradores. Foi a maior tragédia da Segunda Guerra Mundial. Para comparar, a bomba atômica sobre Hiroshima matou 71.379 pessoas...
Quem autorizou aquela barbaridade foi o presidente Harry S. Truman, um cristão fervoroso. Ele era vice-presidente de Franklin D. Roosevelt, que morreu antes de completar três meses do seu quarto mandato. O piedoso Truman também autorizou o bombardeio sobre Hiroshima e Nagasaki. Morreu em 1972 e hoje é considerado um dos dez melhores presidentes da história dos Estados Unidos. (Espero que o mesmo nunca ocorra com Bush, pai e filho!) Era um grande inimigo dos comunistas, tendo permitido a caçada do FBI contra escritores, cineastas e artistas de Hollywood no começo da década de 50.
Truman não faz o meu tipo.
Pensando nisso, torço para que o presidente Lula não morra até o fim de 2010. Não sei o que poderá acontecer se o vice-presidente José Alencar virar presidente. Nada nada, ele é do mesmo partido do bispo Edir Macedo, um cristão tão bom (leia-se o artigo anterior a este no Tamos com Raiva) como Bush e... Truman!
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Domingo, Março 23, 2008 [
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Por que ainda TAMOS COM RAIVACinco anos de blog
Lá se foram cinco anos – voando, para nosso pesar – e a Guerra do Iraque continua. Do dia em que os primeiros mísseis norte-americanos estupraram a noite de Bagdá até este 20 de março de 2008, quase 90 mil CIVIS e mais de 6 mil militares iraquianos foram mortos. Esse número ainda é baixo, se comparado às estimativas da Organização Mundial de Saúde, que contou até 223 mil mortos. Por que ainda tamos com raiva: 223 mil civis encurralados numa guerra que não era deles e massacrados.
Só ontem, um avião dos Estados Unidos bombardeou um carro em que viajavam seis civis iraquianos, segundo a polícia local. Segundo o porta-voz de Bush, seriam quatro "terroristas". Por que ainda tamos com raiva: os seis civis iraquianos são sempre quatro terroristas de Bush.
Embora pelo menos 4 mil soldados americanos tenham morrido em combate, o governo tenha gastado mais de 700 bilhões de dólares (ou US$ 3 trilhões, segundo o Nobel de economia Joseph Stiglitz) e 66% dos norte-americanos sejam contra a guerra-sem-fim, Bush fez um balanço positivo da invasão e teve a cara-de-pau de dizer o seguinte: "Ninguém pode discutir que esta guerra teve um alto custo em vidas e em dinheiro, mas estes custos eram necessários quando consideramos o custo que teria a vitória de nossos inimigos no Iraque". E ainda: "O sucesso que estamos vendo no Iraque é inegável". Por que ainda tamos com raiva: porque George Walker Bush ainda mente. Como um poema de Drummond, mente mente mente desesperadamente.
Há quem ainda se lembre que Bush e seus comparsas fizeram pelo menos 935 declarações falsas para justificar a "guerra contra o terror" após o 11 de setembro. Não fui eu quem disse, foi o Centro pela Integridade Pública, ONG dos Estados Unidos, que não só detectou as mentiras, como documentou em vídeo e texto. Mente mente mente, desesperadamente.
Quanto ao fato de (só) dois terços dos norte-americanos estarem contra a guerra, não deve ser difícil de entender o porquê. O livro "Cartas da Zona de Guerra", do Michael Moore, reuniu cartas de soldados conterrâneos em batalha no Iraque, que já tinham lutado lá ou que estavam a caminho. Trechos:
"O fato de o povo iraquiano tem de sofrer baixas incontáveis, a fim de se decidir essa antiga rixa de sangue, continua alimentando o ressentimento entre os árabes locais. Bush desencadeou uma tormenta na sociedade ocidental, que rapidamente nos tragou, e contra a qual, nós (e nossos filhos) teremos de lutar por décadas no futuro." (Rick Bauer)
"Quando a guerra foi declarada, os Estados Unidos pareceram desumanizar o povo iraquiano, tornando todos inimigos. Um perfeito exemplo disso foi usar o AAFES [Arm andA ir Force Exchange Service – associação que atende o exército e a força aérea em lojas instaladas em bases militares] (o equivalente a um Wal-Mart) como uma máquina de propaganda para imprimir camisetas e canecos de café ridicularizando o Iraque. O tempo que passei no Iraque me ensinou um pouco sobre o povo iraquiano e a condição desse país dilacerado pela guerra e assolado pela fome. (...) Foi então que me dei conta de que essa guerra foi iniciada pelos poucos que lucrariam com ela, e não pelo seu povo; nós, como as Forças de Coalizão, não libertamos esse povo; nós o mergulhamos ainda mais na pobreza." (Kyle Waldman)
"Um prestador de serviços da Blackwater [empresa de segurança que atua no Iraque] ganha US$ 15 mil por mês para executar o mesmo trabalho que eu e meus colegas realizamos. Eu ganho aqui cerca de US$ 4 mil por mês. Qual é? Além disso, o governo está convocando cada vez mais tropas da reserva. Para quê? Cara, está havendo uma puta trapaça por aqui! Há empreiteiras fervilhando por todo esse país. Blackwater, Kellogg Brown and Root, Halliburton e assim por diante. Essas empreiteiras estão fazendo tudo o que você pode imaginar, desde segurança a fornecimento de refeições. (...) Estão coçando as costas de alguém por aqui e não são dos iraquianos!" (Michael W.)
"É duro ouvir um sargento do meu pelotão dizer: 'Se vocês decidirem que querem matar um civil de aparência ameaçadora, atirem nele. Prefiro preencher uma papelada do que ter um dos meus soldados morto por um cara de turbante'." (Willy)
"Sou motorista de caminhão da KBR [Kellogg Brown and Root] atualmente no Iraque (...) Desde que comecei neste emprego, vários meses atrás, 100% (isso mesmo, e não 99%) dos operários que conheço estão inflacionando o tempo que declaram em suas planilhas de horas de serviço. Há muito mais que eu poderia lhe contar. Mas o fato é que MILHÕES e MILHÕES de dólares estão sendo saqueados dos contribuintes norte-americanos e do povo iraquiano, por causa do inacreditável nível de ganância e corrupção que há por aqui" (Anônimo)
"Bush vive falando que outros países, além do Iraque e do Afeganistão, são um problema para a segurança, e então penso: 'Dois não são o suficiente? Você está disposto a destruir a minha vida e as de milhares de outros simplesmente por causa de um capricho?'" (Anthony Pietsch)
"Vi mais do que um punhado de crianças mortas entulhando as ruas em Nasíria, juntamente com outras incontáveis vítimas civis. (...) Bush é um filho da puta mentiroso e manipulador que não liga a mínima para as vidas daqueles de nós que servimos à farda. (...) O Ato Patriota viola todos os princípios pelos quais lutamos e morremos. (...) Mentiram para nós e fomos usados." (Sean Huze)
"A Declaração da Independência afirma que 'a fim de assegurar esses direitos, governos são instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes de consentimento dos governados'. Eu diria a elas que o povo do Iraque não deu consentimento ao governo provisório norte-americano (...). O governo norte-americano jamais assegurou os direitos dos iraquianos à vida, à liberdade e à busca da felicidade. Quantos inocentes morrem por causa de nossos ataques aos terroristas? (...) Eu sei. Eu estive lá." (Keith Pilkington)
Esses oito soldados estiveram lá. E relataram, com vários outros (que descreveram cenas e situações muito mais escabrosas que as que selecionei), como a guerra desrespeitou os civis iraquianos, os soldados americanos, foi fonte de um poço de corrupção e responsável pela insurreição de vários povos contra os Estados Unidos, que levaram uma guerra de "poucas semanas" (como garantia Donald Rumsfeld há cinco anos) a se tornar um conflito sem data para terminar.
Enquanto os jornais mal se lembram da guerra e apenas retomam o assunto neste 20 de março, o Tamos com Raiva não se acostuma. Temos motivos saindo pelo ladrão para estar com raiva há cinco anos. E continuaremos a ter, dependendo do candidato que vencer as eleições de 4 de novembro deste ano. São cinco anos também de existência deste blog, que marca seu aniversário com a mesma data macabra, marcada a sangue e mentiras.
* Leia a Prece-poema para o soldado americano.
* Leia o post "A Guerra do Petróleo".
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Ilustração: Latuff (NovaE).
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Quinta-feira, Março 20, 2008 [
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Tentativa de assassinato de um blog
Parei de fazer comentários no Comunique-se quando censuraram três deles, sem uma explicação razoável. E foi lá, ontem à noite, que soube que o IG havia tirado do ar, sem maiores justificativas, o blog Conversa Afiada (do jornalista Paulo Henrique Amorim, que foi meu chefe no Jornal do Brasil há quase 30 anos). Esperei para hoje a repercussão desse ato, que à primeira vista me pareceu um negócio da China. Não é lá que censuram blogs?
Estou ainda esperando uma reação do Observatório da Imprensa, que se limitou até agora, apesar de cobranças de comentaristas, a apenas reproduzir, na seção Entre Aspas, a notícia do Comunique-se (retirando, portanto, a castanha quente do fogo com mão de gato). Essa notícia, assinada por Carla Soares Martin e Miriam Abreu, afirma que "não é possível mais acessar a página que Paulo Henrique Amorim mantinha no iG". Acrescenta que o Portal rescindiu o contrato que terminaria dia 31 de dezembro e que PHA será indenizado. Afirma também que a baixa audiência e a receita não compensavam os gastos. O dono do blog informou que o assunto seria tratado por seus advogados.
Espanto! Dos 50 comentários postados até as 15h03 de hoje embaixo da notícia no Comunique-se, apenas 23 condenavam a atitude do IG. O primeiro comentário foi este, da freelancer Gervilma Meira Santos, postado às 19h11 de ontem: "IH, AGORA O PEQUENO VAI VIRAR HERÓI dos petralhas. vai dizer que censurado, vai ganhar mais pontos no governo, vai ser até estáuta (sic) em santo antão do pé de couve. ph é um ser humano tão triste, tão triste, que eu choro por ele. coitado, mas já vai tarde. next: nassif".
Depois desse, o nível não melhorou muito, com as exceções de sempre.
Lavou-me a alma, porém, ao ler o blog do jornalista Luiz Carlos Azenha e descobrir que o jornalista Mino Carta, proprietário da revista Carta Capital, decidiu sair do IG, em protesto. Mino escreveu o seguinte, às 12h54 de hoje:
"Meu blog no iG acaba com este post. Solidarizo-me com Paulo Henrique Amorim por razões que transcendem a nossa amizade de 41 anos. O abrupto rompimento do contrato que ligava o jornalista ao portal ecoa situações inaceitáveis que tanto Paulo Henrique quanto eu conhecemos de sobejo, de sorte a lhes entender os motivos em um piscar de olhos. Não me permitirei conjecturas em relação ao poder mais alto que se alevanta e exige o afastamento. O leque das possibilidades não é, porém, muito amplo. Basta averiguar quais foram os alvos das críticas negativas de Paulo Henrique neste tempo de Conversa Afiada".
Hoje cedo, Azenha comentou:
"O Portal da Imprensa disse, sem ouvir as partes e atribuindo a notícia a uma fonte anônima, que foi por falta de audiência. O jornalista nega. O estranho é que o Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim, 'sumiu' do ar, sem mais nem menos. Sem qualquer explicação. Blecaute como nunca vi, nem no Brasil, nem nos Estados Unidos. Blecaute na China a gente entende: há censura. Blecaute no vídeo da Cicarelli a gente entende: foi a Justiça. Mas esse blecaute foi estranho: pluft. Desplugaram o site sem qualquer explicação aos internautas. O precedente está aberto: amanhã a Veja dá um pluft no Reinaldo Azevedo. O IG dá (outro) pluft no Mino Carta. O Globo dá um pluft no Noblat. Como endereço, na internet, vale ouro – é como ponto de encontro –, como evitar isso?"
Horas antes, Azenha já havia anunciado uma outra forma de protesto:
"Não vou entrar no mérito de qualquer disputa entre o IG e o Paulo Henrique Amorim. Faltou audiência? Foi censura? Pouco importa. O que importa, em minha opinião, é que o IG desplugou o site de um jornalista sem dar satisfação àqueles que importam: os internautas. Sejam eles leitores do Luís Nassif ou do Reinaldo Azevedo, acho que merecem respeito. Qual foi a explicação do IG? Nenhuma. Alguém 'vazou' uma informação para o Portal Imprensa. A verdade factual: o IG desplugou um site sem dar, antecipadamente, satisfação aos leitores.
O que posso fazer?
Protestar, sim. Protestar em nome da imprensa livre. Da mesma forma que protestaria se tivessem 'tirado' do ar a TV Globo, a Folha de S. Paulo ou o Cidadania.com.
Eu não sei quem é o responsável. Mas quem quer que seja é uma pessoa a quem falta coragem, caráter e integridade jornalística.
Eu não quero QUALQUER TIPO DE ASSOCIAÇÃO com essa gente, nem indireta. Como sei que o IG tem relação com o prêmio iBest, retiro minha candidatura, embora eu não tenha sido o responsável pela inscrição de meu blog no prêmio. Peço desculpas a quem me indicou. Espero que compreenda o princípio que norteou a minha decisão. Peço a vocês que não votem no meu blog.
Não importa se o IG cumpriu ou não o contrato: acho que você, leitor, merecia uma satisfação antes de qualquer blecaute".
O Tamos com Raiva não se inscreveu, até onde sei. Mas podemos protestar transcrevendo esses protestos e acrescentando o nosso.
É inaceitável o que o IG fez com o Conversa Afiada!
Se os donos do IG queriam silenciar o velho jornalista, enganaram-se. Ele já criou um novo blog . O novo Conversa Afiada reentrou na blogesfera com o seguinte esclarecimento de Paulo Henrique Amorim:
"O Conversa Afiada ficou fora do ar por 08 horas e 58 minutos.
Breve, escreverei um Máximas e Mínimas para tentar explicar o que aconteceu.
O iG se limitou a enviar uma notificação assinada por Caio Túlio Costa, para avisar que o contrato se rescindia de acordo com cláusula que previa um aviso prévio.
Não é a primeira vez que me mandam embora de uma empresa jornalística.
Só o Daniel Dantas me 'tirou do ar' duas vezes: na TV Cultura e no Uol.
E ele sabe que não vai me tirar, nunca ...
Com isso, se encerrou a vida deste blog num portal da internet.
Nenhum blog de relevância política nos Estados Unidos, por exemplo, está pendurado num portal.
Clique aqui para ver ou aqui , para ficar em dois dos melhores exemplos.
Essa é a virtude a internet: último reduto do jornalismo independente.
Assim, se você acha que o Farol de Alexandria e o presidente eleito são dois impostores; se você gosta do Festival do Tartufo Nativo; se acha que o PIG, além de ilegível, não tem salvação; que os portais da internet brasileira são uma versão – para pior – do PIG; que a Veja é a última flor do Fascio; que o Ministro (?) Marco Aurélio de Mello deveria ser impeached; que Daniel Dantas deveria estar na cadeia; que Carlos Jereissati e Sergio Andrade vão ficar com a "BrOi" sem botar um tusta; que a "BrOi" significa que o Governo Lula vai tirar Dantas da cadeia; que chega de São Paulo, porque está na hora de um presidente não-paulista etc etc etc... se você acha tudo isso, continue a visitar o Conversa Afiada neste novo e renovado espaço.
Em tempo: o Conversa Afiada anuncia publicamente que não é candidato a nada no iBest. Nunca levou isso a sério. Não vai ser agora que vai levar.
Muitas novas atrações virão.
Até já!"
Nós, do Tamos com Raiva, damos as boas-vindas ao novo blog. Vida longa ao Conversa Afiada! E a todos nós – pois, se a moda pega...
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Quarta-feira, Março 19, 2008 [
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Haja dia das mulheres!
Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, hoje com quase 100 anos, é uma intelectual corajosa, que peitou o nazismo de Hitler e o Estado Novo de Getúlio Vargas ao despachar vistos para dezenas de judeus alemães se refugiarem ilegalmente no Brasil. Arriscou seu emprego e até mesmo sua vida ao fazer isso, enquanto trabalhou no setor de vistos do Consulado Brasileiro em Hamburgo. Por isso, é a única mulher do mundo homenageada no Museu do Holocausto de Jerusalém, no Jardim dos Justos, em meio a 18 diplomatas. Também recebeu homenagens no Museu do Holocausto de Washington. Anos depois, ajudou a esconder artistas e intelectuais em sua própria casa, em pleno regime do AI-5. Àquela altura já estava com pelo menos 60 anos de idade.
Essa mulher notável só é conhecida do povo brasileiro como esposa de João Guimarães Rosa.
Isso ilustra o pensamento machista que ainda domina nossa sociedade. A tal "Semana das Mulheres" (derivada do dia 8 de Março), é boa para levantar esse assunto nos blogs, pautar os jornais, fazer com que uma discussão que deveria ser mais freqüente em todo o ano ganhe espaço pelo menos num período.
Melhoramos. As leis mudaram. Não há mais, no Código Penal Brasileiro, aberrações como dizer que é crime raptar mulheres desde que sejam "honestas". O direito das mulheres vem se tornando cada dia mais universal, abrangendo cada vez mais as mulheres de todas as classes e cores e credos (tudo bem que as branquinhas, riquinhas e católicas geralmente ganham preferência).
Mas ainda estamos longe do ideal, em que homens e mulheres têm direitos idênticos, em que as diferenças entre os dois sexos são respeitadas, mas não interferem diretamente no bolso ou na política.
As mulheres já são maioria na população brasileira (pelo menos 2,5 milhões mais que os homens), mas ainda permanecem minoria na política.
Minorias na política
Se assim não fosse, não estaríamos em 146º lugar em um ranking mundial de mulheres no parlamento, segundo dados da União Interparlamentar, sediada em Genebra. Vejam o vexame: nossa Câmara dos Deputados só possuía 9% de mulheres em janeiro deste ano (46 dos 513 deputados). No Senado, é de 12,3% (dez, dos 81 senadores). Para se ter uma idéia do quanto isso é baixo, nossa média só é maior que a do Haiti e Colômbia, nos países da América Latina, que tem média geral de 20,7% de mulheres.
Considerando que esse ranking mundial contou 192 países, ficar na 146ª posição dá a dimensão do nosso vexame. Mesmo assim, a pouca participação feminina no Congresso é um problema mundial: apenas 20 países em todo o mundo têm mais de 30% de mulheres no seu Parlamento. Ruanda, que está em 1º lugar no ranking, tem 48,8%, o mais próximo que se chegou da metade.
No ranking dos gabinetes ministeriais, o Brasil ficou em 115º lugar, com quatro mulheres entre seus 35 ministros, ou 11,4% do total.
Preocupada com o fato de que, além de tudo isso, apenas 13% dos chefes de Estado e de governo do mundo são mulheres, a ONU e duas ONGs mundiais lançaram um site para promover a participação das mulheres na política. É o www.iknowpolitics.org. Mas algumas outras medidas podem ser mais eficazes. Inspirada pela Semana das Mulheres, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados admitiu esta semana a PEC nº 590/06, de Luiza Erundina (PSB/SP) que garante a presença de pelo menos uma mulher nas Mesas Diretoras da Câmara e do Senado e em cada comissão. É que, em 180 anos de Congresso, nunca nenhuma mulher brasileira participou dessas instâncias máximas de poder no Parlamento. A PEC foi aprovada, vai ser avaliada por comissão especial e, em seguida, votada em dois turnos. E o Tamos com Raiva vai acompanhar esses trâmites (que provavelmente só terão um desfecho no dia das mulheres do ano que vem...).
Minorias na economia
Além da política, a participação feminina na economia também está longe do ideal. Apesar de representarem 43% da população economicamente ativa do Brasil, com 36,5 milhões de mulheres nesse grupo, apenas 35,8% delas estão empregadas. Além disso, elas ganham em média 30% a menos que os homens, independente de nível de instrução. A desigualdade persiste entre os sexos, na verdade, independente do ângulo que usemos para analisar o problema:
* No ramo de educação, saúde e serviços pessoais, que abriga mais mulheres que homens, 30% deles ganham mais de 5 salários mínimos, contra só 15% delas.
* 94% das empregadas domésticas (maioria de mulheres) recebem até 2 salários mínimos. Enquanto 84% dos homens que exercem essa função recebem a mesma quantia.
* Entre os iluminados, esclarecidos, politizados, especializados – aqueles com maior nível de escolaridade (pelo menos 15 anos de estudo) – a coisa é inexplicavelmente mais feia: 42% dos homens recebem mais de 10 salários mínimos, contra só 18% das mulheres.
Todos esses dados foram retirados de pesquisas da Fundação Carlos Chagas, que já trabalha há um tempo com esse assunto. Se quiserem ler com calma, cliquem aqui.
No segundo setor, das indústrias, a discrepância também assusta: segundo dados coletados pelo IBGE em 2005, se nos outros setores os salários das mulheres são, em média, 30% menores que os dos homens, nas indústrias nós ganhamos só 52,18% do salário deles.
Minorias nos direitos humanos
Além disso, se na política e na economia nós já estamos a longa distância de um caminho igualitário, na vida familiar as coisas também não vão nada bem. Um estudo de 2001 feito pela Fundação Perseu Abramo diz que, a cada 15 segundos (!), uma mulher é espancada por um homem no Brasil. Um terço já admitiu ter sofrido violência física (isso sem contar as que não admitiram!), além das agressões verbais e ameaças. Algumas declararam terem sido espancadas por mais de dez anos, e 11% já foram forçadas a ter relações sexuais com o próprio parceiro ou com estranhos.
O pior é quando tudo isso parte de dentro de casa. Entre as que sofreram agressões, 74% foram vítimas de familiares, 16% de conhecidos e só 10% de estranhos. E o que preocupa é que esses dados ainda podem estar minguados pela desconfiança natural de mulheres vitimadas, que muitas vezes não se expõem, nem buscam ajuda em delegacias ou na Justiça.
Minoria acuada
Também pudera: devem ter medo de terem sua ação cancelada por juízes como o Edilson Rodrigues, de Sete Lagoas (MG), que ignorava a lei Maria da Penha em suas sentenças alegando que as mulheres devem mesmo se submeter aos homens (ver artigo sobre isso publicado pelo Tamos com Raiva).
Ou talvez tenham medo de ter de passar pelo que a própria Maria da Penha, que inspirou a lei 11.340, passou até se ver justiçada. Depois de ser espancada, levar um tiro, ficar paraplégica e quase morrer nas mãos do marido, ela ainda teve que esperar 19 anos para vê-lo preso, e só depois que a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos interveio no caso.
Foi só nesta Semana das Mulheres, no último dia 12, que Maria da Penha foi indenizada pelo governo do Ceará. Eles anunciaram que vão pagar R$ 60 mil – ainda bem menos que o que ela gastou para reparar os danos causados por seu ex-marido –, numa conquista histórica e simbólica para as brasileiras.
Mas o caminho a trilhar ainda é bem longo e deve custar a vida de muitas Marias, o esforço político de várias Luizas, a adoção por empresas de muitas licenças-maternidade e a valorização cultural de todas as Aracys. Haja dia das mulheres para estimular tanta mudança necessária!
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Foto da boneca sem voz e sem vez: www.senado.gov.br
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Segunda-feira, Março 17, 2008 [
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Cisternas para salvar o Velho Chico
Li hoje uma boa notícia: a parceria entre o governo federal e a Articulação no Semi-Árido (ASA), que havia sido interrompida em setembro do ano passado, foi retomada por uma de suas estatais. Essa interrupção foi o travo amargo na festa promovida pela ASA em Feira de Santana, no dia 13 de novembro, para comemorar um número mágico: 1 milhão de pessoas beneficiadas pelas 221 mil cisternas construídas em vários estados brasileiros castigados pela seca. Chamado de Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC), a meta é beneficiar 10 milhões de famílias em 11 estados.
Agora, no dia 12 de março, a coordenadora da ASA e presidente da Associação Programa Um Milhão de Cisternas (AP1MC), Valquíria Alves Smith, assinou um termo de parceria com a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba (Codevasf), no valor de 12,6 milhões de reais, para a construção de 7.945 cisternas em municípios situados às margens do rio São Francisco nos estados de Alagoas, Bahia, Minas Gerais, Pernambuco e Sergipe. O semi-árido se estende por um milhão de quilômetros quadrados em 11 estados brasileiros (os nove do Nordeste e Espírito Santo e Minas Gerais, na região Norte), onde costuma chover em fevereiro, março e abril, mas não no resto do ano.
A parceria da Codevasf com a ASA se inclui no programa federal "Água para Todos". A ASA não nasceu neste governo. Ela foi criada em 1999, no governo Fernando Henrique, como entidade civil sem fins lucrativos, para organizar cerca de 800 instituições (sindicatos de trabalhadores rurais, igrejas cristãs, entidades ambientalistas, ong´s, agências de cooperação internacional, associações de moradores, Federação Brasileira de Bancos, entre outras entidades), em torno da idéia de construir um milhão de cisternas rurais.
Quando anunciou o fim da parceria, a idéia do governo era entregar o dinheiro diretamente aos prefeitos, para que eles construíssem as cisternas. Com olho nas eleições de 5 de outubro deste ano, os políticos comemoraram, mas houve uma grande reação das entidades civis, receosas de que o dinheiro fosse desviado para fins eleitoreiros.
Receio que a iniciativa da Codevasf seja uma ação isolada, apenas para diminuir a pressão popular contra a transposição das águas do São Francisco.
Acho que não estou sozinho nessa desconfiança. Tanto que a Igreja do Carmo, em Belo Horizonte, retomou agora a campanha de arrecadação de dinheiro, para que o P1MC não seja interrompido. Logo depois do anúncio, em setembro, a igreja lançou uma campanha e conseguiu arrecadar 10 mil reais para a construção de cisternas no sertão da Paraíba e mais 20 mil reais, enviados em janeiro para seis municípios do Norte de Minas, região que também faz parte do semi-árido. A igreja abriu uma conta no Banco Rural (agência 0477, conta corrente 6021571-3) para receber doações.
Segundo o pároco da Igreja do Carmo, Frei Gilvander Moreira, a construção de cisternas não é a solução, mas é parte da grande solução, ao lado de outras 140 tecnologias alternativas, sustentáveis ecologicamente. "Se os governos federal e estadual mostrassem, na implementação destas 140 tecnologias sociais e do Programa Um Milhão de Cisternas o mesmo empenho que eles mostram pela transposição do São Francisco e pelas iniciativas do PAC, a qualidade de vida dos pobres, realmente, melhoria muito", diz ele em artigo para o jornal da paróquia. Na sua opinião, a ASA opta por infra-estrutura descentralizada, com melhor retorno social. "A opção do governo é por grandes obras que implicam o gasto de muito dinheiro e que favorecem o capital, não o povo. O governo joga sua força e grandes volumes de recursos nesses projetos do PAC, mas investe pouco em infra-estrutura descentralizada".
No dia 8 de janeiro passado, o blog Bahia de Fato informou, sem citar fontes, que desde 1999 o governo federal e suas estatais repassaram à ASA cerca de 230 milhões de reais. "Cisternas construídas pelas prefeituras nunca foram orçadas por menos que R$ 2.100 (dois mil e cem reais) contra os R$ 1.600 da ASA Brasil. É que a ASA Brasil convoca pedreiros da própria comunidade, formados e capacitados pelo P1MC – Programa 1 Milhão de Cisternas. As próprias famílias executam os serviços gerais de escavação. Já foram construídas 221.514 cisternas, beneficiando 1,1 milhão de moradores do semi-árido nordestino, o que representa 22% da meta", diz o texto assinado por Oldack Miranda e Everaldo de Jesus. E acrescentam:
A parceria do Governo Lula com a ASA Brasil para construção de um milhão de cisternas no semi-árido assustou tanto as oligarquias, as elites, os parlamentares de direita, que eles aprovaram a CPI das ONGs, numa tentativa de incriminar o Governo Lula por seu apoio às organizações populares e à rede de ONGs. "O objetivo é atacar o governo, porém, mais importante é atacar a própria capacidade de organização popular, especialmente de uma articulação regional, como a ASA Brasil" afirma o sociólogo Sílvio Bava em sua matéria do Le Monde Diplomatique Brasil.
Num artigo disponível na Internet, sem data definida, mas provavelmente de fins de 2004, o ministro Patrus Ananias, do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, escreveu:
No Dia da Caatinga, comemoramos, simbolicamente, junto com a ASA e outros parceiros, a construção da cisterna de número 50 mil, na comunidade de Lage, município de Serrinha, no sertão baiano. Cinqüenta mil cisternas significam 50 mil famílias com garantia de água na estação da seca. Cem mil pais e mães de família com mais tempo para cuidar de si próprios, dos filhos, da roça e dos animais. Considerando a família média do Nordeste, de acordo com o último Censo, 150 mil crianças terão garantia de uma vida melhor, com mais saúde, sem diarréia e outras doenças de veiculação hídrica, que matam. Nesses 50 mil lares não haverá a miséria da privação vivida nas secas passadas. (...)
Desde 2001, o poder público vem investindo em cisternas, mas, com a adoção do programa pelo Fome Zero, os números deram um salto. Com os recursos de 2003 e 2004, que totalizaram R$ 72,6 milhões, foram construídas 40.600 unidades com financiamento direto do MDS. Até março de 2005 foram 50.248 reservatórios, o que representava 65% do total de cisternas construídas pela ASA desde 1999. Para 2005, o Ministério tem orçamento de R$ 68,6 milhões pra investir no programa. Considerando que o custo médio de cada reservatório é R$ 1.515, neste ano serão feitas mais 45.280 cisternas. É importante registrar que com o repasse de verbas através do Termo de Parceria, a ASA também organiza a comunidade que, por sua vez elege as famílias que vão receber as cisternas e forma pedreiros, mão-de-obra especializada para a construção dos equipamentos; abrindo portas de saída, nome que damos às ações emancipatórias. (...)
A sabedoria popular dita que grandes problemas exigem soluções simples. E é assim que as cisternas de placas estão resolvendo o problema do abastecimento de água nas casas do sertão do Brasil. Solução encontrada por Manuel Apolônio de Carvalho, o Nel, sertanejo sergipano que aprendeu a fazer piscinas para os quintais dos Jardins, em São Paulo, e, de volta para a sua Simão Dias, adaptou a técnica para armazenar água de chuva. A cisterna, construída ao pé da casa, tem quatro metros de diâmetro, dois de profundidade e mais um metro acima da terra. A parte enterrada serve para reduzir a temperatura e evitar a evaporação da água que é captada, durante os meses de chuva. A água que cai no telhado é recolhida por uma calha, escorre por um cano e vai direto para o reservatório de cimento que é bem vedado. A família que recebe a cisterna aprende a tratar e a bem utilizar a água estocada. Manuel Apolônio, reconhecido pela Rede de Tecnologia Social, estava em Serrinha testemunhando a multiplicação do seu invento pelo semi-árido afora, ajudando a matar a sede dos seus irmãos sertanejos. Emocionado, teve poucas palavras para traduzir o sentimento ao se tornar o primeiro cidadão a receber o Certificado Parceiro do Programa Fome Zero, diploma concedido pelo MDS até então a entidades, em reconhecimento aos que compartilham as ações das políticas sociais do Governo.
Espero sinceramente que o ministro Patrus Ananias não tenha arrefecido seu entusiasmo com as soluções simples, agora que ele virou defensor da transposição das águas do São Francisco, um projeto que poderá ficar entre 4,5 bilhões e 10 bilhões de reais.
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Quinta-feira, Março 13, 2008 [
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Vale a pena morrer pelo Velho Chico
Estava eu meio desanimado com essa questão do São Francisco, achando que não há mesmo jeito de salvar aqueles bilhões de reais de nossos impostos que o governo Lula quer transferir para empreiteiras e grandes latifundiários nordestinos com a transposição do rio. Mas duas coisas me fizeram deixar a preguiça de lado. A primeira foi a troca de correspondência entre um frade holandês que durante 42 anos dirigiu a Paróquia do Carmo, em Belo Horizonte, e o ministro do Desenvolvimento Social. Frei Cláudio van Balen e Patrus Ananias são amigos de velha data, que se desentenderam por causa do Velho Chico. A outra é um artigo publicado na última edição da Folha do Meio Ambiente, um jornal fundado por um ex-colega de faculdade, José Silvestre Gorgulho.
Vou começar pelo segundo. Cláudio Vianna, engenheiro e bacharel em Filosofia, que nos últimos 40 anos participou da construção de todos os reservatórios do rio São Francisco, exceto a de Três Marias, publica naquele jornal uma "Carta ao Presidente Lula". Primeiro, esclarece que D. Pedro II, ao contrário do que afirma Lula, nunca prometeu fazer a transposição do São Francisco. "Prometeu, sim, que daria o seu anel imperial para acabar com a seca", durante a visita a Paulo Afonso, em 20 de outubro de 1859, diz Vianna. O que Dom Pedro queria era tornar o rio navegável, e para isso contratou os serviços de vários especialistas estrangeiros. Dois deles, o engenheiro inglês Millner Roberts (1879) e o geólogo francês Orville Derby (1880), "escreveram duas obras que são até hoje por nós consultadas. Nelas, aconselhavam, já antes da produção de energia elétrica, só pensar em transposição do rio com a interligação do Tocantins", esclarece Vianna.
Ele diz que essa interligação foi estudada pelo governo militar, em 1972, quando também decidiu pela "impossibilidade prática da transposição". Vianna termina sua correspondência filosoficamente: "Pois é, companheiro Lula, esta carta tem uma finalidade histórica: amanhã ninguém, nem o senhor, poderá dizer: 'eu não sabia'..."
Dito isso, passemos à discussão entre Frei Cláudio e Patrus Ananias. Ela começou com uma declaração do ministro, publicada pela Folha de S. Paulo em dezembro passado sob o título "Patrus opina sobre o jejum e a oração de Dom Cappio". Afirmou o ministro, sobre a greve de fome de Dom Luiz Cappio contra a transposição:
"Tenho muito respeito pela posição de dom Luiz. Agora, discordo dele. Acho uma posição muito difícil, muito delicada. É quase que um inverso, é claro que pelo outro extremo: 'Se você não fizer o que quero, te mato'. É inaceitável ir ao extremo. Mas agora ele está colocando num outro extremo, o do automartírio. 'Se não for feito o que eu quero, eu me mato'. Com esse tipo de argumento, fica muito difícil conversar. E ele fechou questão: tem que interromper a obra. Como cristão, católico, numa linha ecumênica, estou em estado permanente de oração e de vigília para que tudo se resolva da melhor maneira possível".
E a entrevista prosseguiu com o jornal indagando se o bispo tem sido intransigente e o ministro respondendo:
"Intransigente, nesse sentido, sim. 'Faça o que quero, senão vou me matar' não é um pressuposto razoável para uma relação de diálogo, de entendimento. Ele nem sequer se dispõe a dialogar, ou seja, tem que haver a interrupção imediata das obras de transposição do rio. E acho que ele está equivocado neste aspecto".
No dia 18 de dezembro, Frei Cláudio escreveu ao ministro uma longa carta. Num trecho, diz ele:
"Com oração e no respeito, você discorda de sua decisão gesto. É um direito seu. Enquadrar tal gesto nesta moldura: 'Se não for feito o que eu quero, eu me mato', para mim, ressoa como uma tremenda injustiça. Jesus e o Batista jejuaram pelo Reino. Jesus até foi, conscientemente, ao encontro da morte, sendo relativamente fácil não ir até Jerusalém e evitar cair nas mãos de seus inimigos. (...) O que eu quero dizer é que dom Cappio não se sacrifica por um capricho pessoal, uma escolha de intransigência frívola. Com suas colocações, Patrus, você o expôs ao ridículo. Ele, porém, é um seguidor de Francisco e defensor do São Francisco – não de uma 'coisa' – o rio – mas de uma rede complexa de relações: o povo sofrido do semi-árido em sua relação com a água do rio, fonte de vida digna para tantos. Quem fechou a questão, não foi dom Cappio, foi o governo. Quando você diz que ele foi intransigente, solicitando a paralisação da obra da transposição, para iniciar o diálogo, é bom saber que esta é a condição básica para não tornar a questão irreversível, já que a intransigência para o diálogo e a insistência no início das obras vem da parte do governo. Se a obra é polêmica, e todos sabem que é, antes do início da mesma é preciso esgotar todas as análises técnicas e políticas e todas as avaliações sócio-econômicas e ambientais. Quem prometeu a dom Cappio fazê-lo foi o governo quando da primeira greve de fome. Portanto, cabe a esse agir com prudência e não ditatorialmente com total desprezo ao bem comum na recusa à participação popular. (...) Você lembra: 'O presidente tem autoridade...'. É o que aconteceu com Hitler e tantos, até em nossos dias. Investidos do poder, julgam-se donos do povo e de sua vida. Um simples voto na urna representaria parâmetro legal e constitucional para tudo o que o presidente achar justo. O poder legislativo e o judiciário podem retirar-se em férias. O presidente se basta. Não é verdade que 'os processos contra a transposição foram discutidos e que batalhas judiciais foram vencidas'. O rio não é do governo, é da nação e uma nação não é nada sem seu povo".
No dia 3 de janeiro, o ministro respondeu a Frei Cláudio, numa carta ainda mais comprida. Alguns trechos:
"O senhor quer saber quem julga 'essas situações muitíssimas especiais' que mencionei na entrevista. Sei que o tema é delicado e as fronteiras são tênues. Mas penso que as razões de consciência só devem ser levadas ao extremo em situações de iniqüidade que impeçam a liberdade de pensamento, de expressão, de organização de pessoas comprometidas com causas comuns. (...) Pelas razões vistas, não posso aceitar qualquer comparação 'com Hitler e tantos'. Aqui quero deixar claro o meu repúdio à comparação incabível. Todas as ações e embargos com relação às obras de transposição do São Francisco foram e serão apreciadas, se novas surgirem, pelo Poder Judiciário. Age com toda liberdade o Ministério Público. O Exército brasileiro age a serviço e sob as ordens de um poder democraticamente constituído. Quando digo que o Presidente tem autoridade, eu ponho esta autoridade nos limites legais e das instituições".
No dia 10 de janeiro, Frei Cláudio voltou ao ataque. Entre outras coisas, escreveu ele:
"Você se referiu ao jurista Fábio Konder Comparato. Quero chamar a atenção para um vídeo do mesmo, de 8 minutos, disponibilizado no www.youtube.com, em que demonstra a inconstitucionalidade e o rosário de ilegalidades do projeto da Transposição. Ele afirma que é um escárnio e que deveria ser muito discutido e depois submetido a plebiscito popular, pois o governo não é proprietário do rio São Francisco – um bem do povo. O mesmo mostra que os 6 votos de ministros do Supremo não foram votos jurídicos, mas políticos para agradar ao governo. Haveria subserviência do poder judiciário ao executivo. (...) Por que o STF não julga o mérito das 14 ações contra a transposição que estão engavetadas ali? E a Ação Civil Pública da OAB do Sergipe contra a Transposição? Por que o ministro Menezes Direito citou Sepúlveda Pertence tantas vezes no parecer que derrubou a liminar que suspendia as obras da transposição? Sepúlveda antecipou a aposentadoria para que fosse possível o governo indicar Menezes Direito para o STF antes que ele completasse 65 anos. Se ele foi colocado no STF, quatro meses antes, é claro que não iria decidir, contrariando o governo. (...) Preto no branco, não estamos em um Estado Democrático de Direito pleno. Estamos também em um estado marcado por autoritarismo, vassalo do poder econômico; e em um estado que, não raro, faz política de segurança como se fosse política social. (...) Como devem ser tomadas as decisões? Certamente, com uma Câmara e Senado funcionando com o mínimo de dignidade, com a maior participação popular possível, através de plebiscitos, referendos, auditorias, audiências públicas. Nunca como as caricaturas de audiências que foram feitas".
Patrus Ananias não respondeu a essa carta. É um pena. O debate devia continuar. Acho que o contribuinte não deve desistir de conhecer melhor por que querem transformar o Velho Chico numa nova Transamazônica. Na rodovia, a floresta se encarregou de enterrar os erros do passado. O que se teme é que a obra do São Francisco tenha conseqüências irreversíveis. E que a profecia de Cláudio Vianna, na Carta ao Presidente Lula, se realize:
"Além do mais, companheiro Lula, 127 m³ de água matam a sede por tempo curto. E, depois, como fazer? E meu povo de cá do Itapicuru, Vazas Barris, Salitre, Rio Verde, Jacaré, Rio do Peixe e etc como ficam? Teremos de nos contentarmos em sermos pobres com os rios secos e não termos a oligarquia do Ceará para exigir".
Pois é: não teremos nem a oligarquia do Ceará nem o dinheiro de nossos impostos nem água nem nada.
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Sexta-feira, Março 07, 2008 [
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Vizinhos com culpa no cartório
Quem vê essa foto aí em cima, de Hugo Chávez, Álvaro Uribe e Rafael Correa se cumprimentando não deve acreditar que hoje esses três governantes estejam em pé de guerra. Depois que Uribe invadiu o Equador, no último sábado, para matar guerrilheiros das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), Correa cortou relações diplomáticas com seu vizinho do norte e Chávez, que não tem papas na língua, chamou o presidente colombiano de "criminoso". Mas nos últimos meses, entre altos e baixos, os três países se uniram na chamada "guerra ao narcotráfico" e principalmente no resgate aos reféns das Farc.
Um refresco de memória: em janeiro, duas reféns, presas desde 2001 e 2002 pela guerrilha colombiana, foram libertadas. Em fevereiro, outros seis presos foram soltos, sempre com a intervenção de Hugo Chávez. O que as Farc pediam? A libertação dos cerca de 500 presos da guerrilha, atualmente nas garras de Uribe (cogita-se que as Farc, organização hoje com 43 anos, estejam bem enfraquecidas, com metade do número de integrantes que tinham em 2002, quando Uribe tomou o poder).
Nas últimas semanas, cresceu o diálogo entre as Farc e o governo francês, no sentido de libertar a candidata presidencial franco-colombiana Ingrid Betancourt, refém desde 2002. Raúl Reyes, o "número 2" das Farc, estabelecia esse contato com o governo de Sarkozy. Mas a Uribe não interessava esse tipo de negociações. Ele sempre declarou que queria acabar com as Farc e resgatar os seqüestrados "à força". Não por negociações.
Assim, ao invadir dois quilômetros de território equatoriano e lançar bomba que teria matado 23 pessoas e ferido outras três, Álvaro Uribe não só desobedeceu as regras internacionais de diplomacia. Ele bombardeou as negociações pela liberdade dos seqüestrados.
(Não é à toa que o filho de 19 anos de Betancourt se declarou "preocupado").
Para fazer isso, o cara tem que estar muito confiante de si. Porque certamente sabia que toda a América Latina se voltaria contra ele. Seria o caso de Uribe? O que a gente sabe é que ele tem o respaldo do governo dos Estados Unidos, inclusive dos pré-candidatos à futura presidência norte-americana. Também já lemos em reportagem da Newsweek que ele estaria envolvido até o pescoço com o narcotráfico e com grupos paramilitares de direita, além de ter sido amigão de Pablo Escobar e de ter tido negócios com os Estados Unidos.
Segundo a publicação, um relatório do Arquivo de Segurança Nacional norte-americano sobre o cartel de Medellín listou mais de cem nomes de influência no narcotráfico colombiano e o número 82 era Álvaro Uribe: "Alvaro Uribe Vélez - a Colombian politician and senator dedicated to collaboration with the Medellin cartel at high government levels. Uribe was linked to a business involved in narcotics activities in the U.S.... Uribe has worked for the Medellin cartel and is a close personal friend of Pablo Escobar Gaviria." [Uribe – um político colombiano e senador dedicado à colaboração com o cartel de Medellin em altos escalões do governo. Uribe foi relacionado a negócios envolvendo atividades com narcóticos nos Estados Unidos. Ele trabalhou para o Cartel Medellín e é amigo íntimo de Pablo Escobar Gaviria].
Se esse cara chegou à presidência com o respaldo dos Estados Unidos e virou porta-voz norte-americano em terras latinas, ele pode invadir o Equador, abrir fogo contra as Farc, estimular a indignação de todos os seus vizinhos e ainda ser (re-)reeleito...
Eu não acho que seja caso para guerra efetiva, mas a América do Sul nunca esteve tão dividida em toda a sua história. É atrito do Brasil com Bolívia, possíveis atritos (em breve) com o Paraguai, agora essa crise entre Colômbia e Equador e a intervenção direta da Venezuela e diplomática do Brasil, Chile, Peru e Argentina. O resumo da ópera:
* No dia 1º de março, sábado, Uribe bombardeou um acampamento no Equador e matou pelo menos 23 guerrilheiros das Farc, entre eles Raúl Reyes.
* No dia seguinte, o Equador expulsou o embaixador colombiano de Quito e a Venezuela deslocou soldados para sua fronteira com a Colômbia.
* Na segunda-feira, a Venezuela expulsou o embaixador colombiano de lá e, em contrapartida, Uribe acusou o governo de Chávez de ter financiado as Farc e o Equador de ter relações com o grupo guerrilheiro.
* Hoje já foram deslocados 3.200 soldados de Quito para suas fronteiras com a Colômbia, além do contingente normal. Em reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA), Uribe pediu desculpas pela invasão do território, mas exigiu explicações dos dois países.
Importante: apesar de ter se desculpado pela invasão, Álvaro Uribe defendeu os ataques que mataram 23 pessoas: "Não temos interesse na guerra, mas temos todo o interesse na derrota do terrorismo pela via militar e pela via jurídica".
Resta fazer aquela pergunta mais óbvia, a primeira que todo mundo deve fazer depois de ler todo este artigo: o envolvimento das Farc com o narcotráfico é algo comprovado?
Já que é o discurso dos Estados Unidos que estamos acostumados a ver, resolvi fazer diferente. Com a palavra, Raúl Reyes:
"As Farc só mantêm ligação com os camponeses, que por não terem garantias de crédito e de assistência do Estado recorrem à produção de coca. Mas eles não são narcotraficantes. São trabalhadores rurais, que em algumas regiões plantam coca e em outras a papoula. Quem compra deles esses produtos é que são os narcotraficantes. As Farc têm vínculos com esses trabalhadores rurais, assim como têm vínculos com os plantadores de soja, de milho, de feijão, criadores de gado. Cobramos impostos, não dos camponeses, mas de quem compra deles os produtos. Em troca não deixamos que os roubem nessas negociações e que paguem o que é justo".
O fato é que é difícil encontrar provas de que as Farc tenham envolvimento direto com o tráfico de drogas. Sabemos, no entanto, que eles usam métodos nada louváveis para negociar suas exigências com o governo, especialmente os seqüestros. Diz-se que eles ainda mantêm centenas de reféns, muitos dos quais há mais de dez anos. Um resumo dos seqüestros praticados desde 1996 pode ser visto aqui: http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u376596.shtml
O próprio Reyes assume os seqüestros como forma de arrecadação para as Farc, mas ele defende essa prática com base em lei da própria organização:
"As Farc não seqüestram. O que fazemos é cobrar impostos daqueles que financiam a guerra na Colômbia, como está previsto na lei 002, aprovada pelo Estado Maior central de nossa organização. Todos os que têm patrimônio de mais de US$ 1 milhão têm de pagar 10% do que arrecadam para as Farc. Alguns pagam voluntariamente, outros se negam a pagar. E quando não pagam, prendemos até que paguem. Fazemos o mesmo que fazem os governos de todo o mundo com aqueles que não pagam impostos". (Reyes estava mal informado: aqui no Brasil, quem não paga impostos não vai para a cadeia. A maior punição que sofrem é pagar para aparecer em colunas sociais...)
As Farc são um Estado paralelo, dentro de outro Estado, que eles se recusam a reconhecer há 43 anos, que também não é comprovadamente isento de culpa pela exploração do tráfico de drogas na Colômbia. Um Estado paralelo com possíveis 12 mil integrantes num país com 44 milhões.
A Colômbia precisa resolver esse disparate, mas sozinha, sem ferir a autonomia de países vizinhos, sem trocar farpas não-comprovadas e mantendo mais claras as relações entre Uribe, Chávez, Correa e os Estados Unidos.
Pra fechar, uma pulga atrás da orelha: por que esta reação tão exacerbada de Chávez contra a Colômbia, se o país desrespeitado foi o Equador? Solidariedade apenas? Como em todo o restante do artigo, cheio de questões mal explicadas (não só por mim, mas por todos), aí está outro ponto curioso, que teremos que deixar para a História resolver.
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Quarta-feira, Março 05, 2008 [
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