Estamos assistindo hoje a mais um espetáculo do capitalismo à brasileira. Os sites dos principais jornais informam que a OI anunciou nesta sexta-feira que fechou acordo para a compra do controle da Brasil Telecom por R$ 5,86 bilhões. Ninguém se preocupou em dizer ao leitor que é ilegal o negócio anunciado como "fato relevante" pela OI.
É verdade, há os que disseram, com aquela urbanidade que caracteriza nossa imprensa quando lida com o grande capital: o negócio, para ser concretizado, depende ainda de uma mudança na legislação do setor de telefonia brasileira, o Plano Geral de Outorga (PGO). Gerusa Marques, da Agência Estado, esclarece mais: o negócio terá que ser submetido obrigatoriamente à análise da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), e que hoje a fusão entre as duas concessionárias ou a compra de uma pela outra não é permitida por lei. "O negócio, então, ficará condicionado à mudança do Plano Geral de Outorgas (PGO) que já está em curso no órgão regulador", diz a repórter.
Ninguém, muito menos eu, parece duvidar que o PGO será mudado para permitir a transação. Alguns leitores talvez se lembrem que recentemente isso ocorreu no setor elétrico. Quem quiser recordar, pode ler aqui.
E os mais bem informados, ou seja, todos vocês, sabem que o PGO é uma cria do governo Fernando Henrique Cardoso, aquele que prometia acabar com o monopólio estatal na área de telecomunicações para beneficiar o consumidor brasileiro.
O anúncio da OI e a provável mudança da legislação significam que se está formando, numa área estratégica para o país, um monopólio privado. Vocês ouviram FHC protestar? Nem eu. Ouviram o protesto de algum tucano? Eu também não. Daqueles bravos defensores da economia de mercado auto-reguladora? O silêncio deles é ensurdecedor.
Há algum tempo, escrevi aqui e na Novae sobre a expulsão do jornalista Paulo Henrique Amorim do portal IG, porque ele vinha criticando com veemência – os que falam sozinhos costumam ter o mau hábito de gritar, para serem ouvidos –a fusão Brasil Telecom-Oi, um negócio que ele atribui ao banqueiro Daniel Dantas que apareceu no cenário brasileiro pelas mãos do baiano Antônio Carlos Magalhães, de triste memória.
Fui lá no blog dele, o Conversa Afiada, para ver como ele reagiu àquilo que vinha denunciando. Diz ele, naquela sua maneira característica de escrever:
. Os portais do PiG anunciam com redobrado entusiasmo a fundação da "BrOi".
. Só tem um problema: nenhum deles explica de onde vem a grana para Carlos Jereissati e Sérgio Andrade comprarem a Brasil Telecom, pagarem a grana que devem aos outros acionistas da Telemar - e, mais importante, dar o cala boca para o Daniel Dantas.
. De onde vem a grana ?
. É um negócio das Arábias, que mereceu os seguintes comentários dos leitores do portal do Globo.
. Do Globo !!!
Claro, não vou reproduzir aqui os comentários dos leitores do jornal, mas eles estão disponíveis lá no Conversa Afiada. O que interessa mais é a questão: de onde vem a grana? Carlos Jereissati, como sabem, é dono do Grupo LaFonte e irmão do ex-governador e atual senador tucano Tasso Jereissati. Sérgio Andrade, como estão carecas de saber, é um dos donos do Grupo Andrade Gutierrez. Ambos são endinheirados, mas PHA suspeita que não vão enfiar a mão no próprio bolso. Eles aprenderam bem como comprar empresas sem gastar algum do seu, quando compraram uma empresa telefônica no leilão de privatização organizado pelo governo FHC.
O capitalismo à brasileira se nutre – e não é de hoje – do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o antigo BNDE dos tempos de JK, quando o diretor-superintendente era o economista Roberto Campos, também conhecido como BobFields. Foi o BNDES (o S é uma ficção do governo militar) que ajudou os dois empresários na época da privatização. Não vai ser agora, presumo, que vai tirar o time de campo.
Só para recordar: a privatização do setor de telecomunicações foi feita em 1997. A telefonia fixa no Brasil ficou dividida em três grandes áreas. À Brasil Telecom coube os estados do Sul, do Centro-Oeste e mais o Acre, Rondônia e Tocantins. A Telemar –que em 2007 virou Oi – foi comprada pelas empresas de Carlos Jereissati e Sérgio Andrade com a ajuda generosa do BNDES. Com isso, eles ficaram com a concessão na região Sudeste, exceto São Paulo, no Nordeste e nos outros estados do Norte. A Telefônica, da Espanha, ficou com o Estado de São Paulo, o filé mignon da telefonia brasileira.
No mês passado, foi fechado um acordo para permitir a união da Oi e Brasil Telecom. Com esse acordo, Citigroup e GP Participações saíram do setor. O Banco Opportunity, de Daniel Dantas, que vinha brigando na justiça de Nova York com o Citigroup, fica livre da milionária ação judiciária (mais de 300 milhões de dólares de indenização reclamada pelos gringos) e também promete deixar o setor. Não vai chorar por causa disso, pois estará mais rico do que nunca.
Mas, quem paga a conta? O consumidor brasileiro, é claro. Ele adora falar ao celular!
Imagine um reitor que usa verbas públicas destinadas à pesquisa para mobiliar um apartamento funcional. Imagine que, nesse desvio, ele gaste R$ 470 mil. Agora pense que uma única lixeira custou o valor fantástico de mil reais.
Esse é o reitor de uma das universidades mais importantes do país, a Universidade de Brasília (UnB). Seu nome é Timothy Mulholland. Ele foi acusado de desvio de verba pública pelo Ministério Público do Distrito Federal, mas provavelmente continuaria ocupando seu cargo de confiança até o fim, não fosse um bando de estudantes raivosos ter invadido o prédio da reitoria e exigido sua exoneração.
Faz tempo que desgosto do movimento estudantil brasileiro. Nos meus anos de universitária, vi três grupos diferentes ocuparem o Diretório Central dos Estudantes da UFMG e todos eles me pareceram fúteis, inúteis e pelegos. Entre suas principais reivindicações, estava a liberação de calouradas no campus. Entre seus atos mais rebeldes, estava a depredação do "bandejão", que atende a trocentos estudantes e não cobra praticamente nada de alunos carentes. Esse movimento estudantil não me atendia.
Mas as centenas de estudantes da UnB que invadiram a reitoria e conseguiram pressionar pela exoneração de toda uma gestão corrupta podem ser o início de um movimento estudantil importante, que volta à ativa timidamente, depois de anos de conivência. Graças a eles, o Diário Oficial da União do último dia 15 trouxe, com a assinatura do presidente Lula, a exoneração de Timothy. Graças a eles, a discussão sobre a paridade dos votos para escolha de reitores poderá ser levada adiante e trazer benefícios a outras comunidades acadêmicas.
Quando houve eleições para reitores da UFMG, com três chapas na disputa, o DCE promoveu um debate sobre a invasão de inimigos dos Estados Unidos. A paridade dos votos das eleições, assunto de extrema importância para a comunidade universitária, foi ignorada por aqueles nossos "representantes", que só sabem tratar de temas intangíveis. Agora, talvez, os alunos da UFMG sejam beneficiados pela ousadia dos alunos da UnB.
Seu movimento começou no dia 3 de abril e foi até o dia 18, última sexta. Uma quinzena de protestos. Uma lição para a democracia brasileira. Um exemplo do que sempre acreditei e afirmei neste blog: as pequenas revoluções são possíveis. Ainda tenho esperança de que essa rede de reitores, parlamentares, funcionários públicos corruptos, seja desarticulada algum dia. Muito mais provavelmente, por centenas de jovens ainda idealistas e incorruptíveis – e não por promotores, legisladores ou professores. Timothy é apenas um e sua lixeira é um mero símbolo, perto de tudo o que é roubado bem debaixo de nossos narizes.
Há alguns dias, dirigentes de três dezenas de grandes empresas que operam no Brasil se reuniram durante três dias em São Paulo para discutir como poderão contribuir para que o país realmente se desenvolva. Segundo o grupo, nada é mais importante, neste momento, do que uma reforma política, para melhorar a qualidade do Congresso Nacional. Essa seria a mãe de todas as reformas.
Ora, se nem esse grupo localizado no topo de nossa estrutura social está satisfeito com a produção de deputados federais e senadores e com o chamado custo-benefício de sua atividade, não é de se espantar que nós outros tamos com raiva.
Há 24 dias fiquei puto com esse Chinaglia que preside a Câmara dos Deputados, porque ele defendeu, em entrevista à imprensa, a autorização da Mesa Diretora para gastar R$ 29,5 milhões na reforma de 96 apartamentos funcionais que servem de abrigo, em Brasília, a deputados federais. Dei-me ao trabalho de escrever um artigo para este blog, esperando não ter que voltar a Arlindo Chinaglia (PT-SP) tão cedo.
Mas não! Ontem ele reuniu repórteres para defender outra decisão da Mesa Diretora por ele presidida, tomada dia 10 deste mês. Leio em “O Tempo”:
O presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), reagiu ontem às críticas ao aumento na verba de gabinete dos 513 deputados, que subiu dos atuais R$ 50,8 mil para R$ 60 mil. Na opinião de Chinaglia, aqueles que criticam o reajuste buscam a platéia fácil e devem defender publicamente a demissão em massa dos servidores.
"Ou você demite para fazer economia, ou não repõe as perdas para fazer suposta economia. É preciso então considerar se deve haver ou não Congresso porque, às vezes, tenho a impressão que estes que gostam do holofote fácil muitas vezes escolhem atacar o Congresso, que é elemento vital da democracia em qualquer país do mundo", disse.
Sem dúvida: o Congresso é elemento vital da democracia, desde que ele funcione bem. Do contrário, pode ser um perigo ao regime democrático. Se em vez de representar a população em sua diversidade – mas que em média ganha menos de 1.300 reais por mês – cuidar apenas de seus próprios interesses, dos interesses dos parentes e amigos, o Congresso torna-se um dos pretextos para a instalação de ditaduras, como ocorreu muitas vezes ao longo de nossa história.
A alegação para conceder o reajuste da verba de R$ 50.800 mensais para cada um dos 513 deputados – com a qual eles podem contratar de cinco a 25 funcionários, com salários que hoje variam de R$ 415 a R$ 8.200 – é de que o último aumento havia sido em 2005, e que os auxiliares dos deputados (escolhidos sem concurso público) merecem um reajuste acima da inflação do período.
A justificativa não comove, por exemplo, a maioria dos aposentados pelo governo de Minas que há no mínimo oito anos não tem reajuste no valor de suas aposentadorias e pensões, para que Aécio Neves possa ostentar país afora um invejável superávit nas contas públicas do Estado.
A indignação cresce, quando se sabe que esses funcionários agora beneficiados são parentes de deputados federais ou cabos eleitorais e que, não raro, parte do dinheiro vai para o bolso do próprio deputado que sabe que bom cabrito não berra. São deputados que recebem mensalmente, além da verba de gabinete de 60 mil reais: um salário-base de 24,5 mil reais, um auxílio-moradia de 3 mil, uma verba indenizatória de 15 mil (invenção de Aécio Neves, quando presidente da Câmara dos Deputados), uma cota postal e telefônica de 4,2 mil e quatro passagens de avião, ida e volta, para seus estados.
E que se dizem representantes de uma população cuja renda per capita não passa de 800 dólares por mês e em que a maioria dos trabalhadores recebe salário-mínimo de 415 reais.
"Estamos só fazendo um ato de justiça", disse ontem Chinaglia.
É um cínico. De acordo com O Globo, o reajuste vai representar um aumento na folha de pagamento da Câmara dos Deputados em cerca de 54 milhões de reais. É muito dinheiro para quem faz tão pouco para o país.
Tivemos nesta semana mais uma cena da eterna tragédia brasileira, a da impunidade. Encenada, mais uma vez, pela Polícia Federal. A peça agora se chama Operação Pasárgada, na qual foram presas 51 pessoas em Minas, na Bahia e no Distrito Federal. Entre os presos, 16 prefeitos, um juiz federal e um gerente da Caixa Econômica Federal.
"Vou-me embora pra Pasárgada / Lá sou amigo do rei", diz o famoso poema de Manoel Bandeira musicado pelo ministro Gilberto Gil. O nome da operação não podia ser mais bem escolhido. Os presos nem precisam ir embora pra Pasárgada. A própria polícia, ao divulgar uma operação que, segundo a justiça, deveria ser sigilosa, deu o tom e o compasso para a impunidade orquestrada por qualquer bom advogado sob a batuta dos juízes. E da lei, é claro!
A Pasárgada é aqui.
Não faz muito tempo, este blog noticiou a prisão, pela Polícia Federal, de um empresário importante do Sul de Minas, o dono da "Ilha de Caras". Noticiamos, porque a imprensa não o fez. E fez bem em não fazê-lo, porque nenhuma conseqüência se registra, até agora, daquela ação da Polícia Federal. Mas não foi por isso que a imprensa não divulgou. Não divulgou, talvez, porque o empresário preso fosse alguém muito importante. Não é qualquer pessoa que é dono da "Ilha de Caras"...
Então, o que fez agora o "Estado de Minas" e outros jornais mineiros, normalmente avessos a tais incursões contra juízes e prefeitos, correrem atrás da notícia? Uma boa pergunta. Mais uma vez, diga-se de passagem, a Polícia Federal deu a notícia em primeira mão ao jornal "Estado de Minas", e os outros tiveram que correr atrás do prejuízo. Entre eles, com algum destaque, a "Folha de S. Paulo". Ainda há competição entre os jornais, embora isso nem sempre fique muito claro para os leitores.
Um mistério: por que, no dia seguinte, a notícia desapareceu da "Folha de S. Paulo"? Não vou perder meu tempo procurando o motivo, pois, logo ela terá desaparecido de toda a imprensa. São os passos normais da impunidade que reina por aqui com a complacência de todos nós. O assunto não ficará esquecido apenas pela imprensa, mas pela Polícia Federal, Promotoria Pública, Justiça e, mais grave, pelos eleitores.
O esquecimento talvez explique porque um dos prefeitos presos, Carlos Alberto Bejani (PTB), de Juiz de Fora, tenha sido eleito deputado estadual e mais uma vez prefeito de sua cidade, depois de ter saído da prefeitura, na primeira gestão, com fama de enriquecimento ilícito. Agora, segundo a Polícia Federal, ao ser preso, ele tinha em casa R$ 1,12 milhão em dinheiro vivo e um revólver de uso exclusivo das Forças Armadas, duas pistolas e duas carabinas, conforme relato de Paulo Peixoto, da Agência Folha em Belo Horizonte. "No sítio do petebista, ex-deputado estadual, a PF apreendeu dois caminhões, uma camionete, um jipe, três quadriciclos e uma moto – a polícia vai checar se os rendimentos de Bejani são compatíveis com os bens", acrescenta o repórter.
Até as almas do purgatório sabem que não, mas nem por isso Bejani vai para o inferno, se depender de nosso judiciário.
Pois no Brasil, do mesmo modo que em Pasárgada ("Lá a existência é uma aventura / De tal modo inconseqüente / Que Joana a Louca de Espanha / Rainha e falsa demente / Vem a ser contraparente / Da nora que nunca tive", parece lamentar o poeta), as leis se aplicam a muitos, mas não à população mais rica e aos seus representantes nos três poderes da República.
República... Eta palavrinha mal empregada neste país!
Um país em que a lei diz que não pode haver nepotismo no Executivo, no Legislativo e no Judiciário. Mas vemos que um dos prefeitos presos, Ademar José da Silva (PSDB), tem uma irmã como chefe de divisão da Secretaria Municipal de Ação Social e sua mulher é subsecretária de saúde.
Mais duas que não precisam ir para Pasárgada. Em Vespasiano, são amigas do rei.
O rei de Vespasiano foi preso no aeroporto, quando voltava de Brasília num jatinho. Claro, rei que se preza não anda em avião de carreira...
De acordo com a "Folha de S. Paulo", a Polícia Federal descobriu que as prefeituras contratavam sem licitação um escritório de advocacia que entrava com mandado de segurança na Justiça Federal alegando que o INSS estava retendo valores superiores aos 6% do Fundo de Participação de Municípios, "o que não era verdade". E acrescenta:
Se o percentual alegado fosse 9%, o juiz determinava a liberação dos 3% excedentes. O dinheiro era usado para pagar a todos os envolvidos no esquema. No caso do juiz, segundo a PF, havia venda de sentenças e suspeita de distribuição irregular de processos. Ele recebia "em dinheiro vivo mesmo, isso está comprovado", segundo o delegado Aguiar. Os lobistas também contatavam os magistrados, e servidores da Justiça remetiam os processos sempre para as mesmas varas: "O lobista oferecia a esses juízes vantagens indevidas para que eles concedessem as sentenças. As ações eram distribuídas em duas varas de forma fraudulenta", disse Aguiar. Um gerente da Caixa Econômica Federal em Belo Horizonte, sócio de um dos principais lobistas, era o "elo" entre o Judiciário e os advogados. Segundo a PF, seria ele o responsável por fraudar documentos.
Paro por aqui essa história, para poupar meu tempo e o dos leitores. É um caso fadado a dar em nada e a ser esquecido logo. Se não o for, a decisão da justiça vai demorar tanto, mas tanto, que, quando sair, todos nós estaremos mortos. Enquanto isso, os culpados, é claro, vão continuar por aqui.
Pois, na Pasárgada, quem sabe, não são amigos do rei...
Na última quinta-feira, dia 3, houve um confronto entre policiais militares e universitários no Instituto de Geociências (IGC) da UFMG. Eu não estava lá. Mas conhecidos estavam e, a partir de alguns relatos, é possível fazer uma pequena reconstituição dos fatos (com base em versões parciais, claro):
Na quinta-feira, alguns estudantes do IGC, e pelo menos um professor, exibiram no prédio um documentário chamado "Grass Maconha", do canadense Ron Mann. O filme discutia questões polêmicas em relação ao uso da droga e argumentava, por exemplo, que sua proibição ocorre em razão de interesses econômicos e políticos. Pode ser encontrado nas bancas. Já tinha sido exibido anteriormente na UFMG.
Cerca de setenta alunos assistiam ao vídeo, embora a diretoria do IGC tivesse desautorizado sua exibição. Segundo Cristina Augustin, diretora do Instituto, a exibição foi proibida porque "Não fomos oficialmente avisados. Por isso achamos por bem proibir. Não foi porque o vídeo era sobre drogas". Augustin pediu reforço na segurança do prédio. Aí entra o pomo da discórdia: segundo a PM, vigilantes do prédio foram impedir a exibição e, ameaçados pelos alunos, chamaram a polícia. Mas é possível que a própria diretoria do IGC ou a Reitoria tenham pedido reforços da PM.
Com isso, iniciou-se um tumulto: um aluno foi preso "por desacato", pelo menos dez outros foram agredidos (inclusive um professor, que aparece em vídeo discutindo com os policiais) e pelo menos dois deram entrada em pronto-socorro. Também não dá pra ter certeza se foi a PM ou os alunos que iniciaram o tumulto. Mas, segundo informação de um estudante do 6º período de Ciências Sociais que viu "pessoas com hematomas", a PM entrou lá dentro, fechou acesso ao IGC, enquanto "estudantes foram à Reitoria pedir ajuda e foram barrados na portaria. A polícia Universitária não fez nada enquanto estudantes, professores e funcionários corriam da PM." Uma coisa me parece evidente: a ação da Polícia Militar foi desproporcional: ela apareceu com várias viaturas, camburão e até helicóptero (!).
Algo está errado. Dez agressões e uma prisão porque um bando de estudantes via um documentário que pode ser comprado nas bancas? O que justifica esse tumulto? Censura? Abuso de autoridade? A alegada "apologia às drogas"?
A seguir, nota da vice-reitora da UFMG sobre o ocorrido (uma versão):
"À COMUNIDADE UNIVERSITÁRIA sexta-feira, 4 de abril de 2008, às 11h44
No dia 2 de abril, p.p., a Reitora em exercício, Professora Heloisa Maria Murgel Starling, recebeu o ofício IGC nº 086/2008, da Diretora do Instituto de Geociências, no seguinte teor: "Conforme documentação anexa, enviada à Procuradoria Jurídica, informamos que está programada a exibição do filme 'Grass Maconha' na arena deste Instituto de Geociência, amanhã – 03 de abril, às 17h30. Esclarecemos que esta atividade não foi autorizada pela Diretoria, conforme e-mails enviados ao Diretório Acadêmico, que informou não ser responsável pela programação do mesmo. Em função da demonstração do discente Wander Lúcio Mourão Júnior – matrícula 2003022630, que não é integrante do Diretório Acadêmico, em permanecer com os cartazes afixados e afirmar que a exibição do referido filme seria mantida, solicitamos o reforço da segurança universitária nas dependências desta Unidade no dia 03 de abril, a partir das 17 horas."
Ao ofício acima mencionado foi aposto o seguinte despacho pela Chefia de Gabinete: "De ordem da Reitora em exercício, autorizo que a chefia de Segurança da UFMG garanta o cumprimento da deliberação da Diretora do IGC."
No final da tarde de ontem, 3 de abril, a Reitoria tomou conhecimento de que a ordem da Diretora do IGC não havia sido respeitada. Ocorria tumulto naquela Unidade Acadêmica, com intervenção da Polícia Militar, agressões entre os presentes, um estudante detido por desacato à autoridade e dois outros encaminhados ao Pronto Socorro, com escoriações.
Frente a tais fatos, a Reitora em exercício imediatamente tomou as seguintes providências: a) entrou em contato com o Comando da Polícia Militar para esclarecer o ocorrido; b) solicitou a presença da Diretora do IGC ao Gabinete para mais esclarecimentos; c) solicitou que o Procurador-Geral, Professor Fernando Jayme, acompanhasse o registro policial relativo ao estudante detido, na Delegacia Adida ao Juizado Especial Criminal – DAJEC; d) solicitou que o Assessor Especial da Reitoria para a área de Saúde, Professor Paulo Pimenta de Figueiredo Filho, acompanhasse os estudantes em atendimento no Pronto Socorro.
A Reitoria lamenta que tais fatos, inteiramente estranhos à civilidade que caracteriza o ambiente acadêmico, tenham ocorrido; repudia qualquer ação de violência praticada; informa que não autorizou nem a presença nem a ação da Polícia Militar e esclarece que serão tomadas providências para apuração dos fatos e das responsabilidades.
Heloísa Maria Murgel Starling
Vice-reitora da UFMG"
Agora, relato, feito especialmente para o Tamos com Raiva, do estudante de 9º período de Ciências Sociais Ramiro Queiroz, que esteve presente na reunião de ontem, que durou oito horas, no prédio da Reitoria, para discutir o tumulto (outra versão):
"A OCUPAÇÃO DA REITORIA DA UFMG 07/04/2008
Até o principio do dia de ontem (06/04/08), poucas notícias apontaram o ocorrido do dia 03/04, quando policiais invadiram a Universidade Federal de Minas Gerais e cercaram o Instituto de Geociências (IGC). O resultado foi mais de dez pessoas feridas, uma entrada no hospital de uma estudante com corte na cabeça e um estudante preso, por conta da violência policial.
O princípio de tudo (ou a falta de princípio) foi a proibição por parte da diretora do IGC, Cristina Augustin, no debate em torno de um filme, "Grass Maconha", produzido pela revista Superinteressante e Editora Abril. Com a justificativa de atrapalhar as aulas e não ter "um responsável" pela exibição, a diretora pediu reforço da segurança interna da Universidade para que assegurasse o cumprimento da ordem. Que fique claro que não direi que a desordem começou quando um aluno foi preso, acusado de desacato à autoridade policial (veja vídeo). Pelo contrário, a desordem começou justamente na proibição de um filme, no pedido de reforço de segurança interna, e na presença da PM do Estado de Minas Gerais. Policiais e universitários são elementos que não se cheiram. Todos sabemos disso, justamente por policiais brasileiros não serem acostumados a terem autoridade questionada. Aproveitando que esse espaço é livre, questiono: que poder tem um policial de cercar uma Universidade?
Sobre este acontecimento, e questões associadas aos direitos humanos e liberdades individuais, pouca coisa apareceu nos meios de comunicação. No máximo, uma nota ou matéria falando sobre o filme da maconha, o debate da maconha etc. O estudante, inclusive, foi fichado por "apologia às drogas, desacato, resistência à prisão", segundo relato dele hoje, em frente ao reitor, à vice-reitora, às diretoras do IGC e a outras 300 pessoas.
Não, não estamos numa Universidade em que o reitor recebe tranqüilamente 300 pessoas em um auditório. Para isso, foi absolutamente necessária a ocupação do prédio da reitoria. Processo que acompanhei desde seu início, com a concentração às 12h, até seu fim, quando saí do prédio, às 21h.
Não sei exatamente quando começou a ocupação, mas foi entre as 14h e 15h. Pelo menos duas horas depois de os alunos chamarmos pela presença do reitor à audiência pública, depois de recusarmos uma comissão representativa.
A pauta principal foi (e nisso os meios de comunicação não erraram) a proibição da entrada da PM na UFMG. Erraram no que se relaciona à quantidade de pessoas na ocupação: foram mais de 300 estudantes. Na comunicação institucional da UFMG, a neutralidade jornalística é clara: segundo eles, éramos cem estudantes. No portal UAI: 200 pessoas. Para provar que a melhor Universidade de Minas não garante, necessariamente, uma comunicação menos medíocre do que a do melhor jornal de Minas. É claro que não temos, em Minas, uma pluralidade que qualifique o "melhor" em tão alto grau assim.
Para provar o número de pessoas, vai outra informação da UFMG: "A assembléia decidiu pela manutenção da ocupação da reitoria. Foram computados 161 votos em favor da permanência dos alunos e outros 93 contra". Acho que estou ruim de aritmética: 161+93=254. Como estava na votação sobre a continuidade da ocupação, questionaria ainda este último fato. Lembro que ouvi a vitória da continuidade da ocupação dos alunos (sim, estava lá e ouvi, com os ouvidos que a terra há de comer) com pelo menos o dobro de votos. Como a desocupação foi votada por mim, fiquei atento ao fato de que a ocupação ganhou com quase 200 votos. Agora vou pedir revisão, afinal de contas, para tal resultado, os cem votos da assessoria de comunicação da UFMG teria de ser somado aos 200 votos do portal UAI (atenção: tanto o portal UAI quanto a assessoria falam em 200 e cem na invasão. Alguém se pergunta como todos estariam dentro do auditório e, ao mesmo tempo, teriam votado?!). Mais de 300 estudantes, fácil, fácil... Vejam as fotos nos links acima, e me digam se só havia cem estudantes.
Mas enfim, foi legítimo. Não tenho de questionar a deliberação de quase 300 estudantes. Amanhã, 8 de Abril, às 16 horas, o Conselho Universitário se reunirá. Já foi dado um recado em nota oficial da reitoria:
"Certos de que o apelo à razoabilidade dos estudantes possa encontrar eco junto aos manifestantes que ocupam o saguão da Reitoria, o Reitor e a Vice-Reitora esperam que ocorra a desocupação do espaço institucional e, na normalidade da atividade acadêmica, seja possível encaminhar as providências necessárias ao esclarecimento dos fatos e ao exame das reivindicações apresentadas."
Se eu fosse Reitor, não brincaria com isso. Depois de um final de semana – notemos o tanto que é difícil mobilizar as pessoas no fim de semana –, tivemos hoje 300 pessoas durante mais de oito horas na reitoria. Será que não chegarão outros estudantes durante a semana? Acho que sim.
Mas o que acho não importa. Afinal de contas, na sexta, achei que isso tudo não daria em nada. Mesmo eu permanecendo o dia todo por conta de assembléias e reuniões. E eu nunca fui um membro de movimento estudantil. Acredito que esta foi a maior mobilização em vários anos da UFMG. Pelo menos depois de meus nove períodos de curso de graduação. Fazia tempo que não via um movimento realmente apartidário. Tudo por conta de "um filme" e de um espaço que todos consideravam como seguro e livre da violência policial."
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O senador Álvaro Dias (PSDB-PR), mesmo depois de desmascarado, bem que tentou negar que fosse o responsável pela divulgação do "dossiê" – eta palavrinha abusada! – atribuído à ministra Dilma Rousseff ou ao seu gabinete. "Não é isso que se discute", disse ele, ao ser indagado se havia entregado o texto a jornalistas para que fosse divulgado. "A discussão deve ser sobre quem é o responsável pelo dossiê e qual será a punição para ele. Discutir esse tipo de coisa é fazer o jogo do governo".
Ora, quem diria; estou eu aqui a fazer o jogo do governo... Mas vamos dar um pouco mais de corda ao nobre senador, e para isso continuo me valendo do Blog do Noblat. Frente à questão "os senadores governistas já dizem que a oposição passou de vítima a algoz com a notícia de que foi o senhor o responsável pelo vazamento", respondeu o senador: "O governo, se pudesse, prendia quem denuncia e soltava o bandido".
Talvez não fosse esse o desejo do governo, em relação ao senador. Mas seria justificável se o presidente Lula ou a ministra Dilma Rousseff reagissem como Jussara Seixas, num comentário ao artigo anterior deste blog. Disse ela:
"Não podemos nos calar diante de tanta canalhice. Vamos mostrar a nossa força. CASSAÇÃO JÁ! O senador Álvaro Dias, do PSDB, cometeu quebra do decoro parlamentar e vários crimes contra o país. Divulgou dados sigilosos para a imprensa, mentiu, omitiu, manipulou informações. Ocupou a pauta do Senado mediante fraude, desviando a instituição de suas atividades precípuas. Tramou para enxovalhar a honra de uma cidadã digna e tentou afastá-la do Ministério com um embuste. Enganou o povo, jogou sujo, menosprezou o próprio mandato. Quando os documentos irregularmente desviados de um banco de dados sigiloso chegaram até suas mãos, deveria ter procurado a Casa Civil, mostrado para a ministra Dilma, ter informado a ela como os obteve e pedido esclarecimentos, pois eram documentos sigilosos. Ao invés disso, procurou a imprensa às escondidas e, em mancomunação com jornalistas inescrupulosos, usou os tais".
Provavelmente muito mais velho que Jussara, não tenho sua veemência verbal, mas posso compreender bem seus sentimentos. Conhecendo razoavelmente bem os nobres senadores, duvido que eles se mobilizem para cassar o tucano Álvaro Dias. Se começassem a fazer isso, talvez não sobrasse pedra sobre pedra no Senado de José Sarney, Eliseu Resende e... não vou me cansar nomeando todos aqueles que não me merecem qualquer respeito.
Alguns mais explícitos, como o líder do DEM no Senado, José Agripino Maia, já partiu para a defensiva: "Não interessa quem vazou o dossiê para a imprensa, mas quem fez", pontificou ele, numa frase destacada em seu blog pelo jornalista Ricardo Noblat, que parece concordar com ela. Certamente, a maioria dos senadores concorda.
E não podemos reclamar. Afinal, fomos nós que os elegemos!
Aliás, podemos reclamar, e vamos continuar fazendo exatamente isso. O "dossiê" que Álvaro Dias fez chegar às mãos de um repórter – o qual, na minha opinião, cumpriu sua obrigação de divulgá-lo, pois o assunto, jornalisticamente falando, é interessante – está incompleto, segundo Ricardo Noblat. Ele divulga hoje em seu blog a íntegra do que foi revelado pelo senador tucano. Nas 13 páginas da planilha divulgada, com gastos dos anos de 1998, 1999 e 2001, são listadas 35 despesas feitas pela professora Ruth Cardoso, mulher de Fernando Henrique Cardoso, somando pouco mais de 53 mil reais. Com exceção de um porta-retrato no valor de 100 dólares dado de presente a um oficial colombiano, as despesas da ex-primeira-dama são relacionadas com aluguel de carros.
Ou seja, a parte divulgada pelo senador tucano em nada compromete dona Ruth ou o marido. Esperto, o senador tucano... Será o que havia na parte não divulgada, relacionada aos anos 2001 e 2002, quando FHC fazia de tudo para derrotar Lula nas eleições?
O senador Álvaro Dias alega ter direitos constitucionais para não revelar quem lhe entregou o "dossiê". A líder do PT, Idelli Salvatti (SC), acha que não é bem assim. Ela questionou o colega, em plenário, na tardinha de ontem: "Tem que dar nome a quem estava aqui dentro do Congresso com os documentos, é o único jeito de resolver esse caso. Ele não é obrigado a preservar a fonte. Ele apenas pode fazer isso", disse a senadora catarinense. Na cara-de-pau, o colega do Paraná retrucou: "Não permito a senadora Idelli Salvati me questionar. Se eu soubesse quem vazou o dossiê do Palácio do Planalto eu diria. Mas eu não sei. Só sei que a culpada maior é a chefe da Casa Civil, ministra Dilma Rousseff, de onde partiu o dossiê".
Vamos aguardar o desenrolar dos acontecimentos para saber – se é que jamais saberemos – quem é o culpado maior... Li hoje no Globo que a presidente da CPI do Cartão Corporativo, senadora Marisa Serrano (PSDB-MS), vai encerrar os trabalhos da comissão. Ela comunicou a decisão à bancada governista ontem à noite, em reunião reservada com o relator, deputado Luiz Sérgio (PT-RJ), e o principal articulador da base, deputado Paulo Teixeira (PT-SP).
Nada como ter um tucano no alvo, para assistir a uma bela revoada dessas aves predadoras, não é mesmo?
Para terminar, só uma pergunta: por que Cartões Corporativos? Isso, talvez, possa nos explicar melhor o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, o criador do monstrengo!