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Mais sobre a censura do governo Aécio


Não faz muito tempo que divulguei por este blog o vídeo "Liberdade, essa palavra", sobre a censura praticada pelo governador Aécio Neves. O vídeo ilustra uma grande pesquisa que fiz sobre um dos preferidos para a candidatura à presidência em 2010. Vale ler, caso ainda não tenha feito isso.

Depois de lido, assista a este novo vídeo, que descobri somente hoje:



Feito pelo documentarista Daniel Florêncio, para a Current TV, o filme já foi exibido nos Estados Unidos e Inglaterra. Norte-americanos e ingleses puderam conhecer um pouco melhor do Aécio que não chega até nós pela imprensa mineira.

Do Aécio que tem muita chance de virar presidente da República em 2010 ou 2014.

Assistam, com muita atenção, e ajudem a divulgar. São só 8 minutos e meio, mas um bocado de informação inédita para muitos de nós.

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Atenção: vídeo legendado.

Quinta-feira, Maio 29, 2008 [ Fala aí: ]EMAIL

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Um ministro sem ética



Os mineiros têm pelo menos uma dívida de gratidão para com o ex-governador Hélio Garcia. Por duas vezes, ele derrotou Hélio Costa em eleições para governador (em 1990, diretamente, e em 1994, apoiando Eduardo Azeredo), livrando-nos de mais um mau governo estadual. Porque não se pode esperar outra coisa de um político que emprega o filho no gabinete de um colega senador por longos cinco anos, pouco se lixando se o filho nunca pisou no Senado para trabalhar. Reportagem da Folha de S.Paulo em 22 de maio descobriu que Eugenio Alexandre Tollendal Costa ganha R$ 2.649,46 de salário mensal – pago por nós, contribuintes – trabalhando como pseudo-assistente parlamentar, enquanto era empregado da filial da TV Globo em Juiz de Fora.

No currículo do ministro das Comunicações, disponível no site do Ministério, afirma-se que Hélio Costa é "membro do Diretório Municipal do MDB, Barbacena, MG, desde 1972". Não é a única esquisitice desse longo currículo, sabendo-se que, na primeira disputa para governador, Hélio Costa estava no PRN e, na segunda, no PP. Referindo-se à segunda derrota, quando o governador Hélio Garcia apoiou o tucano Eduardo Azeredo, diz o texto: "os mineiros foram prejudicados pelo abuso da utilização da máquina do Estado, manipulada pelos que a detinham e pretendiam perpetuar o seu grupo no poder".

Curiosamente, foi uma queixa parecida com a que ouvi de Hélio Garcia, em 1991, quando ele descansava em sua fazenda de Santo Antônio do Amparo. Só que o candidato eleito se queixava do apoio da TV Globo ao adversário durante a campanha. Eu era então repórter de O Globo e tive que dizer a Hélio que eu também detestava a televisão dos Marinhos, para que ele continuasse a conversa (conto o episódio no livro "Sucursal das Incertezas", neste blog.). Curiosamente, o currículo do ministro não diz, em nenhum momento, que ele foi funcionário da TV Globo nos Estados Unidos. Apenas, que ele foi para lá depois de passar num concurso para trabalhar na Voz da América e depois, como repórter, viajou por 73 países em quatro continentes. Para muitos que ainda se lembram das reportagens de Hélio Costa no Fantástico e no Jornal Nacional, não faz sentido ele querer disfarçar sua umbilical ligação com a Globo.

Uma boa aposta: a TV Globo vai ou não tratar do caso de nepotismo denunciado pela Folha de S. Paulo, envolvendo um filho do ministro das Comunicações? Quem apostar na primeira hipótese estará apostando num azarão. É mais provável que o tratamento seja o mesmo de quando, no mês passado, Hélio Costa levou os sogros e cinco assessores do Ministério das Comunicações para uma feira sobre TV nos EUA ou de quando ele foi acusado, em janeiro deste ano, de ter transferido uma rádio FM que estava em seu nome para seu chefe-de-gabinete. Aí um resumo do que informou o jornal:

No caso da feira em Las Vegas, os parentes de Costa viajaram em um pacote promocional da Aesp (Associação das Emissoras de Rádio e Televisão de São Paulo), exclusivo para emissoras de rádio, ao custo individual de R$ 2.700 a R$ 4.000, segundo a Aesp.

O ministério diz que os sogros de Costa custearam seus gastos. Já o ministro e os assessores tiveram as despesas pagas pelo governo (R$ 83.500). Em relação à rádio Sucesso FM, de Barbacena (MG), Costa era seu antigo sócio majoritário, mas, ao ingressar no governo Lula, em 2005, foi aconselhado pela Comissão de Ética Pública a tomar medida que evitasse conflito de interesses. Em 2006, ele divulgou ter vendido sua participação na emissora. A FM pertence ao chefe-de-gabinete do ministro, José Artur Filardi Leite, mas está registrada em nome de sua mulher, Patrícia Neves Moreira Leite. Ela é funcionária comissionada do Senado. Segundo o registro oficial do ministério, Leite não detém participação em emissoras. A assessoria de Costa diz que ter uma rádio registrada em nome da mulher de seu chefe-de-gabinete não é "eticamente incompatível". Para Leite, a aquisição não fere a lei.


A longa carreira política de Hélio Costa mostra que a incompatibilidade dele é com a ética. E ele deve saber o que é ética. Seu currículo não fala dos estudos que ele fez. Diz apenas que na época em que trabalhava em Washington na Voz da América, ele "estudou Arts and Sciences, na Universidade de Maryland, curso equivalente ao de filosofia no Brasil". Aqui, qualquer curso de filosofia não dispensa a disciplina ética...

Por exemplo, não é ilegal, mas é pouco ético, que alguém seja eleito senador e passe uma rasteira nos eleitores, deixando a vaga para um suplente que nem é mineiro, nunca morou em Minas e não teve um voto sequer de um mineiro para ocupar uma das três cadeiras de Minas Gerais no Senado. Estou me referindo ao "senador" Wellington Salgado (PMDB-MG), suplente de Hélio Costa, que se aboletou na cadeira desde que este assumiu o ministério das Comunicações. Por sinal, Salgado é um dos dois senadores (o outro é Epitácio Cafeteira, do PTB do Maranhão) que votaram contra a Proposta de Emenda Constitucional que acaba com o nepotismo nos três poderes, aprovada agora pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Certamente, o suplente sabia da situação do filho do amigo, daí ter votado contra.

Mas, qual é a situação do filho do amigo? Vou fazer um resumo da reportagem de Andreza Matais e Adriano Ceolin na Folha de S. Paulo. Eugenio Alexandre (ele é último dos quatro filhos do ministro no primeiro casamento; ele tem mais dois filhos do segundo casamento) foi contratado em 13 de junho de 2003 para assessorar o senador Duciomar Costa (PTB-PA), que em 2004 foi eleito prefeito de Belém, e foi mantido no cargo de assistente parlamentar pelo suplente, o senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA), com salário de R$ 2.649,46 por mês. "Nunca falei com ele. Não o conheço, não sei onde ele mora", disse o tucano ao repórter.

Eugenio vive em Juiz de Fora (MG). O jornal ouviu várias pessoas no gabinete de Flexa Ribeiro que nunca viram o filho do ministro no local. Entre abril de 2007 e fevereiro de 2008, o filho do ministro trabalhou na afiliada da TV Globo em Juiz de Fora, pertencente às Organizações Panorama. O departamento de recursos humanos da empresa confirmou que Eugenio foi contratado, com carteira assinada, como designer.

Eugenio disse, no entanto, que só "prestou serviços" à afiliada da Globo. O currículo de Hélio Costa diz que Eugênio é advogado em Barbacena. Ao jornal, ele contou que se formou, em dezembro de 2007, no curso de comunicação social da Faculdade Universo de Juiz de Fora, que pertence à família do senador Wellington Salgado. Enquanto estudava em Juiz de Fora, era assessor parlamentar em Brasília.

O senador Flexa Ribeiro, por sua vez, disse que manteve Eugenio no cargo a pedido do prefeito de Belém e que soube que o rapaz era filho de Hélio Costa há apenas um ano e meio. Disse que Eugenio nunca fez nenhum tipo de trabalho para ele, mas sim para o atual prefeito de Belém. Mas Duciomar afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que nunca contratou nenhum funcionário com o nome de Eugenio no período em que foi senador e nem pediu para que seu suplente o mantivesse no cargo. "Não o conheço. Nunca trabalhou comigo". Engraçado ele negar, já que o ato de nomeação demonstra que foi o então senador Duciomar Costa que contratou Eugenio. Este disse que trabalhou para Duciomar e que, atualmente, serve ao senador Flexa Ribeiro. Em princípio, disse que era advogado e que prestava assessoria parlamentar. Depois, afirmou que atuava como assessor de comunicação. E, ao contrário de Flexa Ribeiro, que disse nunca ter conversado com o funcionário, afirmou que fala com ele freqüentemente. "Eu falo com ele [Flexa] pelo telefone, pela internet", disse. "Eu cuido da divulgação da página do senador Flexa. As matérias que saem, eu ajudo a dar uma filtrada".

Hélio Costa não foi encontrado pelo jornal. (Eu não o procurei.) E a direção-geral do Senado afirmou que os senadores podem manter assessores de confiança em qualquer parte do país. Ah, bom!

Flexa Ribeiro decidiu exonerar Eugenio, depois da repercussão da notícia. Mas ele não precisa se preocupar com a perda do emprego. Wellington Salgado disse que avalia a possibilidade de contratar o filho do ministro. "Vou ver se a minha home page está precisando ser atualizada. Ele [Eugenio] é bom nisso", disse aos mesmos repórteres.

Com colegas desses, espanta que um senador honesto como Jefferson Péres tenha resistido tanto, antes de morrer, anteontem, de ataque cardíaco, aos 76 anos. Ele já havia anunciado que não se candidataria mais. Estava desiludido com o Senado. Em agosto de 2006, Péres desabafou: "Vejam que País é este. Estamos aqui com seis Senadores em pleno mês de agosto, porque estamos em recesso branco. Estamos aqui no faz-de-conta. Este é o País do faz-de-conta. Estamos fingindo que fazemos uma sessão do Senado, estamos em casa sem trabalhar. Tenho quatro anos de Senado. Não me candidatarei em 2010, não quero mais viver a vida pública. Vou cumprir o mandato que o povo do Amazonas me deu, não vou silenciar".

Pois é. Vamos continuar falando por ele nesse Tamos com Raiva (felizmente, não no Senado!), enquanto pudermos.

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Foto: www.ufmg.br


Domingo, Maio 25, 2008 [ Fala aí: ]EMAIL

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E o pior é que homofobia não é crime



Semana passada escrevi sobre racismo, mas me esqueci de apresentar a vocês a lei número 7.716, feita em 1989, que define que racismo é crime.

Pois bem. Sábado passado, em 17 de maio, o mundo inteiro comemorou o Dia Mundial Contra a Homofobia. Mas, no Brasil, o projeto de lei que define que homofobia é crime não consegue ser aprovado de jeito nenhum.

Trata-se do PL nº 122/06, da deputada petista Iara Bernardi, que apenas acrescenta a discriminação à orientação sexual do rol de crimes estabelecidos pela lei do racismo e detalha como se dá a homofobia e como ela deverá ser punida. O primeiro artigo é irretocável: "Define os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero". Ele já foi aprovado pela Câmara, mas está no Senado desde dezembro de 2006.

Acompanhando sua tramitação pelo site do Senado, vemos que a relatora Fátima Cleide (PT-RO), das Comissões de Direitos Humanos e de Assuntos Sociais, sempre foi favorável à aprovação do projeto. Por outro lado, hoje mesmo o senador Magno Malta, do PR, um partido de evangélicos, já apresentou um voto em separado pela rejeição do projeto. E o senador (e candidato à prefeitura do Rio) Marcelo Crivella, bispo da Igreja Universal, acrescentou dez emendas que atrasarão mais uma vez a aprovação do projeto.

Em Cuba, país de "machões", tachado de ultraconservador por todos, a filha de Raúl Castro articula a aprovação da união civil de gays e o presidente do Parlamento discursa pelo fim da homofobia na ilha.

No Brasil, país do Carnaval, onde não se admite a existência nem de racismo nem de homofobia, homossexuais são espancados em plena avenida Paulista pelo simples fato de serem gays.

O grupo de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais (GLBT) vai fazer a 12ª parada de orgulho gay em São Paulo, neste sábado (25). Que este não seja só um momento para os homossexuais chamarem a atenção para seus problemas, mas para que toda a sociedade perceba que homofobia é uma questão social. Vamos mandar e-mails para os senadores pedindo pela aprovação de um projeto tão básico como o 122/06. Não vamos votar em candidatos que preferem seguir o lobby religioso (não só evangélico, mas também católico), em vez de trabalhar por um Estado laico. Todos temos que lutar para que cenas de espancamento covarde, como o do professor universitário Alessandro Faria Araújo (veja foto só se tiver estômago), sejam substituídas pela simplicidade colorida e equilibrada do arco-íris que ilustra este post.

Quinta-feira, Maio 22, 2008 [ Fala aí: ]EMAIL

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Matar ou morrer?



Não sei quantas vezes li – e quantas vezes eu mesmo escrevi – que os jornais deixaram de investir em grandes reportagens. Portanto, preciso comemorar a reportagem que a Folha de S. Paulo publicou ontem, assinada por Raphael Gomide, repórter da sucursal do Rio. Ele fez em junho de 2007 um concurso para ingressar no Curso de Formação de Soldados da PM. Eram 25 mil candidatos fazendo provas no Maracanã, na primeira etapa, e ele foi aprovado em 67º lugar, nas provas de português, redação e matemática. O objetivo era conhecer o perfil de quem se aventura a enfrentar a morte diariamente, por R$ 909,49 mensais brutos e estabilidade no emprego.

O principal aprendizado, no curso, é como permanecer vivo. Diz Gomide, na abertura da reportagem: "Em 2007, 151 PMs foram assassinados no Estado, um a cada 2,5 dias. As polícias do Rio mataram 1.330 pessoas (recorde histórico), média de 3,64 por dia."

Para apurar, o repórter trabalhou como recruta entre os dias 3 e 25 de janeiro deste ano, quando pediu o afastamento da PM. Estou curioso para conhecer os bastidores dessa reportagem. Por que, com um assunto quente como este nas mãos, o jornal demorou quase quatro meses para publicar? Deve ter sido coisa de consultores jurídicos...

Espero que a decisão de reter por tanto tempo a reportagem não tenha partido da alta direção da redação do jornal, como tem ocorrido em Minas. Por saber que os jornais mineiros têm, por decisão própria – mas provavelmente induzida pelo governo do Estado – restringido bravamente as reportagens policiais, sobretudo aquelas que mostram a inoperância da polícia mineira, li com um pé atrás esse trecho, na reportagem de Gomide:

Com o aumento da violência, a PM adotou procedimentos mais agressivos de abordagem. A técnica é usada para suplantar a surpresa: as abordagens devem ser na posição "caçador" (arma apontada) e em superioridade numérica – o que é freqüentemente desrespeitado.

"Se não diminuir a margem de risco, pode não voltar para casa. O Rio é o Estado mais perigoso do Brasil, não tem jeito. É o único em guerra. Se não estiver bem preparado, vai cair", diz um aspirante. "Arma é sempre apontada. É grosseiro? Pode ser. Mas quem senta a bunda na viatura 12 horas correndo risco é o PM. Sem deixar de ser cortês, mas vai arriscar sua carcaça de madrugada? O Rio não é Minas Gerais", diz outro.


Parece indicar que a idéia, lá no Rio, é que Minas é um lugar muito seguro. Se é seguro, por que a população de Belo Horizonte cerca suas casas e prédios com muros e grades tão altas? Por que tem medo de sair às ruas, principalmente os idosos e as mulheres? O que leva essas pessoas a terem medo? Certamente, não é o noticiário. Será que notícias de violência estão se espalhando ao modo antigo, quando não havia ainda imprensa, ou seja, de boca a boca? Nesse paraíso midiático, creio que antigos leitores de um jornal valente, como o Hoje em Dia, se surpreenderam ao abrir hoje o Caderno Minas e ver lá uma reportagem de Carlos Calaes, revelando:

A execução a tiros de três adolescentes, na tarde do último sábado, nas proximidades do Shopping Del Rey, reacendeu o clima de tensão e sentimento de vingança na favela "Buraco Quente", situada na Pedreira Prado Lopes, Noroeste de Belo Horizonte. Os adolescentes W.S.C., 15 anos, G.D.A., o "Julimarzinho", e N.A.M., o "Fait", ambos de 16 anos, supostos usuários de drogas e integrantes do tráfico de uma das gangues da favela, foram executados por dois rapazes que estavam numa motocicleta Honda Titan prata, placa não anotada. Um agente da Polícia Civil, que estava de plantão ontem no Departamento de Investigações (D.I.), confirmou que as mortes deixaram a situação bastante tensa no "Buraco Quente". Ele disse que, hoje, a Divisão de Crimes contra a Vida (DCcV) vai iniciar as investigações.

Na tarde de ontem, dois homens, que estavam sentados nas proximidades da entrada da favela, falaram com a reportagem rapidamente e sem se identificar. "Eles mataram os meninos de graça. Agora podem esperar que vão ter troco, vão ter o deles. Vocês vão ter notícia amanhã (hoje)", disse um deles, dando a entender que integrantes do "Buraco Quente" vão vingar as mortes dos adolescentes.

Para o sargento Carlos Dornelas, do 34º BPM, que atendeu à ocorrência, os três adolescentes podem ter algum tipo de envolvimento com o tráfico de drogas e teriam sido executados por vingança ou acerto de contas, por ordem de Washington Freitas, o "Xitão", um dos líderes rivais do tráfico das ruas Marcazita e Guapé. No sábado, o taxista Evandro José Vaz, 38 anos, que dirigia o Palio placa GWV-8327 e que foi poupado pelo atirador, conseguiu dirigir o veículo, crivado de balas, com os três adolescentes sangrando e agonizando – um no banco da frente e dois atrás – até o Hospital Odilon Behrens, onde chegaram mortos.

No ano passado, pelo menos 18 pessoas morreram em virtude da guerra e do ódio entre traficantes que dominam pontos no "Buraco Quente", aliados, ou "primos", da Rua Carmo do Rio Claro, que dominam a parte alta da Pedreira Prado Lopes, e seus rivais, que atuam nas ruas Marcazita e Guapé. Na noite de 24 de fevereiro de 2007, o corpo de Wellington Sales Vieira, 23 anos, que teria envolvimento com traficantes das ruas Marcazita e Guapé, estava sendo velado em uma casa do Bairro Santo André, quando dois homens encapuzados chegaram em uma motocicleta, entraram na sala do velório e abriram fogo contra várias pessoas. Dois homens morreram na hora.

A vingança aconteceu em junho, quando três homens foram assassinados a tiros, na favela do "Buraco Quente". Em setembro, Tiago Henrique, 14 anos, Fabiano Alves Gregório, 16, Marcelo Teixeira de Souza, 27 anos, e Odilon Dias, 35, que seriam aliados de "Xitão", foram fuzilados. Em setembro, oito atiradores encapuzados, armados com pistolas 9 milímetros, invadiram um sítio e disparam perto de cem tiros contra os convidados, em uma festa em Ribeirão das Neves. Ao todo, oito pessoas morreram.


Parece-me que os leitores lavaram a alma. E o repórter também. Sabemos agora que não estamos ficando neuróticos sem motivos. A violência se espalha sem controle, diante de uma polícia mal preparada, mal paga e sem perspectivas de avanços dignos na carreira. No ano passado, o governo de Minas mandou à Assembléia Legislativa, que a aprovou, a Lei Complementar 95/2007, que estabelece novas regras para a promoção na Polícia Militar. Os sargentos tinham que esperar em média 12 ou 13 anos para serem promovidos de 3º para 2º sargento e outro tanto para chegar a subtenente. A nova lei prevê uma redução desse período, mas em outubro de 2007 o deputado Sargento Rodrigues escreveu ao comandante-geral da PM, coronel Hélio dos Santos Júnior, reclamando que a lei estava sendo mal interpretada. Exemplificou: no primeiro semestre de 2006, foram promovidos 63 primeiros sargentos, no segundo semestre 39, enquanto no segundo semestre do ano passado, já na vigência da lei, foram promovidos apenas dez.

Enquanto isso, os altos oficiais da PM estão lutando para a aprovação de uma nova lei, a PEC 40/2007, que permitiria que os servidores das polícias Civil e Militar e do Corpo de Bombeiros tenham o limite máximo salarial elevado dos atuais R$ 10.500 (salário do governador) para R$ 24.500 (salário dos desembargadores do Tribunal de Justiça de Minas). É verdade que esses limites são ultrapassados. Mais de mil servidores do Executivo ganham mais que Aécio Neves, sob forma de salários pagos pelo erário mineiro. E no Judiciário, em novembro de 2006, último levantamento divulgado, eram 318 os que recebiam acima do limite fixado.

Falei do Rio e de Minas. Não posso me esquecer de São Paulo. No Estadão de hoje, reportagem de Bruno Tavares:

A Polícia Militar de São Paulo matou 55% a mais de pessoas no primeiro trimestre deste ano, em comparação com o mesmo período de 2007. Foram 107 mortes em confronto, ante as 69 registrados entre janeiro e março de 2007. Índices correlatos, como prisões em flagrante e feridos em tiroteios com PMs, se mantiveram estáveis.

A maior alta foi em janeiro, quando a Secretaria da Segurança Pública (SSP) registrou 41 embates com mortes – 17 a mais do que em 2007. O mês foi violento, após o assassinato do coronel José Hermínio Rodrigues, comandante da PM na zona norte. No dia seguinte à sua morte, uma chacina deixou sete mortos na região. As suspeitas do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) são de que a autoria de ambos os crimes tenha sido de PMs.


Mas nem tudo vai mal. A Folha de S. Paulo trata de nos alegrar. Diz ela, hoje, em reportagem de Fernando Canzian, que apesar da elevação dos juros, o primeiro trimestre deste ano trouxe aumento real (acima da inflação) de 10% na receita líquida e de 4% no lucro das 200 maiores empresas com ações negociadas na Bovespa. (Não sei quantas delas são brasileiras e quantas estrangeiras; deixo em aberto a bolsa de apostas).


Segunda-feira, Maio 19, 2008 [ Fala aí: ]EMAIL

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O tamanho do porrete encolheu



Manchete da Folha de S. Paulo, ontem, na pág. A16: "Política dos EUA para latinos está obsoleta, diz documento". Li com interesse. Não faz muito tempo, citei o presidente Franklin D. Roosevelt como autor da frase sobre um dos mais sanguinários ditadores latino-americanos, Anastásio Somoza Garcia, que reinou sobre a Nicarágua de 1937 até ser assassinado por um poeta em setembro de 1956. "Somoza may be a son of a bitch, but he's our son of a bitch", teria dito FDR. Mais tarde, historiadores sustentaram que essa definição de "nosso filho da puta" não se referia a Somoza, mas ao ditador Rafael Trujillo, da República Dominicana.

Pouco importa. O que interessa é que Roosevelt, um herói americano – ele tirou o país da grande recessão capitalista iniciada com a quebra das bolsas no final da década de 20 e o conduziu à vitória na II Guerra Mundial –, seguiu à risca a política do Big Stick (grande porrete) instituída por um antecessor, Theodore Roosevelt, que governou os Estados Unidos entre 1901 e 1909.

Essa expressão descreve o estilo de diplomacia orientada pela Doutrina Monroe, resumida na mensagem do presidente James Monroe ao Congresso dos Estados Unidos, em 1823: "Julgamos propícia esta ocasião para afirmar, como um princípio que afeta os direitos e interesses dos Estados Unidos, que os continentes americanos, em virtude da condição livre e independente que adquiriram e conservam, não podem mais ser considerados, no futuro, como suscetíveis de colonização por nenhuma potência européia". Ou seja, a América para os americanos...do Norte – mais especificamente, dos Estados Unidos, porque Monroe, é claro, não estava pensando na existência do México e do Canadá ao escrever aquilo.

As intenções dessa diplomacia eram proteger os interesses econômicos dos Estados Unidos na América Latina, o que acabou levando à expansão da marinha americana e ao maior envolvimento do país nas questões internacionais. Os americanos se sentiam como sendo a polícia do mundo, para protegê-lo da ameaça comunista.

Sobretudo em seu grande e bobo quintal, que começa na fronteira com o México e vai até a Patagônia. O grande porrete caía ali sem dó nem piedade, brandido pelas milícias dos ditadores colocados no poder pelo patrão do norte e apoiados pelos capitalistas locais. Nos bons tempos – para os americanos – da ditadura militar no Brasil, tivemos um chanceler, Juracy Magalhães, que dizia: "O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil".

No dia 4 deste mês, lemos na Folha uma entrevista de um ex-adido militar francês no Brasil, o general Paul Aussaresses, hoje com 89 anos, considerado "a memória viva dos atropelos aos direitos humanos praticados durante a ditadura brasileira (1964-1985)". Ex-agente do serviço secreto da França, veterano das guerras do Vietnã e da Argélia, Aussaresses colaborou com o regime militar no Brasil, ensinando aos oficiais técnicas de tortura e também de combate à guerrilha naquela época. Tinha sido professor de técnicas de torturas em academias militares dos Estados Unidos, desenvolvidas por ele na luta contra argelianos que lutavam para se libertar da França. Em certo ponto da entrevista, ele disse que o Brasil participou do movimento militar para derrubar, em 1973, um presidente chileno eleito democraticamente, Salvador Allende:

FOLHA - O senhor chegou ao Brasil em outubro de 1973, pouco depois do golpe militar do Chile. O Brasil participou ativamente no golpe contra Allende?
AUSSARESSES - Que pergunta! Você pensaria que sou um idiota se não estivesse a par. Claro que o Brasil participou!

FOLHA - O senhor conta no livro. Gostaria que repetisse. O Brasil enviou aviões e armas?
AUSSARESSES - Mas claro, armas e aviões.

FOLHA - E enviou oficiais também?
AUSSARESSES - Sim, claro. As armas não sei dizer exatamente quais. Mas os brasileiros enviaram aviões franceses com projéteis fabricados na França pela sociedade Thomson-Brandtà

FOLHA - Para a qual trabalhou depois, quando saiu do Exército.
AUSSARESSES - Exatamente.


Bom, até aí é história. Mas, quais foram os sábios que descobriram agora que a política dos Estados Unidos para seu quintal está obsoleta? São sumidades como a ex- representante de Comércio dos EUA Charlene Barshefsky e o ex-chefe do Comando Sul das Forças Armadas americanas, general James T. Hill, que se reuniram num painel de especialistas coordenado pelo Council on Foreign Relations, com sede em Washington. Eles redigiram um estudo intitulado "Relações EUA-América Latina – uma nova diretriz para uma nova realidade", a ser apresentado ao futuro governo americano.

Entre outras coisas, recomendam que os Estados Unidos aprofundem suas relações com o Brasil – para eles, a cooperação em energia alternativa é uma "oportunidade única" – e com o México. Que acabem com o embargo econômico contra Cuba, precedido da eliminação de outras restrições, mostrando principalmente aos jovens cubanos que os americanos querem uma relação respeitosa com a ilha. (Como sabem, desde que a máfia americana transformou Havana num bordel para americanos endinheirados, no tempo do ditador Fulgêncio Batista, em meados do século passado, esse respeito não existe.) Aconselham a Casa Branca a manter canais diplomáticos com a Venezuela, evitando duelos diretos com Hugo Chávez. E que haja uma nova política migratória, "sem expulsão de ilegais, com ajustes no programa de trabalhadores estrangeiros e incentivo a programas temporários", conforme resume a Folha de S. Paulo.

Enfim, um documento cheio de boas intenções. Mas, como disse – não estou bem certo, já li a "Divina Comédia" há tanto tempo –, Dante Alighieri, o inferno está cheio de boas intenções. Há dias, na Carta Maior, Gilson Caroni Filho escreveu:

Ao anunciar a reativação da Quarta Frota, desativada há 58 anos, para "patrulhar os mares da América Latina", a marinha estadunidense encena, em versão farsesca, a sina do capitão magistralmente criado por Wilhelm Richard Wagner, em 1841.

A diferença é que se o "Holandês voador" navegava eternamente por conta de maldição que só um amor redimiria, o que move os militares norte-americanos – e seus "navios fantasmas" – é a necessidade de retomar o controle de uma região que, por décadas, foi seu quintal seguro.

A nova constelação de governos latino-americanos que, assumindo posições contrárias às do governo dos Estados Unidos, opõe-se à concessão de bases para as forças militares do Império, é o mar revolto a ser vencido. Se o personagem wagneriano tinha em “Senta” sua possibilidade de redenção, ao governo americano resta apenas Uribe como promessa de rendição.

Convém atentar para o que disse Alejandro Sánchez, funcionário de organismo de investigação do governo Bush: "Nos últimos anos os Estados Unidos se concentraram no Iraque e Afeganistão. Agora estão tentando voltar para a América Latina".

Bem, logo estaremos livres desse Bush. Mas, o que levou esses sábios a repensarem a política do porrete? É que, nos últimos 20 anos, dizem eles, "a América Latina mudou: houve crescimento, com relativa estabilidade econômica, e a região tornou-se importante fornecedora de energia, minérios e alimentos, o que promoveu seus laços com Europa e Ásia, em especial".

Laços – eis a palavra-chave. A América Latina não se amarra mais apenas aos Estados Unidos, embora continue sendo um importante mercado para eles. Em 2006, as exportações americanas para a região somaram US$ 223 bilhões. Não é de se jogar fora.

Mas há outros dados. Em recente seminário para um grupo seleto de empresários e altos executivos, o dirigente no Brasil de um dos maiores bancos europeus mostrou que a situação mudou muito. Segundo ele, em 2006, metade das operações de compra na América Latina foi feita por empresas latino-americanas. Antes, as grandes operações eram feitas por uma empresa européia ou americana. Os investimentos da América Latina no exterior subiram 115% em 2006 e chegaram a US$ 41 bilhões, enquanto os investimentos recebidos pela região cresceram 1,5%, atingindo US$ 72 bilhões.

Resumindo, o quintal havia sido limpo a duras penas pelos moradores e não era o mesmo dos tempos de Roosevelt. Desde 2002, os preços médios de exportação do Chile cresceram cerca de 160%, os do Brasil 60%, os da Argentina e México em torno 40%. O mercado consumidor interno ficou mais forte. Além disso, o continente é rico num bem escasso e cada vez mais valorizado, a água doce. E já produz mais alimentos do que consome, o que é uma grande vantagem, quando, pelo quarto ano consecutivo, a produção mundial está abaixo das reservas estratégicas calculadas pela FAO para alimentação no mundo.

Enquanto isso, os Estados Unidos, que em 1945 tinham perto de 47% do PIB mundial, estão hoje com 23 ou 25%. Ou seja, o tamanho do porrete encolheu. Hoje já tem até quem ouse pedir que não mais sejam chamados de americanos os que nascem nos Estados Unidos, pois americanos somos todos nós nascidos nas três Américas, mas estadunidenses ou, simplesmente, useanos (de USA, ou EUA em inglês).

Nada como uma chacoalhada nas crenças estabelecidas, para mudar um pouco as coisas que, de fato, precisam ser mudadas.


Sexta-feira, Maio 16, 2008 [ Fala aí: ]EMAIL

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Amazônia à venda



"Ajudar-nos a comprar a Amazônia não é apenas uma ótima oportunidade de investimento: pode ser a única maneira de salvar a floresta. Lembre-se, a Amazônia não pertence a nenhum país. Pertence ao mundo".

O apelo é feito em inglês por uma pessoa que se apresenta como diretor senior da Arkhos Biotechnology, empresa que tem como divisa a frase: "The future is ours" (o futuro é nosso).

O vídeo me foi enviado agora, mas há pelo menos um ano ele já roda por aí. No ano passado, uma revista da Editora Abril escreveu alguma coisa a respeito e um senador do Amazonas reagiu. Em artigo divulgado pelo Observatório da Imprensa em 10/4/2007, o editor da Agência Amazônia de Notícias, Montezuma Cruz, diz: "De acordo com a assessoria de imprensa do senador Arthur Virgílio (PSDB-AM), que denunciou a trama do suposto Arkhos Biotech, o parlamentar achou graça ter denunciado o vídeo da assumidamente fictícia Arkhos Biotechnology. Atribuíram-lhe um 'mico' por haver se posicionado em defesa da Amazônia. E ele considerou a ilegalidade da Ambev e Abril um equívoco. Pior faria, se ficasse calado ou omisso".

O bravo Montezuma não deixa por menos. Logo na abertura do artigo, ele manda ver:

"As parceiras Ambev e Editora Abril assumiram a violação dos Códigos Civil, Penal e da própria Constituição federal, ao promoverem a divulgação de um vídeo difamatório à Amazônia. No entanto, a brincadeira dessas empresas pode ter o efeito de um bumerangue. O uso da maior rede de comunicação do planeta para uma armação nutrida por evidentes interesses pouco subliminares, põe a fabricante do guaraná Antarctica na lista do oportunismo e da rapinagem na região.

Patrocínio de vídeo falso é crime tão nocivo quanto a discriminação racial ou formação de quadrilha no Orkut".


Não posso concordar que o vídeo seja difamatório à Amazônia. Pelo contrário. E os brasileiros que se cuidem. Se não souberem defender esse patrimônio, preservando-o, terão o mesmo destino dos iraquianos com seu petróleo. Vão tomá-lo na marra, se não puderem simplesmente comprá-lo.

E a situação não me parece nada boa. Leio na Folha do Meio Ambiente de abril deste ano que só em abril e fevereiro foram desmatados 1.300 km² da floresta na Amazônia, 88% em Mato Grosso, que em 2007 foi o campeão absoluto de desmatamento na região. Numa audiência pública na Câmara dos Deputados, a ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, abriu o jogo: "Digo com franqueza: o desmatamento cresceu 10% nos últimos seis meses".

E não se vá pôr a culpa na agricultura. Segundo o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, na mesma sessão da Câmara dos Deputados, a produção de grãos no Brasil cresceu 140% nos últimos 16 anos com uma expansão de 23% da área plantada, e pode expandir-se por mais 15 anos sem que seja necessário derrubar florestas.

Quem estará desmatando a Amazônia, então? Os agricultores, sim, e os pecuaristas principalmente. E sobretudo as madeireiras. Entre elas as chinesas, que, como gafanhotos, destruíram quase todas as florestas situadas em seu país e na vizinhança e agora chegam com fome insaciável à Amazônia.

Se algum americano está querendo comprar a Amazônia para vender, eles, sem dúvida, terão um grande cliente: os chineses.

Pobre Brasil. Nesse ritmo, não terá daqui a uns anos nem um berço esplêndido para deitar.


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Por razões técnicas, este post, publicado originalmente na semana passada, teve que ser deletado e republicado hoje. Não consegui recuperar os comentários da época. Convido a todos para participarem mais uma vez deste debate. Abraço!


Sexta-feira, Maio 16, 2008 [ Fala aí: ]EMAIL

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Escravos do racismo



Há exatamente 120 anos, também num 13 de maio, em 1888, foi assinada a Lei Áurea – um marco da conquista dos negros no Brasil. Uma das leis mais curtas já feitas no país, com apenas dois artigos, ela estabelecia que:

Art. 1º É declarada extinta desde a data desta Lei a escravidão no Brasil;
Art. 2º Revogam-se as disposições em contrário.


O que a gente aprende na escola lembra um pouco os contos de fadas que líamos na infância: uma linda princesa chamada Isabel, aproveitando a ausência de seu pai, assina uma lei que viria a libertar milhões de negros da escravidão.

Só que, de acordo com historiadores mais recentes, não foi bem assim.

A prática da alforria já vinha se fortalecendo desde pelo menos 1850, quando outra lei, mais importante, impediu o tráfico de escravos. O movimento abolicionista crescia, a pressão de toda a sociedade – inclusive dos próprios negros – aumentava junto, muitas das alforrias foram compradas pelos escravos.

A lei Áurea foi, sim, importante, mas não foi definidora de uma ação. Foi, antes, o reflexo de um movimento social mais amplo, que já estava em seu limite. Segundo estimativas da capitania de Minas Gerais – que, à época, em pleno circuito do ouro, era a mais populosa, mais rica e importante do país –, havia 130 mil forros e descendentes de primeira geração de ex-escravos, 110 mil escravos e 80 mil brancos. O negro teve um papel fundamental em sua própria libertação, tanto nessa época como em todos os movimentos que vieram antes e viriam a seguir.

Excluir os negros de sua luta pela liberdade, colocando-os na História como figuras passivas, à mercê de uma princesa feiosa, faz parte do preconceito que perdura até os dias de hoje.

Na escola, nos ensinaram que, libertados da função de escravos, os negros ficaram desestruturados e desprotegidos, invadiram cortiços, formaram favelas – que explicariam sua posição de minoria política até hoje.

Mas, para os novos historiadores, eles já estavam integrados à sociedade, partícipes ativos de um movimento social amplo, desde muito tempo. Quando veio a lei Áurea, eram pobres, pois sim. Mas eram politicamente engajados, tinham apoio uns dos outros para adquirir a alforria, eram integrados social e culturalmente. O que os teria impedido de prosperar, como os brancos pobres, de ter participação ativa na nova República que viria a partir de 1889?

Só o racismo.

Não é à toa que a lei da época impedia que ex-escravos votassem. Eles não tinham vez nem voz. Mesmo quando foram liberados para votar, em 1934, eram sutilmente impedidos de participar na política por meio de vias tortas. É que, na época da lei Áurea, quase 100% dos negros eram analfabetos. E os analfabetos só puderam votar a partir da nova Constituição, de 1988. Ou seja, exatamente cem anos depois da lei Áurea.

O resultado é o seguinte:

- De cada dez brasileiros pobres, seis são negros;

- A mortalidade infantil é 60 por cento superior entre as crianças negras;

- Uma negra, pobre, nordestina, moradora da área rural ganha, hoje, em média, um terço do que ganha um cidadão branco;

- No Brasil, os negros são quase três vezes mais atingidos pela insegurança alimentar do que os brancos;

- Entre os 10% mais ricos apenas 18% são negros (pardos ou pretos). Já na parcela dos 10% mais pobres, 71% são negros;

- 19% dos negros e 11% dos pardos ou mulatos já se sentiram discriminados por causa da cor em alguma situação relacionada ao trabalho;

- 37% dos negros e 25% dos pardos ou mulatos afirmam que se sentiram discriminados ao procurar por trabalho, e citam a rejeição pura e simples, o fato de a vaga ser destinada a pessoas de uma determinada cor e a obrigatoriedade de declarar a cor no momento de preenchimento de ficha;

- 24% dos pardos e mulatos e 14% dos negros afirmam ter sido vítimas de piadas ou insultos no trabalho em virtude da cor;

- 9% dos negros foram acusados de roubo ou reclamam de serem vistos como ladrões;

- 13% dos negros não se sentem ou sentiram aceitos no grupo ou turma de trabalho;

- Os negros, que têm rendimentos, em média, de R$ 390,90, recebem em média 46% a menos do que os brancos, que ganham, em média, R$ 718,50 por mês. Já os pardos (rendimento médio de R$ 441,50) ganham 39% a menos do que os brancos. Essa diferença é verificada em todos os segmentos passíveis de análise, sem que importe a ocupação, o setor de atividade, a escolaridade ou as horas trabalhadas: os brancos ganham sempre mais do que negros e pardos;

- Apenas 3,5% dos executivos das maiores empresas brasileiras são negros. As negras não chegam a 0,5%. Mas a população brasileira tem 49,5% de negros...


Apesar de todos esses dados – e muitos outros –, ainda tem gente com coragem de dizer que não há racismo no Brasil. Ele é velado, no país do Carnaval.

Nos Estados Unidos, onde ele era explícito e, até 1960, os negros não podiam votar por lei (além de ter que ceder o banco do ônibus para os brancos e tudo o mais), só agora um candidato negro terá reais chances de chegar à presidência. E justo ele, Barack Obama, não se comporta como um defensor da igualdade racial, mas como um político "universalista".

Mas já será um avanço. Uma profecia de Monteiro Lobato, autor de "O Presidente Negro", que poderá se concretizar muito antes do previsto pelo romancista para o ano de 2228. Mas, ainda, 120 anos depois do fim legal da escravidão no Brasil.

E aqui, quando teremos nosso presidente negro e iguais oportunidades para negros e brancos?

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Consultas:
- ComCiência
- Estudos afro-asiáticos
- Folha de S.Paulo
- Fundação Cultural Palmares
- DataFolha
- IBGE
- IBOPE
- Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Veja que atitudes vêm sendo tomadas por Lula para conter o racismo)
- Senado.gov.br

* Pintura de Lívio de Morais (África)

Terça-feira, Maio 13, 2008 [ Fala aí: ]EMAIL

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Novidades


1.
Agora o endereço do Tamos com Raiva está mais fácil. Basta digitar www.tamoscomraiva.com.br para entrar no blog.

2.
A parte do histórico já está de volta, na coluna da esquerda. É possível acessar todos os posts, desde o primeiro, em 20 de março de 2003. Em breve, atualizaremos as partes "Quem somos nós", "História", "Manifesto" e "Links".

3.
Desde outubro de 2005 é possível também acompanhar os novos posts pela comunidade do Orkut Tamos com Raiva, que hoje está com 1.285 membros. E agora queremos conhecer o perfil dos leitores: votem nas enquetes da http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=6038820.

4.
Quer receber um resumo semanal do Tamos com Raiva? Mande um email para tamoscomraiva@hotmail.com.


Domingo, Maio 11, 2008 [ Fala aí: ]EMAIL

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Lula e Aécio contra os aposentados



A Câmara dos Deputados, cheia de parlamentares candidatos a prefeito em outubro, aprovou a lei que dá aos aposentados o mesmo reajuste do salário-mínimo. Ontem, em entrevista exclusiva a Heródoto Barbeiro, na TV Cultura, o presidente Lula tratou de pôr água na fervura. "É humanamente impossível você fazer um fator previdenciário", disse ele, em sua linguagem intrincada, explicando porque vai vetar o projeto de lei, se ele for aprovado também no Senado, "você igualar para os trabalhadores aposentados o aumento que você dá para o salário mínimo, ou seja, não tem caixa, não tem dinheiro para isso. É simplesmente isso".

Não é simplesmente isso. Faltou Lula explicar por que o governo não tem caixa. Ontem, por exemplo, o Banco Itaú, que tem entre os governos seus maiores clientes, divulgou o lucro líquido no primeiro trimestre: R$ 2,043 bilhões, um aumento de 7,4% sobre igual período de 2007. Antes, o Bradesco já havia divulgado um lucro maior ainda, de R$ 2,102 bilhões, o maior da história para o período entre os bancos privados brasileiros.

"Nunca na história deste país os bancos lucraram tanto", poderia ter dito Lula na entrevista de ontem – mas não disse, ele não é bobo. Para garantir que o lucro exorbitante não cesse, o Conselho Monetário Nacional tratou no mês passado de retomar a escalada de alta de juros.

Recentemente, numa reunião de grandes empresários em São Paulo, um dos palestristas, um economista acadêmico britânico de renome mundial, disse que o Brasil precisa reduzir sua taxa de juros, que ele tachou como excessivamente elevada – um excesso que não se explica apenas economicamente – se quiser se desenvolver de forma sustentável. Lula aprecia uma reunião de empresários, mas ele não estava lá desta vez. Se estivesse, se faria de distraído nessa questão de juros – ele parece não agüentar mais ouvir o seu vice falar sobre isso –, mas teria prestado uma enorme atenção quando o britânico voltou a dizer que o país precisa fazer cortes nos gastos previdenciários. Talvez, desse modo, o presidente tivesse ontem argumentos mais abalizados para justificar o seu veto.

No entanto, Lula me pareceu bem preparado para enfrentar a enxurrada de projetos demagógicos que serão aprovados na Câmara e no Senado, para que deputados e senadores fiquem bem com os eleitores. O presidente, que não é candidato a nada, pelo menos até 2014, avisou que vai vetar tudo "que não for compatível com a possibilidade de o governo pagar". Para um homem que já prometeu tanto, desde o começo da década de 80, quando se lançou candidato a um cargo que não fosse o de presidente de sindicato, ele demonstra agora disposição até para criar um neologismo para dizer que não fará promessa incumprível.

Já que se falou a respeito, no artigo anterior, vale ressaltar mais um ponto de contato entre Luiz Inácio Lula da Silva e Aécio Neves. O governador mineiro também vem tratando a pão e água os aposentados – no caso, os funcionários públicos estaduais aposentados, porque, enquanto não for presidente, ele não tem condições de fazer o mesmo com nós outros.

O avô de Aécio, quando governador – e, desde o início, candidato a presidente na sucessão de Figueiredo –, igualou os vencimentos dos aposentados aos dos servidores da ativa. O neto tratou de desigualar, e o fez com uma ferocidade tão grande, que uma funcionária de nível superior da área de saúde aposentada do Estado (estou com o extrato dela em mãos), que durante o ano de 2001 recebeu R$ 11.667,59 de total de rendimentos, embolsou no ano passado R$ 12.656,40. Ou seja, em sete anos (ela está recebendo a mesma aposentadoria neste mês de maio), teve um reajuste de 7,08%. No mesmo período, o valor do salário mínimo quase triplicou (aumento de 274,8%) e a inflação calculada pelo Índice de Preços ao Consumir (IPC) subiu 57,04% entre 2001 e 2007, segundo a Fundação Getúlio Vargas.

Ou seja, um funcionário aposentado do governo de Minas está ganhando menos da metade do que ganhava em 2001, quando se mede pelo poder de compra.

Para refrescar a memória, busquei no Google informações sobre o que ocorria com as aposentadorias antes da Constituição de 1988, e vi lá um artigo escrito em 2003 pelo então presidente da Companhia Siderúrgica Nacional, empresário Benjamin Steinbruch, na época com 50 anos de idade. Diz ele:

Antes de 1988, era comum encontrar aposentados recebendo apenas alguns centavos por mês. Na época, reportagens da imprensa mostravam muitos casos de idosos que nem iam ao banco todos os meses para retirar a aposentadoria. Faziam isso apenas a cada três ou quatro meses, porque o dinheiro que gastavam com a passagem de ônibus levava quase metade do que recebiam por mês.

Isso tudo ocorria porque as aposentadorias não haviam sido corrigidas de acordo com a inflação nos anos anteriores e acabaram tendo seu valor reduzido quase a zero.

A Constituição de 1988 pôs fim a essa distorção ao determinar que todos os brasileiros, ativos ou inativos, teriam o direito de receber pelo menos um salário mínimo por mês. Com isso, hoje, 14 milhões de pessoas, mais da metade dos aposentados da Previdência, recebem exatamente esse piso, que é de R$ 260 por mês e uma minoria ganha mais, até o limite de R$ 2.400.
Na prática, portanto, esse enorme contingente de aposentados tem hoje seus proventos reajustados anualmente com o salário mínimo. Na semana passada, para justificar o mínimo aumento do mínimo, o governo lembrou que não poderia conceder um reajuste maior porque isso teria um impacto muito forte no orçamento da Previdência, que já apresenta um déficit de R$ 31 bilhões.

Voltou então ao debate a idéia de modificar a Constituição para acabar com a vinculação do reajuste do mínimo ao das aposentadorias. Admira-me que pessoas bem informadas possam admitir a discussão dessa mudança, que, na prática, pode abrir a porta para trazer de volta situações como as vividas no passado recente. Sem a vinculação, antes de 1988, o governo deixava as aposentadorias sem reajuste durante longos períodos. Era uma atitude socialmente perversa, tomada sob argumento idêntico ao atual: a busca do equilíbrio das contas da Previdência
.

O presidente da CSN não se referia, é claro, a Aécio Neves...


Terça-feira, Maio 06, 2008 [ Fala aí: ]EMAIL

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Petistas que alimentam Aécio



Os petistas mineiros não devem estar entendendo nada. Reinando há 16 anos na Prefeitura de Belo Horizonte (Patrus Ananias/Célio de Castro/Fernando Pimentel), eles agora vislumbram a possibilidade de votar numa coligação formada por PT, PSB e PSDB – o maior partido de oposição petista em nível nacional.

Apesar de a Executiva Nacional do Partido dos Trabalhadores ter vetado a aliança costurada entre Pimentel e Aécio Neves, o PT de Belo Horizonte aprovou, em 28 último, com votos de 406 delegados, uma moção "de repúdio e indignação" contra a cúpula nacional. No mesmo dia, ficou aprovado o nome de Márcio Lacerda (PSB) como pré-candidato às eleições municipais deste ano.

Para Pimentel, esta é a "vontade da cidade". Ameaça até ir chorar no TSE, embora seu presidente, Marco Aurélio Mello, já tenha adiantado que a questão deverá ser resolvida dentro do próprio partido.

Mas eu acho que o buraco é muito mais embaixo. Não tem nada a ver com as vontades de petistas e – muito menos, falo por mim – de belo-horizontinos. Tem mais a ver com a vontade de Pimentel se eleger governador de Minas em 2010 e (vontade ainda maior) de Aécio se eleger Presidente da República nas próximas eleições.

Quero relembrar um editorial profético feito pelo historiador Ricardo Moura Faria em seu Boletim Mineiro de História, em 08 de agosto de 2007:

Tão logo se começou a falar no Marcos Valério e a oposição começou a pensar no impeachment de Lula, o governador de Minas soltou o brado: "Lula não é Collor!" Qual o significado desse brado? Partindo de um governador que pertence a um partido que era oposição a Lula? Para mim era muito claro naquela época (e continua claro até hoje), que a preocupação de Aécio Neves só podia ser a possibilidade de seus planos irem por água abaixo.

Com efeito, não é segredo para ninguém que os planos do governador mineiro incluem a presidência da república. Em 2010, não antes, nem depois. Toda a trajetória de seu governo em Minas, fartamente propagandeada, corria e ainda corre visando "chegar lá". O impeachment de Lula, em 2005, seria desastroso, daí o brado do governador. Também não é segredo para ninguém a cordialidade do governador mineiro com o prefeito da capital, Pimentel, do PT. Eles trabalham de braços dados, nenhum conflito aparente.

Juntando as peças, para não me alongar muito. Pimentel larga o governo de BH ano que vem. E é candidato certo ao governo do Estado em 2010, quando Aécio estará largando o governo do Estado e preparando-se para a campanha presidencial.

Existe um acordo entre o PT e o PSDB mineiro, só não vê quem não quer: Aécio vai apoiar Pimentel para o governo do Estado e Lula vai apoiar Aécio para a presidência. Já se esqueceram da primeira entrevista do Lula reeleito? Ele disse, alto e bom som que para sua sucessão não haveria a necessidade de se indicar um petista ou alguém da base aliada, pois até mesmo no PSDB havia bons nomes. E citou com todas as letras o nome de Aécio Neves. (...)

Com o apoio de Minas e do "grande eleitor", quem tiraria a vitória de Aécio? Seriam, portanto, mais oito anos sem os paulistas no poder. FHC, Serra, Alckmin agüentariam esperar tanto tempo para se candidatar?

E não me venham falar que Aécio e Serra são do mesmo partido. O PSDB paulista e o mineiro mantém uma relação de cordialidade, mas há limites. Basta ver que o apoio dado pelo governador mineiro ao candidato tucano paulista na eleição presidencial não foi lá essas coisas... E se atentarmos para o que diz o "grande jornal dos mineiros", totalmente mancomunado com o governador, veremos que dos grandes jornais, o que tece críticas mais amenas ao governo federal é ele... Isso não é coincidência, ainda mais se lembrarmos da história deste jornal.

Como vemos hoje, nove meses depois, o professor Ricardo acertou na mosca.

Alguns petistas ainda vão se esquecer de todas as críticas que sempre fizeram – com toda razão – ao PSDB e ao Aécio Neves e vão dizer que essa coalizão é saudável, que condiz com a trajetória de Belo Horizonte, que os dois partidos, pelo menos em Minas, estão caminhando de mãos dadas. Eu, que nem sou petista mas sou mineira há 23 anos, quero discordar. Não acho natural, os dois partidos jamais andaram de mãos dadas antes da eleição de Pimentel e acho hipócrita atrelar o desejo político dos dois pré-candidatos ao Governo e à Presidência ao desejo duvidoso de toda uma população eleitora.

Mais que isso, usando como elo o Márcio Lacerda que, como bem relembra o site da revista Fórum, em 14/03/2008, esteve diretamente envolvido com o mensalão:

Bastava procurar no Google para saber que o nome indicado da inusitada aliança aparece nas primeiras 20 citações sob o chapéu "escândalo do mensalão". Quando o publicitário Marcos Valério leu para os parlamentares, durante a CPI, duas listas de pagamentos feitas por suas empresas, foram "revelados" os nomes das pessoas que sacaram recursos das suas contas em 2003 e 2004. Entre eles está Márcio Lacerda, então secretário-executivo do ministro Ciro Gomes, que teria sacado R$ 457 mil. Na ocasião, Ciro saiu em defesa de seu secretário e disse que houve um equívoco. Mas não teve jeito. Lacerda teve que deixar o cargo. Em nota lacônica, a assessoria do ministro informou: "Para assegurar a normalidade da missão institucional do Ministério da Integração Nacional e compreendendo que estaria em marcha uma tentativa de envolver esta pasta e seu titular no ambiente de escândalo por que passa o país, o senhor Márcio Lacerda solicitou seu afastamento do cargo". Pode ser que Márcio Lacerda tenha sido vítima de mais um linchamento da mídia. Mas também pode ser que não. A novela do "mensalão", como sabemos, está em curso e ainda vai demorar para terminar. O que causa estranheza é que uma passagem relevante como essa não tenha sido sequer citada em nenhum jornal ou site local." (Pedro Venceslau, em artigo publicado também no Boletim Mineiro de História)

Na verdade, isso não me causa qualquer estranheza. Afinal, Márcio é agora candidato de Aécio. E Aécio é sabidamente dado a umas censurazinhas na mídia mineira (ou "influências diretas", pra pegar mais leve).

Quero aproveitar este artigo para lembrar aos 71% dos (involuntariamente) desinformados que aprovaram o governo de Aécio nas últimas pesquisas – e especialmente aos petistas neo-tucanos que por ventura surjam em defesa desta coligação em Beagá – que o que começa em Minas poderá ter sérias conseqüências em todo o Brasil. E que, se Aécio ganhar, muitos de nós perderemos. Vejamos por quê:

Passado

* Como presidente da Câmara dos Deputados, Aécio ajudou a livrar Eurico Miranda de ter seu mandato cassado, embora houvesse provas suficientes nas CPIs do Congresso.

* Também foi ele que criou, em 2001, a tal "verba indenizatória" de R$ 15 mil mensais pagos aos deputados federais, que já custam, cada um, mais de R$ 92 mil por mês ao contribuinte.

* Quando presidente da Caixa Econômica Federal não fez nada para averiguar a denúncia da máfia na Loteria Esportiva, inquérito herdado de gestões passadas.

* A Globo adora Aécio, já que ele pagou sua dívida na compra da Light usando capital da Cemig. Pelo menos, é o que foi divulgado pelo Novo Jornal (e contestado pela assessoria de imprensa da Cemig).

Censuras

* O professor de Ciência Política da UFMG Fernando Massote, que fazia críticas ao governo de Aécio, teve sua última crônica censurada pela direção do Estado de Minas, jornal do grupo Diário Associados, e sua participação semanal na seção Opinião foi encerrada em 2003.

* O jornalista Ugo Braga trabalhava como editor de Economia no Estado de Minas quando publicou, em 15 de setembro de 2003, uma nota sobre o desempenho do governador de Minas. Dizia o seguinte: "o instituto paulista Brasmarket fez pesquisa nacional sobre o desempenho do início de mandato dos 27 governadores. Aécio Neves ficou no antepenúltimo lugar. Ganhou apenas do sergipano João Alves (PFL) e do roraimense Francisco Flamarion (PSL)". Ele foi chamado à sala do diretor de redação, Josemar Gimenez Resende, e, já no dia 16, foi demitido.

* No dia 2 de junho de 2004, o jornalista esportivo Jorge Kajuru cobria o jogo Brasil-Argentina no estádio Mineirão, pela Band, para o programa Esporte Total. No primeiro bloco, ao vivo, ele mostrou que, fora os 42 mil ingressos destinados ao grande público, mais de 10 mil estavam nas mãos de Aécio e de Ricardo Teixeira, presidente da CBF, para serem distribuídos a socialites, empresários, políticos e outros interesses do governador. Depois do intervalo do programa, Jorge foi tirado do ar. E, uma semana depois, no dia 9, Kajuru foi demitido pela Band, depois de 14 meses de trabalho, sem maiores explicações.

Assembléia

* Aécio não domina só a imprensa, mas também seus deputados. Tanto que, em 2003, nenhuma Comissão Parlamentar de Inquérito foi instalada na Assembléia Legislativa de Minas. Foram apresentados 12 pedidos de CPI, principalmente para investigar irregularidades no governo de Minas, mas também para apurar sonegação de ICMS pelas cervejarias. Todos foram engavetados. Para comparar: entre 1998 e 2002, no governo de Itamar Franco, foram instaladas 23 CPIs, com apoio do PSDB e PT.

Pro bolso dos privados

* Em maio de 2004, Aécio lançou um programa de Parceria Público-Privada (PPP), que funcionou mais ou menos assim: o governo (vulgo, os cidadãos) paga os custos, as empresas privadas ganham os lucros e ainda se gera um cabidão de empregos, no caso de grandes obras. Os empresários mineiros desconfiaram da proposta, no caso da construção do novo Centro Administrativo de Minas (ver parte de comentários). Mas uma parceria quase idêntica foi feita entre Aécio e as telefônicas, grandes doadoras em suas campanhas políticas.

Propaganda mentirosa

* Em novembro de 2004, a SMPB, agência de Marcos Valério, que atendia ao governo de Aécio, fez ampla campanha publicitária, para comemorar e divulgar o chamado "déficit zero", segundo o qual Aécio teria quitado todas as dívidas do Estado em apenas dois anos de governo. Acontece que a dívida não foi quitada e, para alguns, pode até ter aumentado. A campanha diz que Aécio conseguiu superávit de R$ 90,7 milhões em 2004. Mas "se esqueceu" de dizer que, no final de 2004, havia déficit de R$ 3,7 bilhões (R$ 2,9 bilhões em 2005), e que a dívida pública evoluiu de R$ 32,9 bilhões em 2002 para R$ 39,7 bilhões em 2005.

* A maquiagem também aconteceu na área da Saúde, que teve déficit de R$ 1 bilhão, segundo o Ministério Público divulgou em 2004. A Constituição estabelece investimentos de pelo menos 12% da receita na Saúde. Aécio investiu 4,4% e, por meio de números maquiados, informou ao TCE e aos eleitores que tinha cumprido a meta. Para isso, contabilizou como gastos em serviços de saúde despesas com a erradicação da febre aftosa e outras doenças de animais, exposições agropecuárias, precatórios, construção de praças, locação de serviços de limpeza, material para fazer bloquetes e meio-fio.

* Só nos dez primeiros meses do ano, Aécio gastou com publicidade mais de 520% do previsto no orçamento de 2005. Tudo uma questão de prioridades, já que, até aquele ano, nada havia sido investido em Educação, nada em Segurança, só R$ 1 milhão dos R$ 23 milhões aplicados em estradas vieram das verbas de Aécio e nada tinha sido investido no Instituto da Terra, responsável pela reforma agrária no Estado.

Caixa Dois

* Eis os bens declarados por Aécio à Justiça Eleitoral, em 2006: Aécio Neves da Cunha (PSDB): R$ 831.800,53; Lote 02, quadra 08 - MG = R$ 6.939,73; Ações da empresa Diários Assoc. S/A = R$ 0,09; Ações da Telebrás S/A = R$ 217,26; Banco Itaú S/A - aplicações = R$ 65.714,86; Banco Itaú S/A - c/c = R$ 8.701,80; Banco Itaú S/A - Super PIC = R$ 964,20; Bank Boston - conta corrente = R$ 10.940,44; Dinheiro em espécie = R$ 150.000,00; Dois lotes com 820 m2 - MG = R$ 9.175,62; N. C. Participações Ltda. = R$ 1.000,00; Quotas de capital junto à Im. Participação e Adm. Ltda = R$ 95.137,12; Quotas de capital junto à Nc Part. e Adm. Ltda = R$ 193.459,41; Um apto. na Avenida Epitácio Pessoa, RJ = R$ 109.550,00; Um apto. na Rua Samuel Pereira, MG = R$ 180.000,00. Valor máximo de gastos: R$ 20.000.000,00.

O site Congresso em Foco desqualificou a declaração do governador: "Um apartamento na cobiçadíssima Avenida Epitácio Pessoa, no bairro carioca de Ipanema, aparece na declaração de bens de Aécio com o preço de R$ 109,55 mil. Ele não discrimina o número de dormitórios que tem o imóvel, mas uma rápida pesquisa em classificados de jornal mostra que o dinheiro é pouco até mesmo para comprar um quarto-sala por ali." Além disso, com certeza sua participação na empresa fundada por Chatô não vale só nove centavos. E assim os candidatos já começam a enganar seus eleitores e a justiça...

* Em fevereiro de 2006, a Polícia Federal investigava esquema de Caixa 2, comandado a partir da estatal Furnas Centrais Elétricas, que pode ter beneficiado, em 2002, 156 políticos da base de FHC, com cerca de R$ 40 milhões. Segundo o documento da PF, já confirmado por peritos como autêntico, Aécio teria recebido R$ 5,5 milhões no ano em que se elegeu governador pela primeira vez.

Mensalão tucano

* Segundo a lista de Cláudio Mourão, ex-coordenador financeiro da campanha de Eduardo Azeredo ao governo de Minas, em 98, usada pela Polícia Federal para denunciar o "mensalão tucano" que derrubou o ministro Walfrido Mares Guia, Aécio recebeu R$ 110 mil para se reeleger como deputado federal em 1998.

* Os 15 denunciados no esquema são, com maior ou menor intensidade, aliados do governador tucano Aécio Neves. A começar por seu ex-vice Clésio Andrade.

* Matéria de 6/10/2005, na Folha de S.Paulo: "Os dados do sigilo telefônico investigadas pela CPI dos Correios revelaram 40 telefonemas trocados (34 dados e seis recebidos) em 2002 entre o celular do publicitário Marcos Valério de Souza e um celular registrado em nome do comitê de campanha do então candidato ao governo de Minas Gerais Aécio Neves (PSDB), atual governador do Estado."

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Esse é o cara com chances reais de chegar à Presidência da República em 2010 – não necessariamente com o aval dos tucanos José Serra e Geraldo Alckmin, mas muito possivelmente com as bênçãos de Lula e do PT mineiro. E que, segundo rumores que não posso provar, mas correm soltos na boca do povo, sequer exerce seu cargo administrativo, para o qual foi eleito e reeleito. A verdadeira governadora de Minas, segundo dizem, é a irmã de Aécio, Andréa Neves.

Quero voltar um pouco no tempo e mostrar pesquisa do Instituto DataFolha sobre a expectativa de governo Aécio e sua avaliação, pelos eleitores, um ano depois de empossado. O tipo de pesquisa que não é divulgada em Minas. De lá para cá, o que mudou, para que a taxa de satisfeitos subisse aos estratosféricos 71% dos mineiros? Certamente, a cobertura acrítica da imprensa não mudou. E a hipocrisia de Fernando Pimentel, tampouco.



Sábado, Maio 03, 2008 [ Fala aí: ]EMAIL

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